Sim, os quartoquarto são a banda que venceu a última edição do Festival Termómetro, mas podemos não falar só sobre isso? É que para além de ser uma seca para os rapazes da banda terem de responder mais uma vez a “qual foi a sensação?” de ganharem o Festival, estaríamos a tirar lugar a uma série de outros tópicos muito mais adequados a esta entrevista que aconteceu como um encontro descontraído. Seria uma pena não nos focarmos na música.

Fundados em 2015, estão a dar que falar em 2018. Neste tempo cabem passatempos e contratempos. O verdadeiro géneses da banda é um trabalho de arranjo musical do Luís Lucena sobre letras (que merecem o termo técnico de poemas) do João Vidigueira – com algumas peças a datar da sua adolescência. Podia ter sido só um começo auspicioso, mas o consolidar destas canções levou a que pensassem na evolução do projecto. Pensaram em “como é que traduzíamos isto ao vivo, era mais fixe ser mesmo uma banda e o projeto começou a transformar-se a partir disso” explica-nos o Luís. Depois de muitas horas no estúdio a compor e a criar sobre os arranjos iniciais, estão quase a lançar o seu primeiro disco. Podemos dizer que demoraram o tempo que tiveram de demorar. Os quartoquarto são o João Vidigueira na voz, o Luís Lucena na guitarra, o João Abelaira nas teclas e o Diogo Sousa na bateria.

Joao Abelaira, Luís Lucena e Diogo Sousa na fila de cima, João Vidigueira em baixo.

É importante referi-los a todos porque antes da nossa ida ao Aldi houve a primeira parte de uma sessão de ensaios. É quando a música começa a soar alto – e algo psicótica, e algo barulhenta, numa espécie de explosão pop – que se torna notório o que cada um destes elementos consegue acrescentar ao som dos quartoquarto. Isto acontece porque cada um dos membros da banda acrescenta transições intricadas e o que se aproxima do que qualquer banda quer atingir, daquilo que é o estilo – algo que soa próprio, inteiro.

É no estúdio que encontramos uma música que tem vindo a ser difícil de definir por quem tenta (nós não vamos arriscar), mas se as palavras não me falharem, posso tentar descrevê-lo da seguinte forma: há uma guitarra que pode dançar, bambolear-se ou tornar tudo mais rock, assim como há umas teclas ricas que são emoção e esquizofrenia; uma bateria tocada com a segurança da condução, num pára-arranca longo e em sincronia com a banda. É sob esta parede de som que temos uma linha de voz em português – por vezes quase afogada, outras vezes sob a forma de um grito que impõe. Têm falsettos e às vezes têm tudo ao mesmo tempo. São transições, acordes, solos serpenteantes e uma sensação muito clara de que estes gajos estão a fazer algo muito acertado em andarem a tocar tanto. O som não engana. Valeu a pena terem ido à procura da música que queriam.

Quando fizemos a pausa no ensaio para irmos buscar jantar ao Aldi, eu ainda tentei que tirassem uma foto em cima da mesa de uma pingue-pongue (perdida numa sala do estúdio, com falta de alguns elementos fulcrais ao normal desenrolar do jogo), mas os rapazes não estavam a sentir o quanto a estética me parecia Vetements. Quando se falou da possibilidade de tirarmos a foto no Aldi, ficaram entusiasmados com o quanto era irónico, publicitário, um statement, etc. Parecia algo Ricardo Passaporte, achámos todos isso engraçado. A verdade é que o polícia nem se chateou, o segurança só ficou algo intrigado.

Foi ao jantar que tivemos uma oportunidade de conversar e de fazer algumas perguntas que a audição das músicas e do recente single “Póquer” suscitou.

Começámos por falar sobre o processo, sobre como se faz uma banda, como se lança uma banda hoje em dia. Luís explica-nos que “começámos a falar com bué da gente que conhecemos do meio, toda a gente disse manda, manda, mas apesar do feedback ser positivo, nunca houve uma espécie de oportunidade.”

O Termómetro acabou por ajudar muito nesse sentido. Não só lhes deu motivação para meterem mãos à obra, como confirmam que é importante terem uma chancela de qualidade associada ao projeto. Garantem que até os próprios amigos acabaram por ficar mais convencidos da qualidade dos quartoquarto depois da vitória na mais recente edição do festival.

É de realçar que mantêm uma postura sincera acerca do mercado português, não dramatizam o facto de haver circuitos, caminhos mais fáceis que outros e uma grande complicação em ser uma banda pequena. Quando tentámos falar com eles sobre redes sociais, sobre qual seria a estratégia da banda, a opinião do teclista João Abelaira que interrompeu a lavagem dos pratos para de esfregão na mão dizer “hoje em dia parece que isso já importa mais que a música” foi tão avassaladora que mudámos logo de assunto.

As letras em português também são tema de conversa e enquanto o Luís Lucena nos diz que isso “é genuíno” e ainda algo como “somos as nossas próprias memórias”, o João Vidigueira reforça que o cancioneiro popular português é uma grande referencia para a música dos quartoquarto.

Para além das letras, ainda há a questão da interpretação do vocalista. A forma emocional como interpreta as canções tem dado que falar (e que escrever, confirma-se). Afinal, João Vidigueira é capaz de gritar a palavra sussurros ou sussurrar a palavra gritos. Esta forma de exprimir ideias, a “torsão” como o Luís lhe chamou, é feita de forma calculada e enriquece a performance, acrescenta ao espetáculo. Não há uma forma literal de pôr a canção no papel. Relembra-nos a velha máxima do “no hay banda”, uma sacada de David Lynch para o quanto a arte é simulação.

Antes de voltarem à música, ainda ouvimos algumas histórias sobre os diversos azares do teclista (algo que parece ser muito divertido para o resto da banda). Teve de lidar com um pai que empata o trânsito só para tirar fotografias ao filho a fingir que conduzia um Renault Twizy. Uma caixa de supermercado que fechou quando chegava a sua vez, depois de atender todos os outros membros da banda (diz-se que reagiu com um abanar de cabeça em jeito de reprovação). Uma série de outros episódios castiços resultam numa vibe de banda feliz por estar junta e que volta bem-disposta para a sala de ensaios onde pratica diariamente para esta ronda de concertos. O que pode parecer um mero pormenor torna-se neste contexto revelador da forma como este grupo de rapazes lida com as idiossincrasias da vida de banda, sempre pelo lado positivo e como um pretexto para estreitarem relações e desenvolver afinidade, tão importantes no momento de tocar de olhos fechados as suas complexas e emocionantes composições.

Enquanto começam notas e ruídos na sala de ensaios, ficamos felizes por sabermos que o momento dos quartoquarto está a chegar.

Fotografias de Nuno Diogo/Shifter.

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