Semana de ouro nas salas de cinema nacionais

Esta semana os astros (ou os filmes) alinham-se numa configuração muito especial nas salas do nosso país, com pelo menos 6 exímias produções em exibição.

Começa a ser uma espécie de tradição. Todos os anos começam com a chegada em barda dos filmes mais badalados do ano anterior aos cinemas nacionais — este ano não é excepção. Depois de na semana passada ter sido revelada a lista de nomeações aos Óscares, que por muito que se critique serve sempre de referência, esta semana os astros (ou os filmes) alinham-se numa configuração muito especial nas salas do nosso país, com pelo menos 6 exímias produções em exibição. O destaque vai, como não podia deixar de ser usando os Óscares como referência, para o cinema americano mas não só, com Loveless do russo Andrey Zvyagintsev a ser a saudável excepção. De resto, esta semana podemos encontrar nas salas de cinema um pouco por todo o país alguns dos filmes que maior destaque mereceram na lista de produções do ano transacto, como The Shape of Water ou Three Billboards Outside Ebbing, Missouri.

The Shape of Water – Guillermo del Toro

Guillermo del Toro há muito que conquistou os cinéfilos com os fantásticos mundos que saltam da sua cabeça para o grande ecrã. A Forma da Água (tradução portuguesa) é o seu mais recente projecto cinematográfico sobre uma peculiar relação amorosa entre Elisa Esposito (Sally Hawkins), uma empregada de limpeza numa base secreta americana, e um humanoide anfíbio (Doug Jones), que é mantido cativo para testes nessa mesma base. O enredo desenrola-se em Baltimore, durante a Guerra Fria, no início da década de 60, o tipo de ambiente de tensão e conflito que del Toro adora apropriar e moldar. Elisa é muda e comunica através de língua gestual, como tal é marginalizada e tida como inofensiva perante os segredos do governo americano. Porém, com a captura da misteriosa criatura, a qual almeja libertar, Elisa acredita ter encontrado o seu par naquele mundo sombrio.

Com 13 nomeações, A Forma da Água lidera a corrida aos Óscares e deste artístico filme espera-se o mesmo que o realizador conseguiu com O Labirinto do Fauno: uma história onde a fantasia algo medonha serve de metáfora para os tempos de instabilidade provocados pela iminência de um novo conflito militar de grande escala.

Three Billboards Outisde Ebbing, Missouri – Martin McDonagh

Três Cartazes à Beira da Estrada (tradução portuguesa) chegou esta semana ao cinema e promete envolver o espectador numa história simples, dramática e muito bem contada. Mildred Hayes, interpretada por Frances McDormand, é uma mulher de meia idade cansada e frustrada pela incompetência das autoridades policiais em investigar o assassinato da filha. A partir deste estado de espírito resolve usar três outdoors na região onde vive, chamando a atenção para o seu problema. Esta premissa irá impactar no desenrolar da história e consequentemente abalar profundamente os habitantes da zona, sobretudo os polícias Bill Willoughby e Jason Dixon, protagonizados por Woody Harrelson e Sam Rockwell, respectivamente.

O filme encontra-se muito bem posicionado para os Óscares de 2018. Frances McDormand é a favorita ao prémio de Melhor Actriz, já Woody Harrelson e Sam Rockwell estão ambos nomeados para melhor actor secundário. Three Billboards Outside Ebbing Missouri conta ainda com a nomeação para Melhor Filme, Melhor Argumento Original e Melhor Montagem.

Phanthom Thread – Paul Thomas Anderson

Phantom Thread narra a vida do estilista fictício Reynolds Woodcock, o principal nome do glamour londrino dos anos 50, responsável pelo guarda-roupa de membros da Família Real, estrelas de cinema, figuras da alta sociedade, debutantes e damas com o distinto estilo da Casa Woodcock. Linha Fantasma, como se chama na tradução portuguesa, é também uma história de amor entre um mestre e a sua musa. Protagonizado por Daniel Day Lewis, rumour has it que será o último filme do actor depois de 40 anos entregues à profissão. É a segunda vez que Day Lewis faz dupla com Paul Thomas Anderson, depois de There Will Be Blood, em 2007.

