Colocar um Tesla no Espaço é um grande feito para o Homem. Já para a Humanidade…

O Espaço não se tornou democrático, liberalizou-se.

A rasgar a monotonia de uma tarde de trabalho e de um mundo pleno de desgraças, nada como a assistir em directo ao lançamento inédito do mais potente foguetão no activo. A história já cativava só pelo seu aparato, mas para a euforia se completar faltava um elemento: um Tesla Roadster a bordo… só porque sim. Ou só porque Musk.

Foi no dia 6 de Fevereiro que a SpaceX marcou de modo indelével o seu nome na história – junto com o do seu fundador, Elon Musk. Mas que dirá a história deste momento a que o presente reagiu com jubilo? Chegaram a ser mais de 2,3 milhões de pessoas a assistir em simultâneo àquele que foi, sem dúvida, um grande feito para o Homem, mas cujas proezas para a Humanidade ainda estão por provar.

Uma proeza equiparável a levar o Homem à Lua

Podemos afirmar que a proeza de Musk é equiparável às missões Apollo, que levaram o Homem até à Lua, mas os seus contornos revelam a mudança do paradigma desde então. Não fosse a SpaceX a primeira empresa a voar com sucesso para o Espaço. Ou não fosse o Falcon Heavy o primeiro foguetão parcialmente reutilizável, que, à imagem dos aviões pode descolar e aterrar, em cenários perfeitos, vezes sem fim.

Infografia do designer Jon Ross a explicar o esquema de aterragem do Falcon Heavy/9

Os 27 motores que conferem potência ao gigante de 70 metros de altura, entraram em ignição por volta das 20h45 (hora de Lisboa) e, depois do grande momento, houve apenas perda a registar – o propulsor central que se perdeu no Oceano. Foi em tudo o resto uma missão bem sucedida, feita com três momentos de aceleração, dois dos quais já fora da zona da atmosfera terrestre, que deixarão a carga a bordo do foguetão – não nos esqueçamos do brilhante Tesla – algures em órbita no Sistema Solar. As primeiras previsões apontavam para Marte mas o sucesso surpreendente da missão parece estar a conduzir o veículo eléctrico até perto da cintura de asteróides.

Democratizar o Espaço? Qual o proveito para a Humanidade?

Aqui chegados é impossível menosprezar o feito de Musk que, apesar dos sucessivos atrasos, cumpriu mais uma das suas megalómanas promessas. Todavia, é imperativo questionar o impacto ou as diferenças desta nova corrida ao Espaço. Se antes falávamos de um feito inédito, apenas ao alcance da força unida de várias nações, hoje o espaço parece estar à distância de mais um empreendedor de Sillicon Valley – e se esta questão parece menor, basta pensarmos no que rege um e outro tipo de instituição e, de passagem, como crescem as empresas nesse vale encantado.

O soundbyte parece nobre – “democratizar o Espaço” – mas, para já, ainda nos diz mais sobre o conceito de Democracia na Terra do que sobre o proveito da Humanidade na exploração espacial liberalizada. Sejamos francos: explorar o Espaço é importante e disso não há dúvidas, fazê-lo a baixo custo também é um contributo simpático mas… qual será o seu aspecto verdadeiramente democrático?

Um Espaço de marketing e de influência

A estratégia de Musk pode baixar o custo das missões espaciais até 100 vezes, mas será essa uma necessidade no mundo em que há quem não consiga pagar o custo de água, alimentação ou outros bens essenciais? É certo que esse não é um problema seu; contudo, não será a consciência o que distingue o bem para o Homem do bem para a Humanidade? Não terá a capacidade de mobilização (ou deva dizer-se antes marketing?) dos empreendedores à volta dos seus sonhos, iludindo a nossa escala de ambições enquanto espécie? Não é ecológico, não é económico, não é humanista. É sobretudo e, por enquanto, fixe, porque a sua utilidade concreta ainda todos desconhecemos e, recordando o Musk de há uns anos a falar de cargueiros espaciais… não se augura grande futuro.

É que se sempre nos habituámos a encarar o mistério do Espaço como pretexto para a aventura científicas, poucas são as palavras de Musk nesse sentido que parece apenas preocupado em aproveitar o Espaço vazio para expandir a sua influência. Não, colonizar outros planetas não se tornou uma possibilidade porque ainda é impossível viver lá — não era só de transporte que necessitávamos. Assim, onde se aplica a tal democracia?

As próximas missões do Falcon 9/Falcon Heavy podem ser a resposta que precisamos para perceber para onde se dirigirá o potente foguetão. Ainda este ano deverá lançar para orbita satélites de comunicações da Arábia Saudita, do exército norte-americano e um teste colaborativo com a Sociedade Planetária.

E onde entra o Tesla Roadster?

O Tesla Roadster é quase um elemento gráfico neste gigante aparato e, sem dúvida, o ex-libris desta estratégia de marketing. Musk já nos habituou às arrojadas jogadas de mercado e aproveitou o momento para elevar todo o seu universo empresarial montando um Tesla no Falcon Heavy da SpaceX. O empresário sul-africano já tinha dito anteriormente que lançaria a coisa mais tola de que se lembrasse, mas não foi assim que o fez – pelo menos a analisar pelo nível de detalhe e mise en scene aplicados a este adereço.

Foto via Space X/Flickr

Um luzente Tesla Roadster vermelho com um passageiro fictício, um painel com a escritura “DON’T PANIC” e banda sonora de David Bowie, numa emulação quase perfeita dos sonhos de ficção científica de gerações passadas, fazem-nos esquecer as dúvidas sobre a inutilidade do feito, uma vez que, calcula-se que o futuro deste Tesla seja… desintegrar-se no Espaço.

O Espaço não se tornou democrático, liberalizou-se

A “utilidade” existe mas não é lá muito democrática. Musk, que ainda na semana passada lucrou perto de 20 milhões de dólares com um lança chamas, fez uma espécie de promoção cruzada entre as suas empresas, aproveitando a surpresa provocada por um momento sem sentido.

Não se trata de moralismo barato, nem de dizer que com o mesmo dinheiro Musk poderia salvar crianças com fome ou fazer algo bem mais louvável. O progresso a nível de engenharia é meritório e louvável e pode mesmo abrir novas rotas para o Espaço para a Humanidade, as restantes conquistas e sucessos (os concretos e observáveis) é que não são tão transversais e a euforia acrítica sempre má conselheira.

O Espaço não se tornou democrático, liberalizou-se. Uma empresa conseguiu fazer o primeiro voo espacial, é certo, mas nem se sabe ao certo por quem esta gigante operação foi financiada, pelo que é difícil perceber ao certo quais as próximas aplicações destas tecnologia. Numa altura em que conceitos como a vigilância em massa, o reconhecimento de voz ou o controlo de dados emergem como principais eixos de preocupação, seria interessante sublinhar com igual entusiasmo que, mais do que tornar acessível a qualquer um viajar para o Espaço, ficou muito mais simples e barato pôr satélites em órbita, uma realidade que com certeza terá muito mais impacto nas nossas vidas do que a possibilidade de abertura de um estância de ski em Marte.

Os foguetões vão ser mais e mais baratos ao longo do tempo, permitindo poupanças com a reutilização dos mesmos (screenshot via SpaceX/YouTube)