Quando extremistas se encontram à porta de um estádio de futebol

Horas antes do jogo entre Athletic de Bilbao e Spartak de Moscovo para a Liga Europa, a partida começou fora do estádio e.. fora da lei, com os adeptos de ambas as equipas a protagonizar uma verdadeira batalha civil.

A conversa sobre os ânimos exaltados no futebol dava para escrever mais do que um artigo, um autêntico livro dividido por capítulos em que apontássemos os devidos agentes e como se deixam corromper intelectualmente pelas emoções – de vários tipos, vale a pena sublinhar. Desta vez, o caso não trata uma exaltação do espírito clubístico, mas antes um confronto de culturas e ideologias. Horas antes do jogo entre Athletic de Bilbao e Spartak de Moscovo para a Liga Europa, a partida começou fora do estádio e… fora da lei, com os adeptos de ambas as equipas a protagonizar uma verdadeira batalha civil.

Na base do problema, está a cultura hooligan e o encontro entre uma claque de extrema direita, anti-União Europeia e anti-UEFA, os Ultras Spartak ou Fratria, apoiantes do clube russo, e uma claque anti-fascista, a Herri Norte Taldea.

Apesar da formação recente enquanto claque única e organizada do Spartak Moscovo, os apoiantes desta equipa orgulham-se de ser dos pioneiros do suporte além-fronteiras de equipas russas. Explicam a sua data de formação recente com a unificação de vários pequenos grupos, resultando na maior falange de apoio entre os clubes russos.

Dentro de portas, são conhecidos pelas espectaculares coreografias pirotécnica; fora de portas, são temidos pelo seu comportamento ultra-violento. Mas não são todos os adeptos do Spartak, nem só os do Spartak, obviamente.

Os grupos de hooligans na Rússia são uma tendência crescente, denominam-se firm’s e são subdivisões das grandes claques. Estes núcleos menores, de apologia à violência, são geralmente simpatizantes de ideias de extrema direita e índole racista. Um desses exemplos, de um sub-grupo hooligan de apoio ao Spartak Moscovo, são os Gladiators Firm 96, que no próprio site sublinham a sua posição ultra-nacionalista.

De resto, na mancha vermelha e branca de apoio ao clube russo é frequente verem-se bandeiras de exaltação anti-anti-fascista (sim, isso) ou a cruz de Odin, um símbolo associado a movimentos neo-nazis.

A jogar em casa estavam os Herri Norte Taldea, um símbolo da zona onde se germinaram, a comunidade autónoma do país basco ou, na língua nativa, Euskal Autonomia Erkidegoa. Fundados em 1982, são conhecidos por hastearem a bandeira Euskadi e associados à Esquerda Abertzale, o movimento de esquerda patriótico que opõe ao poder central espanhol pela independência do país basco. Esta claque, como essa zona tem uma ampla tradição de luta anti-fascista, como consequência da história luta contra o regime Franquista no tempo da Guerra Civil Espanhola.

Fruto desse espírito activista, transversal a muitos dos membros da claque que também se espalham por sub-grupos da tal Izquierda Abertzale, dias antes já corriam nas redes sociais e media locais a nota da convocatória para recepção aos fascistas russos. No comunidade, a claque basca pedia que não se deixasse que o «fascismo se pasee con total impunidad y libertad por las calles de Bilbao». De resto, os russos já este ano tinham deixado marcas da sua acção violenta em cidades como Maribor ou Sevilha, algo que motivava o espírito de vingança dos antis bascos.   

Não se sabe ao certo como tudo aconteceu, mas o facto de ter provocado um morto redobrou a atenção internacional e exige pelo menos a resposta à pergunta “o que passa na cabeça desta gente” uma vez que futebol não é de certeza.

O contexto acima descrito ajuda a perceber o motivo do confronto, sem que seja possível determinar ao certo e sem ter estado presente no local quem atirou a primeira pedra. Segundo reporta o The Guadian, terão sido os adeptos russos a disparar o fogo de artifício, o que fez escalar de forma explosiva e acabou por ditar a morte do polícia. Mas não terá sido só a violência dos russos a conduzir ao triste desfecho.

O sindicato da Ertzaintza, polícia basca, aponta a falta de preparação e de coordenação do destacamento regional como outro dos principais motivos. Num comunicado em que também apontam responsabilidades à claque basca por provocar desacatos, agentes da Ertzaintza pedem mesmo a demissão da comissária responsável, alegando que o homem que acabou morto estaria a trabalhar há mais de 14 horas seguidas.

Este caso não é único, nem especialmente conclusivo, mas é paradigmático de uma das questões mais prementes no mundo do futebol. Com o Mundial apontado para a Rússia no Verão deste ano, cresce o receio à medida que cada um destes eventos se repetem – e já não são os primeiros. O tema foi aliás merecedor de destaque numa reportagem da VICE do ano passado, em que a revista canadiana pôde acompanhar o treino de combate de uma das firms.

O confronto entre bascos e russos calhou curiosamente no mesmo dia em que um adepto russo foi preso na Alemanha quando se deslocava para Espanha acusado de tentativa de homicídio de um adepto britânico de 51 anos, durante o Europeu de 2016, em França. Nesse Europeu, os adeptos russos fizeram sentir a sua atitude agressiva e a sua tendência para a violência gratuita especialmente nas cidades de Marselha e Lille, tendo perto de 50 acabado mesmo detidos para interrogatório pelas forças francesas.

As autoridades russas, ouvidas no mini-documentário da VICE, que podes ver acima, para já são complacentes com a atitude hooligan, consentido o “fighting is fun” que os motiva mas garantindo que no mundial na Rússia ninguém precisa de ir a medo uma vez que a polícia local está perfeitamente treinada para evitar este tipo de confronto.