O realizador norte-americano, que é considerado um dos maiores da sua geração, tem estado mais dedicado aos videoclipes e a sua relação intrínseca com a música deu frutos também no seu mais recente filme, tendo a banda sonora ficado entregue ao guitarrista dos Radiohead, Jonny Greenwood. Está nomeado para seis Óscares: Melhor Filme, Melhor Actor, Melhor Actriz Secundária(Lesley Manville), Melhor Realizador, Melhor Guarda-Roupa e Melhor Banda Sonora Original.

Darkest Hour – Joe Wright

Darkest Hour (A Hora Mais Negra, em português), de Joe Wright, tenta provar uma das mais antigas concepções do cinema: uma biografia sobre influentes personagens históricos tem sempre altas probabilidades de sucesso. O thriller político descreve o início da carreira política do mediático primeiro Ministro inglês, Winston Churchill (Gary Oldman), durante a Segunda Guerra Mundial. Com a Alemanha a ganhar terreno nos conflitos em França, Churchill vê-se obrigado a negociar com Hitler um tratado de paz ao mesmo tempo que enfrenta pressão interna pelos partidos políticos e até pelo Rei para tomar acção.

Encabeçado pela assombrosa prestação de Gary Oldman, A Hora Mais Negra caminha para os nossos cinemas com a confiança apropriada de quem traz consigo o principal candidato a ganhar o Óscar na categoria de Actor Principal Masculino. O material publicitário reflecte isso mesmo, apoiando-se na prestação do adorado actor como a sua principal cartada, sendo que, em caso de vitória, esta será a primeira vez que o Gary Oldman será consagrado pela academia. O elenco secundário é também ele estelar, com especial atenção para Kristin Scott Thomas como a grande mulher do político inglês, o único apoio de Churchill numa situação quase impossível de controlar.

The Post – Steven Spielberg

The Post remete-nos para os afamados Pentagon Papers, quando o analista militar Daniel Ellsberg copiou ilegalmente milhares de páginas de relatórios de um estudo interno sobre a Guerra do Vietname e depois os divulgou a jornais, que assim desvendaram como a Casa Branca tinha passado décadas a mentir ao público americano, para não sofrer a humilhação de ser o lado perdedor de um conflito bélico.

O filme de Spielberg, nomeado para dois Óscares foca-se na decisão de Katherine Graham (Meryl Streep), proprietária do The Washington Post, mulher bem posicionada na capital, com vários amigos influentes e na Administração que, correndo o risco de ver o seu jornal fechar, se vê indecisa entre manter o seu status social ou publicar os documentos oficiais, aproveitando para fortalecer a sua posição como a única mulher do país na liderança de um jornal. É considerado por muitos um dos maiores snubs dos Óscares deste ano, por reunir veteranos do cinema como Steven Spielberg, Meryl Streep e Tom Hanks, mas ter apenas conseguido uma nomeação para Melhor Filme e outra para — obviamente — Meryl Streep, como Melhor Actriz.

Loveless – Andrey Zvyagintsev

Depois de assinar Leviathan, que competiu por Palma de Ouro e Óscar em 2014, Andrey Zvyagintsev cravou o seu nome nos circuitos mais mediáticos de cinema. Vindo da distante e fria Rússia, mais propriamente da Sibéria, traz consigo mais um carregado drama, à imagem da sua longa anterior. Loveless é também ele rodado na língua original do realizador o que aumenta o grau de exotismo da película e a torna mais especial — se fosse tudo em inglês, que seria do russo?

Loveless conta a história de um casal a meio de um difícil processo de divórcio que tem de unir esforços na busca do seu filho de 12 anos, que desaparece. Prontos a seguir as suas vidas, e já com outras pessoas finda que está a sua relação, Zhenya e Boris vêem-se obrigados a suspender o seu futuro em nome de uma missão conjunta e maior.

Depois do mencionado Leviathan, Andrey Zvyagintsev conquista também com Loveless mais uma nomeação para os Óscares na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.