Para uns segunda-feira, na Síria um dos dias mais sangrentos dos últimos 3 anos

Quase 200 pessoas morreram nas últimas 48 horas no enclave sírio de Ghouta, vítimas dos bombardeamentos das forças de Bashar Al-Assad. As organizações de direitos humanos dizem que se trata de um massacre e não de uma guerra.

Voice of America/Scott Bobb

Quando um país vive em guerra há 6 anos, é difícil acompanhar números de mortos, os avanços das ofensivas, distinguir um dia de bombardeamentos e massacres de outro – chega a ser difícil dar importância a um título noticioso como este, porque é difícil afirmar que um dia foi mais mortífero que outro, quando são todos e se amontoam como sendo só mais um. Mas nos últimos meses, a situação na Síria que nos habituámos a ver nas notícias todos os dias, mudou. As pessoas que sofrem um cerco cruel desde 2011, estão agora presas numa represa diária de ataques que os têm morto de forma deliberada.

Esta segunda-feira foi um dos dias mais sangrentos dos últimos três anos. É assim descrito por todas as organizações humanitárias e observatórios atentos ao que se passa na Síria, desde o início da guerra civil no país. Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), só no primeiro dia desta semana, pelo menos cem pessoas, entre as quais 20 menores e 15 mulheres, perderam a vida, devido aos ataques aéreos e de artilharia do Governo sírio. A organização diz com certeza que este é mesmo o maior número de mortos num dia nessa área desde 2015.

Contabilizadas as últimas 48 horas, os ataques aéreos do regime sírio mataram quase 200 pessoas e deixaram centenas de feridos. As Nações Unidas e o Observatório Sírio dos Direitos Humanos acusam as forças de Bashar al-Assad de usar bombas de barril, proibidas pelos tratados internacionais, e denunciam vários crimes de guerra. Os ataques contra civis têm também como alvo recorrente ambulâncias e instalações médicas. Nos últimos dois dias foram bombardeadas 5 clínicas, uma maternidade e 5 hospitais.

Citado pelo The Guardian, um médico residente em Ghouta oriental diz que o mundo está a assistir ao maior massacre do século XXI e a olhar para o lado.

“Há pouco tempo, uma criança chegou até mim, azul, mal respirava, com a boca cheia de areia. Esvaziei-a com as minhas mãos. Acho que esta situação não está em nenhum dos livros de medicina por onde estudei. Uma criança ferida, a respirar com pulmões cheios de areia. Recebes um doente, que é uma criança, com 1 ano de idade, que foi salva dos escombros e respira areia e tu não sabes quem é. Todas essas organizações humanitárias e de direitos humanos, tudo isso é sem sentido. O terrorismo também é. Que terrorismo é maior que matar civis com todo tipo de armas? Isto é uma guerra? Não é uma guerra. É um massacre.

A situação é comparada pela imprensa e especialistas às tragédias de Srebrenica e ao conflito bósnio, ou ao genocídio de Ruanda, considerada por muitos mais grave.

De Genebra, a UNICEF publicou esta terça-feira uma nota em branco, afirmando estar “sem palavras” para classificar os ataques dos últimos dois dias e sustentando que nenhuma palavra fará justiça às crianças assassinadas. O documento do Fundo das Nações Unidas para a Infância, intitulado “A Guerra contra os menores na Síria”, só contém uma frase do director da Unicef para o Médio Oriente e Norte da África, Geert Cappelaere: “Nenhuma palavra fará justiça aos menores assassinados, às suas mães, aos pais e aos entes queridos”.

O resto da nota permanece em branco, ainda que no rodapé da página o UNICEF afirme: “Já não temos palavras para descrever o sofrimento dos menores e a nossa indignação”.”Aqueles que infligem o sofrimento ainda têm palavras para justificar esses actos bárbaros?”, questionou a agência da ONU.

Mahmud Afifi, porta-voz do líder da Liga Árabe, disse na sede da organização pan-árabe, no Cairo, que os ataques indiscriminados “não diferenciam entre os civis e os combatentes” e que as forças governamentais utilizam “armas não adequadas” contra zonas residenciais em Ghouta oriental. Também a Amnistia Internacional se pronunciou, dizendo que estão a ser cometidos “flagrantes crimes de guerra” no leste de Ghouta, a uma “escala épica”.

Os grupos de ajuda humanitária no local alertam que a situação na região pode vir a desenrolar-se como a “pior atrocidade de guerra” alguma vez assistida. O aumento do número de mortos na zona chega de mão dada com os relatos de uma incursão do regime na área que rodeia Damasco e abriga cerca de 400 mil civis. Mais de 700 pessoas foram mortas em três meses, de acordo com as contagens locais, sem incluir as mortes da última semana.

Ghouta é um dos últimos redutos dos rebeldes, o principal bastião opositor ao regime do Presidente Bashar al-Assad nos arredores de Damasco. Está sitiada há 5 anos e já foi alvo de vários ataques por parte do regime. Há meses que não recebe água, comida ou medicamentos.

As últimas tentativas para negociar a paz falharam. Apoiado pela Rússia e pelo Irão, Assad tem recusado vitórias diplomáticas e é acusado de intensificar os ataques com o objectivo de abrir caminho a uma ofensiva terrestre para conquistar a região.

Numa outra frente de guerra no país, as forças pró-Assad entraram esta terça-feira em Afrin, no Norte, para apoiar a milícia curda contra a ofensiva de Ancara. Imagens divulgadas pelo grupo libanês Hezbollah, aliado de Assad, mostram uma coluna de combatentes armados a caminho de Afrin. Terão sido impedidos de entrar na cidade pela artilharia turca. Ancara iniciou no mês passado a operação “Ramo de Oliveira” por temer que os curdos venham a exigir uma autonomia alargada na zona.