“No Tempo Todo”: a profunda retrospectiva do pintor Álvaro Lapa em Serralves

São centenas de obras — perto de 300 para sermos mais específicos, que possibilitam uma viagem pelo imaginário do artista que alinhou no surrealismo sem se render a uma corrente evidente.

Pode não ser um dos nomes mais conhecidos, nem ter um dos corpos de trabalho mais apelativos à primeira vista mas Álvaro Lapa, alentejano, escritor e pintor, desde cedo autodidacta, é uma das figuras da arte nacional a despertar maior curiosidade e interesse como o prova a profunda retrospectiva da sua obra em exposição no Museu Serralves.

São centenas de obras — perto de 300 para sermos mais específicos, que possibilitam uma viagem pelo imaginário do artista que alinhou no surrealismo sem se render a uma corrente evidente, criando um trabalho único e altamente críptico que se torna por isso fascinante.

Álvaro Lapa nasceu em Évora em 1939, e teve um percurso rico e diverso, influência expressa no mistério das suas obras. Apesar de se notabilizar na pintura, foi em Filosofia a sua formação académica tendo dado aulas de Estética a partir de 1975 na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde passou a fase final da sua vida.

Tem dos mestres beat Kerouac, William S. Burroughs, e doutros grandes nomes da pintura e da literatura como Motherwell, Homero, Céline ou Kafka, uma inspiração inegável, e na palavra a base de quase todas as criações, mesmo que por vezes a omita.

A obra de Lapa agora exposta divide-se entre o que expôs em vida, essencialmente em duas grandes exposições, uma em Lisboa e outra no Porto, mas vai mais além, reunindo um conjunto de trabalhos inéditos dispersos por coleções privadas proporcionando assim um momento único de retrospectiva sobre a obra do artista.

As suas criações formam um complexo e enigmático universo que se divide entre as formas que parecem repetir-se entre quadros criando uma linguagem simbólica própria e a expressão abstracta que abala a ordem deste sistema. Entre a sua longa obra é possível estabelecer divisões entre a exploração da figura, das paisagens e, pura e simplesmente das palavras, neste último caso, por exemplo na série de mini-poemas bordados atribuída ao seu alter-ego Abdul Varetti.

O profundo mergulho na obra deste artista, sublinhe-se, auto-didacta é mais do que uma celebração consensual da sua obra, uma tentativa de descodificação dos enigmas por ela criados. A obra de Lapa é pela sua sinceridade técnica (leia-se como o contrário de aprimoramento estético) um tratado sobre o lado mais humano, errante e ingénuo da expressão artística, uma perspectiva que também nos oferece sobre os seus ídolos na série Cadernos — conjunto de peças em que o artista se propõe a imaginar como seriam os simples cadernos de grandes autores.

Caderno de Homero / Álvaro Lapa

A exposição, de seu nome “No Tempo Todo” é uma das grandes iniciativas do Museu de Arte Contemporânea de Serralves para abrir 2018 e o período de direção de João Ribas, recentemente anunciado como novo director do museu depois de um concurso internacional promovido pela Fundação Serralves.

“No Tempo Todo” estará patente na grande casa de exposições do Porto até ao dia 13 de maio.

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