O legado dos EUA na base das Lajes nos Açores: solo contaminado alegadamente cancerígeno

Reportagem internacional virou os holofotes para a ilha Terceira, nos Açores e para as consequências da permanência militar norte-americana na Praia da Vitória nos últimos 75 anos.

O caso foi inicialmente reportado pela Ruptly, uma agência alemã de informação que pertence à RT, televisão russa com emissão em inglês, que fez um extenso trabalho sobre a presença militar norte-americana na ilha Terceira, nos Açores.

Ao fim de 75 anos instalados na base aérea das Lajes no âmbito da cooperação da NATO entre Lisboa e Washington, os norte-americanos estão a reduzir a sua presença na ilha. Desde que lá chegaram que é comum entre terceirenses especular-se sobre o que guardam os muros do complexo, o que escondem as paredes, o que está debaixo do solo. Sim, porque um dos principais boatos entre vizinhos da base era o de que os norte-americanos guardariam material extremamente poluente no local, que estaria a contaminar toda a área em redor. O boato foi confirmado – a contaminação dos solos foi identificada em 2005 e provada pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) em 2009 – e os habitantes nas proximidades da base aérea das Lajes não têm dúvidas: o aumento do número de casos de cancro está associado à radiação e contaminação na Praia da Vitória, na Terceira.

Madail Ávila, de 34 anos, é um dos rostos que dá voz às preocupações da população. Conta que os seus pais morreram ambos vítimas de cancro e que também ela foi diagnosticada com a doença, há um ano. À sua história junta dezenas de outras, de outras famílias residentes no concelho, que viveram nas proximidades da base militar: É uma coincidência muito grande que existam tantos casos de cancro dentro da mesma família e na mesma área geográfica, já que todos esses casos estão localizados geograficamente na mesma zona”.

Marcos Fagundes, outro morador da Praia da Vitória, não tem dúvidas de que a causa do problema seja a base dos EUA. “Existem ruas inteiras, nas quais as pessoas de um lado da rua foram diagnosticadas com cancro e do outro lado não. Isso não é normal”, alega.

Níveis de contaminação e casos de cancro confirmados

Félix Rodrigues, professor de Física da Universidade do Açores, disse aos jornalistas que foram registados em vários locais níveis de contaminação muito elevados de metais pesados, como chumbo, cobre e zinco. Metais que, em alta concentração, acabam por entrar na cadeia alimentar e causar problemas de saúde, entre eles, o cancro.

“É um inferno que se repete em várias ilhas ocupadas pelos norte-americanos. É um tipo de política de terra queimada. Os problemas vão-se acumulando e os governos locais não fazem frente”, referiu o especialista, sublinhando que essa inacção talvez resulte de “muita iliteracia científica, de desconhecimento de muitas relações causa-efeito”. Félix Rodrigues tem pouca fé que Washington — principalmente agora, sob a Presidência de Donald Trump — pague o que é necessário para descontaminar a terra, e diz que a Terceira podia ser substituída por dezenas de outras partes do globo, onde as bases americanas abandonadas continuam a fazer ferver a terra.

Noutro relato, Norberto Messias, cientista na Escola Superior de Saúde e da Universidade dos Açores, afirmou que, de acordo com as estatísticas, 33% dos casos de cancro ocular no arquipélago são registados em moradores do concelho da Praia da Vitória, cuja população total representa apenas 8% dos Açores.

Também os agricultores têm as suas queixas. Dizem que os terrenos se tornaram inférteis, tendo todo o solo próximo da base parado de produzir. Uma das explicações para esse facto, apontou Félix Rodrigues, é a quantidade de combustível derramado.

A intervenção política

As autoridades do território autónomo têm estado a investigar e estudar a questão, através do levantamento de casos para apurar com precisão as causas dos problemas, ainda que ninguém na ilha tenha dúvidas da responsabilidade da base aérea.

Existem inúmeros casos judiciais nos Estados Unidos, nos quais os militares processam o Governo e o exército por danos à saúde. Além do histórico dos problemas das bases militares norte-americanas com os governos locais ao redor do mundo.

No início desta semana, o secretário regional Adjunto da Presidência para os Assuntos Parlamentares dos Açores assegurou que os “açorianos não pagarão ‘coisa nenhuma'” pela descontaminação na Terceira. Referiu que há uma “nova fase política e até diplomática” neste ponto,  sublinhando que o assunto das Lajes e da descontaminação “é provavelmente o assunto mais debatido e discutido” no parlamento açoriano “na última década”, o governante valorizou todavia um “conjunto de medidas, diligências e acções para monitorizar as zonas identificadas como contaminadas e para salvaguardar uma matéria absolutamente fundamental, a segurança do consumo da água do concelho da Praia da Vitória”.

Recentemente, o presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, sublinhou também o “novo impulso” trazido pelo embaixador dos Estados Unidos da América na questão da descontaminação ambiental na ilha Terceira devido ao uso militar das Lajes, insistindo que a “preocupação principal do Governo Regional tem a ver com questões de saúde pública”.

Vasco Cordeiro diz estar à espera de, no final do primeiro semestre ou na próxima reunião da Comissão Bilateral Permanente, já ter “resultados e evidências quanto ao trabalho que está a ser feito” no que se refere à descontaminação.

Também recentemente, na Assembleia da República, o ministro dos Negócios Estrangeiros afastou preocupações sobre a eventual contaminação da água na ilha, mas garantiu que o Governo quer ver esclarecida a situação de alguns terrenos.

Pedro Soares, Presidente da Comissão de Ambiente e deputado do Bloco de Esquerda diz que pouco foi feito para resolver o problema desde que este foi confirmado em 2009. Em Outubro do ano passado, numa visita ao local, Pedro Soares falou na necessidade de o Governo ser firme e exigir aos EUA soluções e iniciativa para descontaminar os solos da ilha Terceira.

“As iniciativas que há são residuais e portanto o que se pode dizer em termos gerais é que não há um processo de descontaminação, não há a definição de uma metodologia, nem há a definição de um programa. E isto é grave”, afirmou na altura, referindo-se à forte probabilidade de 38 locais estarem contaminados com hidrocarbonetos.