Linda Martini invade-nos o âmago. Ao vivo dói ainda melhor.

Em disco é fenomenal e rapidamente se justificou a velocidade a que os bilhetes esgotaram.

O calor humano no interior do Lux fazia o contraste perfeito com a noite que se encontrava do outro lado da parede. Os Linda Martini ocuparam a casa de corações cheios de vontades saciadas por música nova. Se em disco o álbum entra bem, em palco é de partir a louça toda. Mas já lá vamos.

As portas abriram às 22h e a hora de espera prevista serviu simultaneamente de abrigo e de salivação até que o palco fosse pisado. Rapidamente se justificou a velocidade a que os bilhetes esgotaram. Sem se dar por isso um loop do final da Semi Tédio dos Prazeres irrompia pelas colunas e servia de presságio para a chegada da banda, mas o público esteve tímido até os quatro músicos lhes chegarem aos olhos. A banda interrompeu as ovações, prosseguiu com a canção e, à excepção de Gravidade, seguiu a tracklist do disco homónimo até chegar ao segundo single, Boca de Sal onde já se fazia ouvir um público ainda meio envergonhado.

O cenário parecia caótico, um pano de plástico com alguns remendos de fita-cola como plano de fundo dava a entender que estávamos num quarto com o Dexter e as nossas vísceras pareciam à espera de serem expostas às luzes da sala de concertos. Ou lançando outra hipótese: os Linda Martini mataram Linda Martini. A ideia de mostrarem a cara por detrás do nome quase que funciona como a explicação do truque de magia, ao mesmo tempo que soa a ponto final. No melhor dos casos, esperemos que a decoração da sala seja apenas um acaso infeliz e a especulação não passe de mera ansiedade.

Depois de tocarem músicas que nos eram mais familiares e de nos chamarem à atenção para a nossa ausência em espírito, lá tentámos ripostar e fazer a festa. Quando finalmente chega a (puta da) Gravidade, lá surge um mosh pit e a plenos pulmões gritamos o refrão. Sente-se o que se grita e grita-se o que se sente.

Fotografia de Bárbara Monteiro/Shifter
Fotografia de Bárbara Monteiro/Shifter

É um sentimento ingrato estar, de modo geral, bem com a vida e ouvir todos os males que esta banda canta que, de tão bem saber descrever os nossos âmagos nos nossos piores dias, nos deixa saudade de sentir esses males para que a ressonância vibre no seu mais alto esplendor. As letras cantadas em uníssono são o trunfo que nos vale — e acabam por distribuir a dor uniformemente por todos.

Se Me Agiganto tem o tom perfeito para acabar um álbum, mas imperfeito para acabar um concerto, de modo a que não se esperou muito que viesse encore. E é aqui que se nota o tamanho que esta banda já apresenta. Ignorando o facto de que estão a apresentar um disco novo, uma setlist já não consegue comportar todas as nossas músicas favoritas da banda. Infelizmente não houve espaço para Volta do Turbo Lento, Juventude Sónica do Casa Ocupada ou Dá-me a Tua Melhor Faca do Olhos de Mongol, por exemplo.

Deu para soltar a réstia de energia em Amor Combate e para as cordas vocais cederem em Cem Metros Sereia. Deu para vermos o Hélio Morais e o Pedro Geraldes a surfar por cima de nós e ainda deu para ver um abraço fraterno de André Henriques e Cláudia Guerreiro. Deu para voltar de coração cheio para casa e esperar que os voltemos a ver em breve.

Fotografia de Bárbara Monteiro/Shifter
Fotografia de Bárbara Monteiro/Shifter