A ONU quer mudar o nome da Macedónia mas os gregos não deixam

Dezenas de milhares de pessoas concentraram-se em Atenas contra um possível acordo entre a Grécia e a Macedónia sobre a nova designação para o país oriundo da ex-Jugoslávia.

Grécia República da Macedónia
Via Twitter https://twitter.com/IoannouKleo/status/960125432023670790

Os números das pessoas participantes no protesto deste Domingo na Praça Sintagma, na Grécia, variam entre os da organização que quer fazer valer a sua causa e os da polícia que tentou acalmar os ânimos. 140 mil para as autoridades, 1,5 milhão para os organizadores da manifestação, mas as imagens não enganam. Não cabia mais uma pessoa na principal praça de Atenas, tudo por causa de um debate antigo.

Em causa está um possível acordo entre a Grécia e a Macedónia sobre a nova designação para o país oriundo da ex-Jugoslávia. Se à primeira vista o motivo de protesto pode não ser muito óbvio, importa retroceder até 1991.

Desde a independência da região, nesse ano, que os gregos contestam a inclusão da palavra “Macedónia” no nome do país, porque esse é também o nome de uma região no norte da Grécia, muito importante para a história helénica — região que inclui a cidade de Salónica, a partir de onde Alexandre o Grande, terá iniciado a expansão do seu império no século IV a.C. que se estendeu até ao território onde hoje fica a Índia.

Até ao início do século XX, a Macedónia era uma província que integrava o Império Otomano, mas as guerras nos Balcãs que antecederam a I Guerra Mundial acabaram por dividir o território. O Sul passou a fazer parte da Grécia e o Norte passou para as mãos da Sérvia – essa divisão fixou as linhas de combate até hoje. À conta da discórdia, a Grécia tem bloqueado a adesão dos vizinhos à NATO, ao mesmo tempo que tem travado as negociações para uma futura integração do país na União Europeia.

As hipóteses em cima da mesa, que este ano voltaram a ser discutidas sobre mediação das Nações Unidas, são “Nova Macedónia” ou “Macedónia do Norte” em vez da actual Antiga República Jugoslava da Macedónia, nome que surgiu em 1993 para tentar pôr fim à polémica e que seria provisório.

Foi a única forma de a Grécia concordar com a entrada do país na ONU e na altura a maioria das organizações internacionais adoptou a mesma designação, mas são muitos os que abandonaram entretanto a referência provisória. Estima-se que 90 países reconheçam o país como República da Macedónia ou, simplesmente, Macedónia.

Mas o problema manteve-se e transformou-se mesmo numa das principais causas do movimento nacionalista grego, que defende que “macedónia” e  “macedónios” apenas podem ser utilizados para referir a região grega e os seus habitantes.

O pequeno país balcânico tem negado qualquer ambição territorial mas nem sempre lidou com a questão desta forma. O anterior Governo, liderado pelo nacionalista Nikola Gruevski, aproveitou a controvérsia para, por exemplo, dar o nome de Alexandre, o Grande ao aeroporto da capital. A chegada ao poder de um governo mais moderado na Macedónia abriu uma janela de oportunidade para um entendimento. Atenas e Skopje regressaram à mesa de negociações, com mediação da ONU, para enterrarem de vez o assunto. “Há diferenças quanto às posições dos dois países, mas estou optimista”, dizia esta semana ao Financial Times o mediador da ONU, Matthew Nimetz. No início de Janeiro, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, admitiu que a questão poderia ficar resolvida no primeiro semestre de 2018.

O Governo liderado pelo Syriza está numa posição delicada. A sua maioria no Parlamento depende do apoio dos Gregos Independentes, uma formação nacionalista que já provocou a queda de um governo por causa desta questão, em 1993, na altura, um executivo liderado pelos conservadores da Nova Democracia.

Na semana passada, o ministro grego dos Negócios Estrangeiros, Nikos Kotzias, que tem sido o porta-voz do Governo nas negociações, recebeu uma carta anónima com uma ameaça de morte contra si e a sua família.

A manifestação de ontem foi das maiores de sempre na capital grega, equiparada às dos anos de chumbo da crise da dívida. Com milhares de bandeiras gregas, os manifestantes gritaram slogans como “A Macedónia é grega” e “Não partiremos enquanto não conseguirmos justiça”. A manifestação foi organizada e financiada sobretudo por grupos da diáspora grega, associações de militares na reserva, grupos religiosos e associações culturais da Macedónia grega.

No final da concentração, o gabinete de Tsipras reagiu, considerando que “a grande maioria dos gregos, independentemente das suas opiniões, (…) concorda que as principais questões da política externa não devem ser resolvidas com fanatismo e intolerância”.