A fortuna de Ingvar Kamprad não fica para ninguém, fica para o IKEA

O fundador do IKEA e detentor da 8ª maior fortuna do mundo preparou uma abordagem diferente à gestão do seu património, não deixando o controlo da sua empresa aos descendentes directos.

Foto via IKEA (DR)

Os títulos dos jornais não poderiam ser mais objectivos: ninguém herda a fortuna do fundador do IKEA. Mas a verdade é que uma leitura mais atenta do corpo das notícias dá-nos conta que afinal não é bem assim e que, em última análise, o mais correcto é dizer que todos ganhamos com a herança de Ingvar Kamprad, especialmente o IKEA.

Se é um facto que o fundador da gigante marca sueca não deixou a um fiel depositário uma fortuna em numerário – apesar de se ter chegado a noticiar que a sua herança iria ser repartida pelos funcionários das suas lojas de todo o mundo –, nenhum dos seus activos desaparecerá no vazio ou ficará fechado numa conta bancária, tendo em conta a análise da revista financeira Bloomberg. O substrato dos títulos prende-se, portanto, com a ideia tradicional que se tem de herança e da forma inovadora como Ignvar Kamprad preparou a sua sucessão.

Se Ingvar Kamprad em vida se guiava pelo objectivo de democratizar o mobiliário bem desenhado (em todos os aspectos), depois da sua morte, Kamprad não quer que as iniciativas cessem. Assim, em vez de passar o controlo da sua fortuna avaliada em 58,7 mil milhões de dólares a um dos seus quatro filhos, o visionário sueco dissipou os seus activos e a estrutura de propriedade do património do IKEA, de forma a garantir um futuro duradouro para a empresa.

A oitava maior fortuna do mundo

Os seus herdeiros directos ficarão com controlo da Ikano Group, uma empresa menor também propriedade de Ingvar mas a maioria das lojas IKEA, ex libris do seu portefólio está desde 1980 entregue a uma fundação com sede na Holanda, a Stichting Ingka Foundation, enquanto que a marca e conceito se encontram na posse da Interogo, outra fundação, desta feita com sede no Liechtenstein.

Em nenhuma das fundações detentoras do património da marca sueca os seus descedentes directos têm cargos de chefia ou assentos maioritários na administração, estando por isso afastados dos lugares de decisão sobre o futuro da fortuna, sobretudo material, do lendário empresário sueco.

Foto via IKEA (DR)O fundador do IKEA – detentor da 8ª maior fortuna do mundo, segundo o ranking da mesma revista – arriscou, desta forma, numa abordagem diferente à gestão do seu património, após a sua morte mas isso não significa que, no global, se perca o benefício dos seus activos. Afinal de contas, mesmo na finança, nada se cria nem se destrói, tudo se transforma. O curioso esquema de repartição de activos divide aquilo que é valioso na criação do milionário por fundações com apenas dois intuitos: ajuda à caridade e reinvestimento na própria empresa.

A passagem de quase todo o universo IKEA para a carteira de activos desta fundação fez dela uma das maiores instituições de caridade do mundo. A ideia que à primeira vez parece apenas um acto de boa vontade e de garantia de sobrevivência do negócio valeu algumas críticas à família Kamprad, como num artigo do The Economist que a apontava como a maior e menos generosa do ramo.

A fundação de instituições do género é algo comum aos bilionários do nosso tempo – Bill Gates ou Warren Buffett são outros dos nomes que encontramos na lista de filantropos criadores de associações de benevolência. Os donativos da associação detentora do IKEA começaram a ser públicos, depois do referido artigo, com a maioria dos valores conhecidos a ser enviada para campos de refugiados e outros órgãos de auxílio humanitário em África.

Embora as fundações deste género possam ter um terceiro intuito – o de minimizar os impostos –, não deixa de ser curiosa a decisão de Ingvar de não deixar o controlo da sua empresa aos seus descendente directos, algo a que nos habituámos a assistir, preferindo utilizar o seu esquema de minimização fiscal para garantir que o futuro da sua empresa de sonho não cai nas mãos erradas e continua o seu processo de crescimento e sucessivo investimento.

Em resumo, o processo de herança de Ingvar Kamprad, ilumina um paradoxo do sistema capitalista. Por um lado pode criticar-se a fiscalidade criativa e a criação de empresas detentoras do capital em países com impostos mais baixos do que a média dos países em que actua, algo que também em Portugal ouvimos falar; Por outro não deixa de ser, dentro dos limites legais e conhecidos, uma forma de garantir que mesmo depois da sua morte, o seu sonho e visão para a companhia não morrerão nem serão vendidos a troco de dinheiro pelos seus descendentes directos.