Há um acordeonista português de 25 anos a impressionar o jazz internacional

Aos 25 anos, é considerado um dos mais importantes acordeonistas do mundo na actualidade.

Fotografia por Márcia Sofia Lessa

Já não se pode dizer que João Barradas seja um novo nome no panorama do jazz português. Começou a tocar acordeão aos 6 anos, fez-se coleccionador de prémios desde os 9 e nestes últimos dois anos editou dois discos: Directions em 2016, e An End as a New Beginning num projecto chamado Home, lançado em Outubro do ano passado. Aos 25 anos, é considerado um dos mais importantes acordeonistas do mundo na actualidade, transportando o seu instrumento para contextos em que não estamos acostumados a ouvi-lo.

Entre ensaios e preparativos para o concerto, conseguimos roubar alguns minutos para que nos respondesse a algumas perguntas sobre o início da sua carreira, o que está para vir e de que forma é que o que já passou pode influenciar o seu futuro.

Desde muito cedo começaste a coleccionar prémios a destacar o teu virtuosismo no acordeão. Ainda te lembras do primeiro contacto que tiveste com o instrumento?

Lembro-me perfeitamente! A minha educadora teve a ideia de criar um pequeno rancho para aprendermos as tradições ribatejanas. Convidaram uma acordeonista profissional para ir ao jardim de infância e aí se deu o meu primeiro contacto. Recordo-me bastante bem do instrumento. Azul, com imensos botões dos dois lados tocado por uma jovem que se chamava Carla. Lembro-me que na altura a música em si que saía daquele instrumento não foi o que mais me atraiu. Foi mesmo o design, a caixa, o poder criar um som daquela forma. Logo a seguir pedi à minha mãe que me inscrevesse numa escola de música para aprender acordeão. Depois da minha entrada nessa academia necessitei de comprar um instrumento próprio para tocar em casa. E esse momento, não sendo o primeiro contacto, é uma das ocasiões mais marcantes da minha vida, Lembro-me de tudo, de agarrar o acordeão, a Loja em Vila Franca de Xira, do cheiro da sua caixa…

Foi com Directions que nos deste a conhecer as tuas composições. Foi um passo natural tocar canções originais ou existiu algum processo de aprendizagem complementar ao que já executavas previamente?

Foi bastante natural. Componho desde que me lembro. O Directions é uma espécie de livro de consulta num formato de música original. Um resumo da minha história pessoal até 2015. Foi realmente um momento muito especial, não só por ter sido o primeiro mas, e principalmente, pelas pessoas que me acompanharam no processo de escrita e gravação. A formação foi um sonho para mim: Greg Osby, Gil Goldstein, André Fernandes, Sara Serpa, João Paulo Esteves da Silva, André Rosinha e Bruno Pedroso. Não podia ter pedido melhores companheiros para esta aventura. Muitos deles moldaram não só o som do disco como foram uma influência musical em toda a minha adolescência. Escrevi a pensar nestes músicos e em todas as “direcções” que a minha vida tomou nos últimos anos.  Alguns temas são mais antigos, outros escrevi apenas para a gravação, como o caso de “Expressive Idea”. À excepção de “Tiling The Plane” que é assinada pelo Gil Goldstein, são todas composições minhas com diversas influências, desde o MBase ao Swing.

Como se conta a história de Home? Desde os integrantes que compõem o projecto até ao processo de composição e gravação de An End as a New Beginning, como foi o desenvolvimento deste disco? E a que se deve a ausência do acordeão neste registo?

