Vêm aí as eleições em Itália e Berlusconi está de volta

Os italianos vão às urnas dia 4 de Março de olhos postos na imigração e na segurança e com umas sondagens absolutamente inconclusivas, para as quais o polémico ex-primeiro-ministro é favorito.

Guardam-se muitas memórias de um Erasmus em Milão. Entre as menos óbvias mas mais relevantes, lembro aquela vez em que, numa imponente loja de gravatas na Galleria Vittorio Emanuele II, quando procurava uma prenda de Natal para o meu pai, a senhora que me atendia me disse que era ali que Silvio Berlusconi comprava todos os seus acessórios. Quando lhe disse que isso não era propriamente convincente, respondeu-me entre risos qualquer coisa como, “pois, eu sei, lui è il gallo della Checca, del pollaio!” – uma espécie de “ele tem a mania que é o rei da cocada preta”, confirmando a imagem que pinta o ex-primeiro-ministro italiano como um aficionado das (mais portuguesas) putas e vinho verde.

Depois das acusações de proximidade à máfia calabresa, e de em 2013 ter sido condenado a 7 anos de cadeia pelo Caso Rubygate, por ter contratado uma prostituta menor de idade e organizado uma série de orgias nas suas várias casas, de se ter referido a Itália como “este país de merda” ou a Angela Merkel como “uma gorda com quem não teria relações sexuais”, Berlusconi está de volta.

Il Caimano, como Nanni Moretti carinhosamente lhe chama no filme homónimo sobre a sua carreira mediática e política, vai escapando ileso à justiça e glorificado aos olhos dos italianos. Depois de ter sido ilibado do Caso Ruby em 2015 – num clássico caso de “Berlusconi não tinha como saber que a rapariga tinha menos de 18 anos” – abriu-se novamente a porta ao seu regresso político. Pelo caminho, ainda foi condenado por evasão fiscal e impedido de desempenhar cargos públicos até 2019. A carreira de Berlusconi parecia ter acabado. Agora, é favorito nas eleições de 4 de Março, apesar de toda a comédia satírica que caracteriza o seu filme político, e que o génio de Nanni tão bem retratou em 2006. Homem de alcunhas, como todos aqueles para quem nos faltam palavras, o também Cavaliere voltou à primeira linha do combate político aos 81 anos.

O perigo de mais uma coligação de extrema-direita na Europa

À medida que se aproxima o dia D, as sondagens são cada vez mais risonhas para sul e para a sua coligação de centro-direita. Embora o Forza Italia tenha projecções entre os 15% e os 20%, o que lhe valeria um terceiro lugar de forma autónoma, o ex-primeiro-ministro italiano estendeu a mão a três partidos da extrema-direita e da direita populista: a Liga (antiga Liga Norte), os Irmãos de Itália e o Nós com Itália. Com os pontos todos somados, as sondagens conferem ao bloco encabeçado por Berlusconi valores que quase batem nos 40%, ou seja, bem à frente do Movimento 5 Estrelas do comediante Beppe Grillo (M5S, que as sondagens colocam entre os 25% e os 30%, num primeiro lugar pouco seguro) e do Partido Democrático (PD, que deverá ter entre 20% e 25% dos votos).

E estes serão os números conhecidos até os italianos irem às urnas, até porque não vão haver novas sondagens até lá. Como sempre, os inquéritos estão proibidos nas duas últimas semanas de campanha.

“Sem maioria”, como escolheu escrever o Corriere della Sera, é impossível perceber quem vai conseguir formar uma maioria nas duas câmaras do Parlamento, para governar o país que mais vezes muda de Governo na Europa.

Aparentemente, é a coligação de direita e extrema-direita que ditará as regras das negociações. Com uma lei eleitoral por testar, que mistura o sistema proporcional com o uninominal, sabe-se que o resultado que se prevê para a coligação, não será suficiente para obter a maioria. Os especialistas estimam ser preciso uns 40% para lá chegar.

Em segundo surge o Partido Democrático, no poder, com Matteo Renzi, que se demitiu em Dezembro de 2016 por causa do chumbo ao referendo da sua reforma constitucional, de novo como candidato, que soma 22,9% dos votos. Somando estes eleitores aos que admitem votar em partidos com que o PD já se entendeu, chega-se aos 27,4%.

A juntar a toda esta confusão numérica, há milhões de indecisos que podem virar completamente o jogo esperado e o resultado das sondagens preliminares. Os politólogos acreditam que os eleitores descontentes com o PD podem estar dispostos a votar anti-sistema.

Nada disto é novo em Itália, onde cada eleição é uma viagem de montanha russa, uma daquelas onde, aos altos e baixos, se juntam as curvas inesperadas e as contra-curvas surpresa. O que tudo isto significa é que pode ser preciso haver novas eleições, sem qualquer garantia de resultados diferentes. A Liga de direita pode até vir a coligar-se com o 5 Estrelas mais à esquerda, e Berlusconi pode preferir dar a mão ao centro, em vez de se aliar à direita mais extrema que a sua. Os italianos vão às urnas às escuras, sem saber o que será feito com os seus votos, numa altura em que a situação social do país pedia mais estabilidade que esta.

De olhos postos na imigração e na segurança

A gravidade é tal, que os temas têm ultrapassado o já costumeiro circo político italiano nas capas dos jornais. Uma série de ocorrências racistas têm marcado o dia-a-dia de Itália. Têm sido organizadas várias manifestações anti-imigração que várias vezes têm terminado em violência – como foi o caso mais explícito, na cidade de Macerata, quando no início do mês Luca Traini, um ex-candidato da Liga do Norte, disparou contra seis imigrantes africanos, segundo a polícia “lúcido e determinado, consciente do que tinha feito”, sem mostrar quaisquer remorsos.

Os italianos dividem-se entre os que se manifestaram há duas semanas e voltarão a fazê-lo no próximo sábado contra este crime e contra o racismo, e os que têm medo da imigração dos últimos anos e viram nos disparos de Traini uma forma de justiça a Pamela Mastropietro, italiana de 18 anos assassinada no fim de Janeiro por um suspeito nigeriano — o seu corpo foi encontrado desmembrado nos arredores de Macerata.

Como sempre, mais do que preocupados com o rumo que o debate está a levar, os líderes políticos aproveitam a situação para fazer campanha. No meio da violência, Silvio Berlusconi apresenta como uma das suas iniciativas a expulsão de 600 mil imigrantes alegadamente entrados de forma ilegal em Itália, se ganhar as eleições. Neste quadro, e de acordo com uma sondagem do diário La Repubblica, 71% dos italianos acredita que a presença de estrangeiros no país é demasiado alta. Para 31%, a imigração é mesmo o principal problema de Itália e 64% pensa que a crise dos refugiados dos últimos anos foi muito mal gerida.

O debate em torno da matéria está a extremar posições e os analistas temem que isso acabe por resultar na concentração de votos nos partidos mais à direita do espectro político italiano. Enquanto os restantes líderes do centro-esquerda, como Matteo Renzi, tentam não se envolver no tema, a direita e a extrema-direita não hesitam em cavalgar nos receios dos italianos. Matteo Salvini, líder da Liga, diz que “enquanto italiano” se sentiu “envergonhado pelas manifestações” contra o racismo. Attilio Fontana, candidato da Liga na Lombardia, afirmou temer “que a raça branca desapareça” por causa de “tantos imigrantes”, frase que depois tentou explicar como um lapso.