2077: uma série documental da RTP sobre o futuro que deves ver hoje

Uma série de quatro episódios imperdível. Disponível online através do RTP Play.

Crescemos num mundo em que um bom documentário tinha a assinatura da BBC. Entretanto, a cultura documental parece ter-se democratizado (como o próprio uso do verbo “democratizar” se democratizou). Há hoje os documentários da VICE, os do Netflix ou os da HBO – tudo marcas ou selos que são uma espécie de indicadores de qualidade.

E a nossa RTP? Os documentários são um dos eixos centrais do serviço público de televisão; e se parte da programação passa por conteúdos de fora, há também produção nacional e 2077 – 10 Segundos Para o Futuro é exemplo da excelência que conseguimos atingir.

Em cada um dos quatro episódios de 2077, somos transportados até daqui a 60 anos, numa viagem em que é analisado o ponto tecnológico e social do presente e feita uma projecção de como esse mundo irá evoluir. O primeiro capítulo fala sobre inteligência artificial, nanotecnologia e genética, e dos desafios que os desenvolvimentos exponenciais nessas áreas terão na vida humana e na saúde. No segundo episódio, discute-se a exploração espacial e dos recursos naturais, a poluição e as alterações climáticas. No terceiro programa, o tema é a energia e a sustentabilidade, mas também as migrações, a guerra e essa nova ordem global. Por fim, a série encerra com os valores, a arte, a educação e os nossos anseios relativamente à evolução tecnológica.

Partimos do Futuro. O Futuro a 60 anos. Em cada episódio contamos com um testemunho imaginário em 2077 e com as opiniões de grandes futuristas e cientistas internacionais sobre as grandes inovações e desafios que a Humanidade tem pela frente. Onde e como vamos estar daqui a 60 anos? As próximas décadas vão sofrer a maior e mais veloz transformação de sempre. Na tecnologia, na ciência, no ambiente, nas relações interpessoais. Vivemos numa espécie de grande acelerador de ciência, em que o ritmo das descobertas não pára de surpreender. Nas últimas décadas acumulou-se mais conhecimento científico do que em toda a história da Humanidade. Em 2077 esse conhecimento científico terá duplicado várias vezes. Vale a pena dar um salto ao Presente e perguntar: de que forma os nossos actos de hoje vão ter consequências no futuro? As nossas escolhas mudam o mundo.

2077 conta com a perspectiva de investigadores internacionais e especialistas portugueses, num encontro bastante agradável, que não deixa de destacar os craques que fora do campo mediático ajudam a elevar o nome de Portugal sem contextualizar o nosso país num panorama global.

António Damásio, director do Instituto do Cérebro e Criatividade da Universidade do Sul da Califórnia, Manuela Veloso, directora do departamento Ciência de Computação da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, e Elvira Fortunato, directora do CENIMAT/I3N da Universidade Nova de Lisboa, são alguns dos nomes que aparecem em 2077, ao lado do físico teórico Michio Kaku, de Nick Bostrom, director do Instituto Futuro da Humanidade da Universidade de Oxford do futurista Paul Saffo, de Craig Dawson, líder da IBM Watson na Europa, ou de David Basulto, arquitecto e fundador do ArchDaily, entre muitos outros.

Porquê a insistência com o intervalo de 60 anos e com o ano de 2077? A série foi pensada para o 60º aniversário da RTP, que se celebrou no ano passado. “Nos 60 anos da RTP, em 2017, o Nuno Artur Silva e o Daniel Deusdado lembraram-se de fazer, em vez de um documentário sobre a história da RTP dos últimos 60 anos, uma série documental sobre como será o futuro da humanidade nos próximos 60 anos”, explica ao Shifter António José de Almeida, que realizou 2077. “Convidaram-me a mim e à Anabela Almeida, pois lembravam-se dos documentários biográficos que fizemos sobretudo entre 2005 e 2010, sobre escritores e artistas portugueses, entre eles, Agustina Bessa-Luís, Luís Pacheco, David-Mourão Ferreira, Júlio Pomar, Amadeo de Souza-Cardoso, entre outros.”

2077 foi transmitido em Janeiro na RTP1 e está disponível online através do serviço de streaming RTP Play, estando também a ser distribuída para vários países. António diz que a série demorou um ano e meio a fazer e que, por agora, é a sua melhor realização, mas não sabe se essa afirmação se manterá no tempo. “Já no tempo em que andava na música o último disco era sempre o melhor, mas passado um tempo isso não era bem verdade. Vamos ver daqui a uns tempos”, confessa. “Mas foi a que me deu mais prazer e a que exigiu mais de mim e da equipa.”

Nem tudo aquilo que se vê em 2077 foi filmado e gravado pela equipa de António José de Almeida e pela RTP. A série conta com muito conteúdo de banco de imagens, que foram tão bem personalizadas com filmagens originais que o resultado final é bastante bom e homogéneo. O banco de imagens é cada vez mais uma ferramenta muito útil e está a democratizar o acesso às imagens até aqui inacessíveis. Claro que gostava de ter filmado tudo o que imaginava mas estes documentários ficariam 20 vezes mais caros se tivesse de filmar tudo, o que tornaria impossível fazê-los”, explica. “Não concordo com o estigma de que recorrendo ao banco de imagens é fácil. Há que ter o cuidado e precisão para escolhermos e manusearmos exactamente aquilo com que nos identificamos senão corremos o risco de fazermos um catálogo e não um filme com história, nexo e traço.”

António José de Almeida, que assina a realização de 2077 como LisbonForce, um projecto que deverá revelar em detalhe neste 2018, avança que foram compradas cerca de mil imagens de banco, das quais cerca de 500 foram manuseadas, tendo sido gravadas outras 500.

No final do dia, o objectivo foi retratar tudo menos um futuro de plástico, onde os carros voam ou dos olhos das pessoas saem raios laser. “Queria um ambiente o mais humano possível, porque, apesar da tecnologia fantástica que vamos ter, as pessoas vão continuar a constipar-se e a andar ranhosas e sujas. E como não queria fazer reconstituições, recorri a muitas imagens abstractas, criando analogias com o que está a ser dito, de forma a que as pessoas possam ser levadas a imaginar o futuro de acordo com o que está a ser dito nas entrevistas”, explica.

2077 foi produzido pela Panavideo, produtora fundada por António depois de deixar a banda Heróis do Mar, e que é uma das mais antigas produtoras em Portugal.