Chernobyl: uma viagem aos fantasmas da utopia

As imagens (tão) mediatizadas de um dos piores desastres da história da Humanidade não são uma preparação suficiente para o cenário vislumbrado pelos (ainda poucos) que o visitam.

Janeiro de 2018. -18ºC no exterior.

A neve cobre o caminho. O percurso assemelha-se a uma estrada eternamente vasta, sem fim, e o nada invade os corpos que por aqui vagueiam. O silêncio é quebrado pelo motor do carro, pelo som do medidor de radiação (os bips mais ou menos intensos, mas sempre presentes), pelas esporádicas vozes que se levantam nos descampados daquele que fora, outrora, um dos locais de destaque dos sonhos idealizados do futuro soviético e que é hoje um museu do poder destrutivo do ser humano.

Bem-vindos a Chernobyl.

As imagens (tão) mediatizadas de um dos piores desastres da história da Humanidade não são preparação suficiente para o cenário vislumbrado pelos (ainda poucos) que o visitam. Na vida dos milhares de indivíduos que habitavam esta região houve um clique no botão de pausa: a permanência da constante do “inconcluído”, do “inacabado” é assoladora, neste museu da interrupção imaculada. Resquícios e fragmentos de (outras) história(s) intactos, aos quais é possível e em que, como em qualquer museu, o toque é proibido. Mas aquilo que nos separa da obra que nos é apresentada é o medo do terror invisível, que criou o cenário vislumbrado e que permanecerá intacto até ao (eventual) fim da Humanidade.

Mas Chernobyl não é somente um reino do silêncio, do interdito, da morte. Este é um ensaio (involuntário) da imensidão da capacidade regenerativa da Natureza. Onde o Homem não pode viver, onde o Homem não pode tocar, os elementos naturais vão surgindo, contornando, assim, as supostas impossibilidades da vida depois da morte. Os animais circulam livremente pelos terrenos, a florestação ressurge sem limitações ou constrangimentos espaciais e a humanidade é o único elemento de estranheza. A presença humana deriva somente das visitas dos mais curiosos, e daqueles que, ainda hoje, trabalham neste local, de forma a tentar minimizar os perigos (sempre) iminentes.

A sensação de medo permanente resulta não só da visão dos fantasmas das utopias (não só soviéticas, mas humanas), da imprevisibilidade da ameaça invisível, mas também (e acima de tudo) da noção de que o esquecimento do passado, dos erros de outros capítulos da história da Humanidade é fatidicamente rápido e fácil. Aqui, onde o erro do passado permanece inalterado, é possível ver que a Natureza poderá e deverá prevalecer, mas que o nosso destino e o daqueles que o controlam torna-se, a cada passo dado, cada vez mais incerto e menos promissor.

Texto e fotografias de Teresa Vieira. Viagem a Chernobyl promovida pela empresa SoloEast.