Recordar Bob Marley, no ano em que faria 73 anos

Se fosse viva, a primeira "super estrela" a emergir do terceiro mundo celebraria, esta semana, o seu 73º aniversário.

Bob Marley

Visto como uma lenda em todo o mundo, um profeta para os povos africanos, Bob Marley foi a primeira “super estrela” a emergir do terceiro mundo. O lendário vocalista dos The Wailers, considerado pela Rolling Stone o 11º artista mais prestigiado de todos os tempos, viu a sua música marcar presença com frequência nos tops discográficos jamaicanos, britânicos e americanos.

Foi premiado e distinguido com o Grammy Lifetime Achievement, a Ordem de Mérito da Jamaica e a Medalha da Paz do Terceiro Mundo por parte da ONU. Robert Nesta Marley nasceu a 6 de Fevereiro de 1945 em St. Ann, filho de mãe jamaicana e pai britânico. Soube desde cedo o que era ser discriminado e posto de lado. Não por vir de um país de terceiro mundo, mas sim pelo facto de ser mestiço e por viver em Trench Town, uma das províncias mais pobres da capital jamaicana. Em Kingston, um simples diálogo com a polícia podia correr mal para o “white boy”, caso descobrissem de onde vinha.

Enquanto território ultra-marítimo britânico, a Jamaica albergava uma sociedade de negros governada por brancos, em que a opressão, violência e tensão política eram tradicionais agravantes do antigo conflito entre o domínio espanhol e britânico sobre a ilha que não conhecia outro passado que não o colonialismo. A música tornou-se um refúgio e um passatempo, permitindo suportar uma indústria lucrativa, tendo em conta o seu sucesso nos EUA e Reino Unido.

No tempo do vinyl, o Ska e o Rocksteady eram os dois estilos musicais de maior afluência na sociedade jamaicana, sendo que a influência das rádios americanas e britânicas se fazia sentir sobretudo nas gerações de músicos mais jovens, através do jazz, soul e blues. Nesta época, Bob não tinha rastas nem usava as roupas simples que muito o caracterizam. Com 16 anos, actuava vestido de forma clássica, de smoking e papillon e foi quando gravou os seus primeiros singles “Judge Not”,”One Cup of Coffee”, “Do You Still Love Me?” e “Terror” para o produtor Leslie Kong. No entanto, foi com “Sir Coxsone” Dodd (Studio One) em 1963, que Bob formou com Bunny Wailer e Peter Tosh o trio de vocalistas que, juntamente com Junior Braithwaite, Beverley Kelso e Cherry Smith viria a dar origem aos Teenagers, mais tarde Wailing Rudeboys, Wailing Wailers e, por fim, The Wailers.

“Simmer Down” torna-se no nº 1 da Jamaica em 1964 e veio a fazer parte do primeiro álbum – The Wailing Wailers (1965) – juntamente com êxitos nos quais está incluída a versão original do tema “One Love” em Ska. A influência da ideologia rastafari e a intenção em colocá-la na sua música, levou a algumas divergências com Coxsone Dodd, razão pela qual deixou de produzir na Studio One e procurou fazer algo diferente com um novo produtor.

A transição para o reggae dá-se com a ajuda de Lee “Scratch” Perry (The Upsetters), um “lunático” considerado o produtor/músico jamaicano mais arrojado, futurista e inovador da época, que possivelmente, poderás já ter ouvido na KJR do GTA V. Desta combinação, resultaram os álbuns Soul Rebel (1970) e Soul Revolution (1971), produzidos na Trojan Records, destacando-se “Trench Town Rock”, “Soul Rebel” e “400 Years” que, mais tarde, inspiraram temas como “Satisfy my Soul” (“Don’t you rock my boat”). Esta foi uma das fases mais importantes da formação do conceito de reggae apresentado por Bob Marley e The Wailers, que começou até por ser confundido com o R&B nos EUA.

