O amor não é uma m**** nem os filmes de amor são todos foleiros

Solteiro ou acompanhado, passar esta semana na companhia do teu portátil não precisa de ser necessariamente uma seca.

filmes de amor lista

Pensámos no dia 14 de Fevereiro como um pretexto. Mas fugimos aos cliché para que não te sentisses obrigado a celebrá-lo com amor, a jantar fora, dar passeios à borda de água, comer chocolates ou oferecer prendas — stop capitalism. Em princípio as redes sociais continuam uma seca com o mel dos outros, por isso tira um tempo para te organizares e aproveitares a temática em proveito próprio. Tens álbuns fixes por ouvir, livros bons por ler, cinema que ainda não conheces para pôr em dia? Porque não concentrares-te naqueles que falam de amor, o tema preferido de (praticamente) todos os artistas do mundo, aquele do qual não conseguem fugir porque, bem, antes de artistas são pessoas?

Não há nada de errado em estares sozinho por altura do Dia dos Namorados, mas para evitares uma chapada de depressão do mundo que te rodeia, a única solução de verdade parece-nos ser ver alguns clássicos indie. E sozinho é mesmo a melhor forma de os veres — sem ninguém para interromper os momentos altos do filme para perguntar coisas estúpidas como “O Rüdiger Vogler nunca se cala?” ou “Não és tu, sou eu.”

E porque o cinema Arthouse, ainda que o conceito seja lato, é muito mais focado na abordagem artística da história, que na vontade de entreter o espectador *, não é esta lista que te vai lembrar que podias estar mais quentinho num sofá alheio ou pelo menos, acompanhado. Quem sabe, talvez o que te falta na forma de uma vida amorosa possa ser compensado por conhecimento obscuro em cinema.

Assim, aqui ficam alguns filmes, uns de culto, outros mais recentes que valem a pena ser vistos. Pensa que pelo menos não foste gastar dinheiro ao cinema para ver o Titanic pela centésima vez com alguém com quem estás a pensar acabar assim que entrarem os créditos e se fartarem dos beijos. 

  • O conceito de cinema de arte é tão vago como a sua história. De conhecimento geral é que o termo se refere a obras apreciadas pelo seu valor artístico e não como passatempo lucrativo, a filmes que sobrevivem à avassaladora maré das produções de Hollywood, ao mainstream. É, na sua essência, cinema que se preocupa com a condição humana e a aborda numa perspetiva ética, que não é descartável da estética, tanto em criações de baixo orçamento como em projectos de elevado custo de produção.

The Lobster (Yorgos Lanthimos, 2015)

Pela quantidade de vezes que já te falamos de The Lobster no Shifter já percebeste que somos fãs. E somos, seja em que altura do ano, qualquer efeméride é boa para ver Lanthimos.

Na terra de The Lobster, a monogamia é um culto obrigatório e consumidor do qual não podes escapar. Com apenas 45 dias para encontrar um parceiro, Colin Farrell tem que encontrar uma companheira para a vida, ou então ser transformado num animal à sua escolha.

Trata-se de uma verdadeira desconstrução selvagem do namoro e das pressões societárias sobre como vencer a contagem regressiva. A arbitrariedade de cortejar um estranho (“Também tens hemorragias nasais?”) lembra o Tinder, e pelo menos as lagostas não precisam de lidar com o Dia dos Namorados.

Le Rayon Vert (Éric Rohmer, 1986)

Delphine “é incapaz de jogar àqueles jogos burros de solteiros que levam a casos de uma noite.” Marie Rivière interpreta uma secretária que não sabe o que fazer após a sua companheira de férias desistir da viagem duas semanas antes da partida. Ela não quer viajar sozinha, mas está sem namorado e não tem facilidade em fazer novas amizades.

Depois de uma série de viagens falhadas pela Europa e retornos a Paris, é num desses momentos de regresso que, já na estação, o olhar de um homem cruza o seu, o que a faz pensar em ficar. Do génio da Nouvelle Vague Éric Rohmer, Le Rayon Vert acompanha a fase mais romântica da sua carreira, e para o final até há um toque optimista. Talvez haja uma luz verde no final do túnel mesmo para os solitários mais sombrios e socialmente disfuncionais.

