Cartazes raros lembram os 100 anos do direito de voto para as mulheres

Colecção rara foi divulgada pela Biblioteca da Universidade de Cambridge e lembra como o movimento sufragista no Reino Unido estava na vanguarda das inovações dos media à época.

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Os cartazes foram feitos para serem colados em paredes, destruídos pelo clima ou adversários políticos, daí que a sua recuperação seja altamente incomum e naturalmente notícia. O material político esteve armazenado mais de 100 anos, e leva-nos a viajar por um importante momento histórico: a conquista das sufragistas no Reino Unido.

Por ocasião do centenário da Representação do People Act de 1918, a lei sobre a representação popular que permitiu o voto das mulheres britânicas com mais de 30 anos, a Biblioteca da Universidade de Cambridge divulgou ao público esta colecção rara de cartazes, feitos pelo movimento social liderado pelas sufragistas.

Esta é uma das maiores colecções sobreviventes sobre o tema e inclui posteres usados na campanha nacional, e outros usados apenas em campanhas locais em Cambridge. 

 

Não se sabe ao certo quando terão sido enviados para a universidade, mas sabe-se que foram descobertos nos arquivos em 2016, e o invólucro que os envolvia revelou que a remetente fora Marion Phillips, uma das principais figuras do movimento sufragista.

E não foi por acaso que foram enviados para uma universidade. Lucy Delap, especialista em história feminista no Departamento de História da universidade, diz que as primeiras faculdades femininas em Cambridge — Girton (1869) e Newnham (1871) — foram criadas para serem uma espécie de âncora do movimento. Mas a instituição académica de uma forma geral estava longe de ser progressista. Em 1897, uma eleição para conceder diplomas universitários completos às mulheres foi não só em vão, como gerou uma onda de protestos incendiários por parte de multidões de estudantes masculinos. As mulheres só se conseguiram formar totalmente em 1948.

Em cidades como Cambridge, as campanhas de sufrágio mostravam deliberadamente mulheres vestidas de forma académica. Um dos posteres mostra uma mulher usando os trajes de graduação, presa com um “condenado” e um “lunático”,  para lembrar os académicos que as suas mulheres com educação ainda eram coladas aos mais baixos níveis sociais. Outros visavam claramente as mulheres da classe trabalhadora em fábricas de têxteis ou como costureiras, por exemplo.

Delap lembra que: “A opinião da maioria no Reino Unido foi contra o voto das mulheres. O movimento do sufrágio teve definitivamente que chegar a muitas mulheres. As campanhas foram muito além da simples mensagem de igualdade para sublinhar como o direito ao voto podia mesmo fazer a diferença nas famílias, no trabalho, nas ruas — questões que diziam respeito a todas as mulheres do país.”

O movimento estava na vanguarda das inovações dos media à época. “Adoptaram técnicas da imprensa sensacionalista — a chamada” imprensa amarela “— usando grandes manchetes, material visual de primeira, sejam fotos ou desenhos animados,” com frases chamativas e verdadeiros statements como “A nossa arma é a opinião pública”.

A especialista lembra que as sufragistas rapidamente perceberam que tipo de imagem funcionava na imprensa e que, além disso, o movimento dividiu-se em tácticas, à medida que muitas sentiram a negação contínua dos direitos, forçando-as a acções mais drásticas. “Havia militantes que estavam dispostas a infringir a lei: esmagaram janelas, destruíram campos de golfe, queimaram edifícios. Havia também acções não-violentas que mesmo assim quebravam a lei: recusaram-se a preencher o recenseamento, recusaram-se a pagar impostos sem representação — uma série de tácticas criativas”.

Justificando assim o lema que as edificou — “acções e não palavras”, a reivindicação destas mulheres pela reforma eleitoral abalou o país e transformou o mundo. Além de garantir o sufrágio feminino a mais de 8 milhões de mulheres britânicas, a lei permitiu que homens com mais de 21 anos também tivessem direito ao voto, aumentando o eleitorado masculino de 8 milhões para 21 milhões. O sufrágio universal foi estabelecido somente dez anos depois e aumentou para 15 milhões o número de mulheres eleitoras.