Descobrir o génio humanista de Agostinho da Silva em Conversas Vadias

As conversas não são uma memória completa nem um estudo aprofundado da obra mas são uma intemporal fonte de inspiração de carácter humanista.

Escrever sobre o Professor Agostinho da Silva algo que se preste a uma homenagem ou que de algum modo represente a sua magnitude não é tarefa fácil, daí que me tente focar nas conversas vadias. Em jeito de prelúdio, relevar que os meus braços se arrepiam ao corrente desta primeira fase e com a tomada de consciência do desafio. Não porque algo ou alguém estabeleça algum tipo de fasquia mas porque a humanidade das suas palavras demanda uma espécie de crítica até à auto-negação. Uma espécie de vontade de pedir que ignorem o que aqui escrevo, ou que simplesmente me perdoem a falta de capacidade de síntese e se prestem a ouvir as suas palavras, infinitamente mais essenciais e importantes. Mas passemos ao que interessa porque no final lá chegaremos.

George Agostinho Baptista da Silva, habitualmente conhecido apenas pelo segundo e último nome, um filósofo e poeta português que viveu entre 1906 e 1994, destacando-se como um dos principais pensadores portugueses do século XX, faria hoje 112 anos. A sua filosofa caracterizava-se por uma abordagem prática e acessível, constantes apologias ao pensamento de antepassados nacionais e uma linguagem quase religiosa de ode a um Deus que é para si o Homem livre. A sua postura, pelo que registos que nos chegam em vídeo ou pelos testemunhos de quem com ele privou como Raposo Nunes, poeta e senhor da Livraria Universo, em Setúbal, por uma verticalidade ímpar, apenas comum aos que procuram ascender à imortalidade.

“O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta”

Teve um percurso académico ímpar como aliás tornado indelével pela passagem como bolseiro numa das faculdades mais conceituadas da Europa, a Sorbonne — escola onde na altura estudaram nomes como Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre — e o Collége de France entre 31 e 33. Foi durante todo o percurso académico que, focando o seu estudo nas Civilizações Clássicas, em História e Literatura, sedimentou as bases do que viria a revelar-se por completo a sua filosofia, alcançando para além dos circuitos tradicionais.

“Solidamente ancorado no presente, não esquecer nenhum dos passos do passado, nem esquecer nenhuma possibilidades do futuro” Agostinho da Silva em Conversas Vadias com Miguel Esteves Cardoso

Retornado a Portugal produziu uma vasta, rica e eclética obra literária entre biografias, textos de divulgação cultural. Foi aliás um dos colaboradores de renome na histórica mas ainda viva (à 1740ª edição) Seara Nova, onde publicou peças entre 1929, ainda estudante no Porto, até 1939, altura em que se iniciou nas edições de autor, produzindo os seus Cadernos de Informação Cultural.

Pelo movimento Seara Nova lançou, por exemplo, o vasto leque de biografias sobre a vida de Homens Célebres como Pasteur, Zola, Moisés, Da Vinci ou Miguel Angelo.

Em 1943, num claro contra-ataque às normas impostas pelo Estado Novo, dedicou-se ao seu projecto de divulgação cultural mais ambicioso e notável, com a publicação de 130 Cadernos sobre tópicos tão variados como Marte, o budismo, o petróleo, ou o transformismo. Sinais do seu progressismo que, apesar do seu estatuto — Agostinho da Silva tornara-se entretanto professor — lhe valeu a prisão por 28 dias e a sequente imposição de residência fixa na região do Algarve.

Não satisfeito com essa constrição, acabou por partir para o Brasil onde confirmou a versatilidade e curiosidade que radicalmente havia ousado partilhar em Portugal. Trabalhou no Instituto de Biologia no Rio de Janeiro, lecionou, pelo menos, Filosofia, História Antiga e Geografia Física, fundou escolas e até participou na fundação de uma Universidade (João Pessoa). Viajou por diversos países do mundo, do Japão aos Estados Unidos, e não parou as suas publicações, editando entre outras obras Um Fernando Pessoaem 1959, dedicado à leitura da obra do poeta português.

Protagonizou 4 antes de morrer, em 1990, um programa histórico, Conversas Vadias. Uma série de encontros, com figuras das letras tão distintas como Miguel Esteves Cardoso e Herman José, em que o filósofo revela e partilha toda a sua, por vezes desarmante, simplicidade. São no total 13 conversas que não se focando em termos técnicos ou diálogos monótonos, se expandem por campos do conhecimento universal em que Agostinho da Silva revela o que nos chega com o aspecto do segredo da sua harmonia.

Comia o mínimo de carne possível, sendo praticamente vegatariano, como aliás confessa na conversa com Herman José. Pautava-se por uma atitude de absoluto respeito pela vida, tão explícita nos seus textos como nestas conversas que nos ajudam a compor a figura do homem por trás da obra.

Apesar de os títulos de filósofo, intelectual ou pensador poderem ao primeiro impacto indiciar algo complexo ou aborrecido, Agostinho da Silva é a antítese dessa imagem, um homem alegre, com sentido de humor, jeito para a ironia e um optimismo contagiante. Parte do seu ensinamento parece de resto ser essa evidente dedicação ao outro e a forma positiva e proactiva com que encarou vida e obra. Este seu exercício valeu-lhe momentos nestas conversas como na entrevista com Baptista Bastos em que explora o paradoxo que foi ter singrado na vida por ter fugido ao fascismo.

“Eu costumo vê-las [Conversas Vadias] e gosto da pessoa que está falando comigo.” Conversas Vadias com Alice Cruz

As conversas não são uma memória completa nem um estudo aprofundado da obra mas são uma intemporal fonte de inspiração de carácter humanista. Gravadas no período que ficou conhecido como o Cavaquismo, abordam com o despudor característico do Professor temas tão actuais como a saúde do capitalismo, o sistema de ensino, tocando em ideias como o rendimento universal, o problema da excessiva especialização ou, outros tão intemporais e metafísicas como o destino ou a fé.

Como o próprio confessa foi um programa que mudou a forma como Portugal olhou para Agostinho que embora possa não se ter tornado absolutamente consensual, inspirou uma audiência muito mais vasta e que ainda hoje, embora não tanto como poderia ser, é observável ou audível. Por exemplo no final da música “Sangue de Rua” de Keso, ou na música Índigo de Maze.

 

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