Things to Come (Mia Hansen-Løve, 2016)

Uma boa dupla anti-Dia dos Namorados seria Elle e Things to Come. Em ambos, Isabelle Huppert interpreta uma mulher difícil e destemida que, depois do trauma, se recusa a ser a vítima. Mais especificamente, Things to Come envolve uma separação conjugal e uma morte familiar – tudo isto sem que a personagem de Huppert se desintegre. Enquanto a lógica do filme dita que os divorciados de meia-idade devem procurar o chamado rebound (uma relação meio repentina que os faça esquecer a anterior), ela opta por um estilo de vida solitário, mesmo resistindo a um estudante jovem e sexy. Tal como outras obras de Hansen-Løve, como Goodbye First Love e sua obra-prima Eden, o filme é sobre o passar do tempo e aceitar que antigos parceiros amadureçam na nossa ausência. Em caso de dúvida, pensa apenas: o que é que Huppert faria?

Nymphomaniac (Lars von Trier, 2013)

Nymphomaniac é um banho gelado de cinco horas e meia que dura e dura (e continua e continua, com arrepios, momentos de vergonha e cringe) sobre a inevitabilidade do desgosto. Shia LaBeouf dá lições de sedução no elevador, Stellan Skarsgård mistura desejo com Fibonacci e Charlotte Gainsbourg é a musa da depressão de Von Trier. Lembra-te que para o realizador, Nymphomaniac é o terceiro filme da “trilogia da depressão”, sendo precedido por Antichrist (2009) e Melancholia (2011).

Há depressão, sexo explícito, violência e compaixão – aquilo que imaginamos que será um date com Lars himself.

Frances Ha (Noah Baumbach, 2012)

Embora seja ostensivamente sobre jovens solteiros em Brooklyn, Frances Ha não é um ensaio sobre namoros. Quanto muito subverte a estrutura de comédia romântica, acompanhando duas amigas com uma relação platónica – Frances (Greta Gerwig) e a ex-colega de quarto Sophie (Mickey Sumner) – que se separam, sentem a falta uma da outra, e depois voltam a ficar juntas.

Finalmente, Frances quer crescer, o que envolve encontrar um lugar para viver sozinha. Para ela, o processo tem mais a ver com encontrar-se e não necessariamente com encontrar um homem (mesmo que seja Adam Driver).

She’s Gotta Have It (Spike Lee, 1986)

Há algo especial sobre Nola Darling. Perseguida por um trio de homens, a nova-iorquina de espírito livre começa a dormir com os três em separados, embora insista em vê-los como um organismo único – o ser com três cabeças, seis braços e três pénis. Acredita que os homens querem controlar a sua mente e o seu corpo e é por isso que se esquiva de relacionamentos mais sérios.

Por outro lado, o guião aguçado de Lee também destaca a feieza que só se materializa nos ciúmes românticos.

Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016)

Para Clara, viver sozinha é um movimento político – especialmente com capangas corporativos sempre a baterem-lhe à porta. É também uma questão de princípio. Sónia Braga interpreta uma inquilina irredutível, e Humberto Carrão é um jovem empenhado em despejá-la. A sua falha fatal está subestimar Clara, uma mulher de 65 anos desafiadoramente independente, que ainda gosta de sexo casual, fuma erva e flirta na praia.

A longa-metragem aborda temas como especulação imobiliária, passagem do tempo e memórias, e discute ideias pré-concebidas sobre a vida e sexualidade de uma mulher na terceira idade.

John From (João Nicolau, 2015)

Rita tem tudo, 15 anos e o Verão à sua frente. Tem um ex-futuro namorado e o presente infalível da sua melhor amiga. Vacila entre a doçura da infância e a idade adulta. Certo dia, ao ver uma exposição que um novo vizinho apresenta no centro comunitário do bairro onde mora, fica fascinada. A partir desse momento, nada na sua vida será como dantes – o que começa como um jogo, torna-se uma paixão avassaladora e Rita deixa de conseguir distinguir entre realidade e ficção.

Este é, segundo João Nicolau, um filme que “procura auscultar a lógica e as metamorfoses da paixão juvenil. Respeitando os seus códigos particulares, acompanhando-os, a exploração (…) sempre distante daquela que olha a atracção entre uma adolescente e alguém mais velho como uma disfunção psicológica ou um sintoma de doença social. Ao filme e à protagonista não restou por isso outro caminho senão o da constante transfiguração que nos aproxima daquilo que nessa paixão é mais verdadeiro: a beleza.”