O então chamado Rude Blues passou a ser tendência, uma corrente artística adoptada por revolucionários e associada à crítica social e política, que divergia do Ska e Rocksteady muito ao nível da produção, lírica e mensagem. Era inventado e reinventado à medida que eram lançados novos vinis no mercado, caracterizando-se sobretudo, por uma combinação de sons que dependia totalmente do “desleixo” da guitarra (a que chamavam reggay), da percussão e do abrandamento do ritmo. E o que é este “desleixo”? É curiosamente uma das origens da palavra “reggae”. Uma acidental “arranhadela” nas cordas da guitarra, que sugeriu alterações no bass e no ritmo. O Ska e o Rocksteady fundem-se ao som do “Do the Reggay” dos Toots and Maytals e dão-se os primeiros passos na criação de um novo estilo musical.

Nesta sequência, os The Wailers juntam-se à Island Records de Chris Blackwell, gravam Catch a Fire (1973) e apresentam o reggae para o mundo. Com a mesma produtora, sucedem-se Burnin (1973) e Natty Dread (1975), que focam a política enquanto principal responsável pela degradação da sociedade, denunciando o conflito na Jamaica entre o PNP (People National Party) e o JLP (Jamaica Labour Party) – “Rebel Music (3 O’clock Road Block)” e “Revolution” , relata o episódio de tensão com membros do exército durante as eleições de 72.

O tema “No Woman No Cry” chega ao Top 40 da BBC e no ano seguinte, os The Wailers são considerados a melhor banda do ano pela Rolling Stone com o álbum Rastaman Vibration (1976), que esclarece a ideologia Rastafari, levando ao ocidente uma mensagem de fé e interesse na mudança – “Positive Vibration” e “Roots, Rock Reggae” dão a conhecer o reggae enquanto música feita para ser ouvida e dançada, cativando um profundo ambiente de energia positiva.

Já o tema “War”, rejeita a mentalidade colonial e defende uma nova África e um novo mundo sem qualquer tipo de opressão ou hierarquização racial. Imortaliza ainda o discurso de Haile Selassie (antigo Imperador da Etiópia – o “messias” do movimento Rastafari), na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em 1936, quando apelou à paz mundial e à união de todos os povos africanos, manifestando-se contra o colonialismo, a guerra e o uso de armas químicas.

Exodus (1977) foi considerado o melhor álbum do séc. XX pela revista Time e foi o que mais vendeu. É de realçar a forma directa e equilibrada como são abordados temas como política, religião e amor. Do mesmo álbum, saíram músicas que só mais tarde foram lançadas no álbum Kaya (1978), revelando o amor como principal tema (“Satisfy My Soul” ,“Is This Love”).

Uprising (1980) trouxe “Could You Be Loved” e “Redemption Song” com a intenção de despertar o lado emotivo do ouvinte, cruzando realidades de natureza social e política.

Para além do largo reportório, é importante recordar também a atitude com que Bob lidou com a vida no seu país de origem, permitindo-o crescer e dar a conhecer ao mundo os seus ideais, eternizando-os. Foi ameaçado e chegou a sair da Jamaica temporariamente para sua própria protecção. Protagonizou grandes feitos, desde o concerto na cerimónia oficial da independência do Zimbabué, à retaliação dos dois partidos em oposição da Jamaica que pôs fim à guerra civil e uniu finalmente o país, durante o One Love Peace Concert.

Passadas décadas, a obra de Bob permanece intacta. A sua mensagem é clara. Nas suas letras, a frequente presença de referências à ideologia e conduta estabelecida pelo movimento rastafari, revela ser um ponto de partida para a mudança que este quer ver no mundo. Defendeu que a vida faz mais sentido se vivermos para os outros e não apenas para nós, aprendendo a cativar o melhor daqueles que nos rodeiam (“Live for yourself and you’ll live in vain, Live for others and you’ll live again”).

Segundo o mesmo, a única forma de o fazer é libertar a mente humana do ego, do consumo induzido e dos bens materiais, abandonando aos poucos a filosofia de vida em “matriz” imposta pelos governos do ocidente que, para além de promover uma injusta hierarquização da sociedade, corrompe o Homem, tornando-o escravo do sistema. Deste modo, assumo que falar de reggae e de Bob Marley, torna imprescindível perceber na íntegra a ideologia rastafari e o seu fundamento. Contudo, será decerto o tema ideal para aprofundar num próximo artigo.