Sempre tive a ideia de criar uma banda com duas guitarras eléctricas. Essa formação permitiria um som mais eléctrico e agressivo. Mas começámos por ser uma banda de Jazz “Tradicional”, tocávamos Standards com arranjos para esta formação. Acabámos mesmo por vencer o Prémio Jovens Músicos da Antena 2 na categoria Jazz. Convidei para o projecto o Gonçalo Neto (Guitarra), que é um dos membros que já conheço há mais tempo. Logo de seguida, Eduardo Cardinho (vibrafone) e Mané Fernandes (Guitarra), companheiros de várias aventuras e, pessoalmente, dos melhores improvisadores em Portugal. A secção rítmica formou-se logo a seguir com os membros mais jovens, Ricardo Marques (baixo) e Guilherme Melo (bateria). Tivemos um concerto na Casa da Musica para o qual escrevi o tema “An End As A New Beginning” – substituímos o contrabaixo pelo baixo eléctrico e as guitarras garantiam as melodias da banda. De imediato percebemos que aquele era o som da banda, era natural e muito divertido de tocar. E assim foi, escrevi mais uma dezena de peças todas com pequenos motivos retirados de “An End As A New Beginning” e ficámos com um grupo com uma música algo agressiva e cheia de compassos compostos. Gravámos o nosso CD e DVD com uma co-produção da Fundação GDA e da Fundação Calouste Gulbenkian. Gravámos no grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, uma das salas mais emblemáticas do país. O DVD encontra-se online no YouTube. O acordeão está presente mas no formato de Sintetizador.  A escolha foi muito fácil, ouvi toda aquela música na minha cabeça sendo interpretada por uma espécie de teclado eléctrico e por um MiniMoog. Não acredito no instrumento como forma de definição enquanto músico. Acredito sim na ideia musical por si só, onde o timbre é importantíssimo nessa equação e por isso mesmo escolhi este acordeão “diferente”.

Disco este que vão apresentar na sexta-feira na Culturgest. Com o que é que podemos contar neste quase-inédito concerto em Lisboa?

Tocar na Culturgest é sempre um enorme gosto. Ainda para mais o concerto esgotou muito rapidamente. Vamos apresentar o álbum mas com arranjos e configuração diferente. A improvisação ganhou ainda mais destaque e a forma dos temas adquiriu uma nova dimensão. Ainda nos estamos a habituar a esta ideia, tem muito risco em palco, os temas não são óbvios para improvisar e a música obriga a uma certa “força”. Estamos a divertirmo-nos como nunca neste processo e espero que o público se possa juntar a nós nessa procura. Os Home tocaram imenso nos últimos dois anos, dentro e fora do circuito do Jazz mas este concerto será um dos raros momentos para verem a banda em Lisboa.

E para lá do concerto, o que reservas para um futuro próximo? Tens mais projectos em mente ou planeias estender os que já tens presentemente?

Os Home gravarão um novo álbum no próximo ano, estamos a trabalhar para reunir todas as condições possíveis à criação da nova música. Nos últimos meses fiz alguns concertos com músicos que admiro como o saxofonista Mark Turner ou o guitarrista Miles Okazaki, alguns desses contactos vão-se manter nos próximos meses. 2018 vai ser um ano de muito estudo e de muitos concertos. Como sideman vou estar presente em grupos como o André Rosinha Pórtico, o Eduardo Cardinho Quarteto, o Daniel Bernardes Crossfade Ensemble. Internacionalmente vou continuar a fazer alguns concertos com Mike Stern, Fabrizio Cassol, Cairo Jazz Station, Alain Platel, Aka Moon e Greg Osby. Estou neste momento a escrever o meu terceiro álbum que só sairá em 2019. É a minha primeira banda internacional e vai ser muito diferente dos dois primeiros registos, pelo menos a nível estético. Apresentarei este projecto nos próximos meses e será editado novamente pela Inner Circle Music e pela Nischo. Conheci estes músicos em NY e na Europa e assim que tocámos pela primeira vez soubemos que tínhamos de fazer algo, a música viveu do momento e partilhamos muitas ideias musicais, estética e conceitos. A música vai estar muito dentro das noções que tenho usado para a minha improvisação: simetria, politonalidade, independência, etc. Outro projecto que me está a dar bastante trabalho. Neste momento estou muito focado em escrever para formações contemporâneas, estudando com o compositor português Luís Tinoco.

Esta sexta-feira na Culturgest!

Publicado por João Barradas em Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

Pelo Shifter já acompanhamos há muito o jovem acordeonista português que tem feito as delícias da crítica internacional e que é a prova de que em Portugal o jazz está vivo e a dar cartas.