O novo mapa do Strava desvenda mais do que os locais onde corremos

A verdade é que o sistema criado pela plataforma de registo de actividades desportivas é, resumidamente, um sofisticado sistema de tracking à escala global.

Strava
Pormenor europeu do heatmap do Strava

Milhões de pessoas em todo o mundo usam o Strava para registar e partilhar as suas corridas, percursos de bicicleta e outras actividades de lazer/desporto. O que acontece quando todos esses dados são analisados e apresentados em conjunto num mapa-mundo? Uma perspectiva global das zonas onde as pessoas estão a fazer desporto. Podemos não só explorar as zonas mais populares ao nível de um país, como aproximar e ver, numa cidade, as avenidas, ruas e jardins onde mais se corre ou se anda de bicicleta.

Em Portugal, por exemplo, o litoral norte e centro, assim como a zona do Algarve são as áreas que representam a maior concentração de corredores e ciclistas. Aproximando em Lisboa, vemos uma maior popularidade ao longo da marginal, entre a Ponte Vasco da Gama e até Cascais. O parque de Monsanto, o Campo Grande, a Avenida da República e a Avenida da Liberdade são também zonas quentes no que toca ao desporto. Mais a norte, no Porto, os corredores e ciclistas preferem a marginal, desde Matosinhos até à Ribeira e mesmo para os lados de Gondomar. Também a margem de Gaia é extremamente popular entre os utilizadores do Strava, assim como a Avenida da Boavista e a Estrada da Circunvalação.

Portugal no heatmap do Strava
Área metropolitana de Lisboa no heatmap do Strava
Área metropolitana do Porto no heatmap do Strava

O mapa do Strava apresenta uma certa correlação com a densidade populacional e também da riqueza dos países e continentes. Zonas desenvolvidas como a Europa, os Estados Unidos ou o Brasil apresentam uma maior concentração de corredores, ciclistas e de outros praticantes de desporto, uma vez que os dados apresentados incluem ainda práticas náuticas e actividades de inverno. África, o interior da América do Sul, o norte da América do Norte e a vasta maioria da Rússia apresentam pouca utilização do Strava.

Podes explorar o mapa do Strava por actividade, avaliando, por exemplo, as zonas mais populares para corredores e aquelas que os ciclistas preferem. Em Lisboa, percebemos que existem bem mais corredores a usar a aplicação que utilizadores de bicicleta, mas que as áreas escolhidas por cada um deles mais ou menos coincidem. Contudo, ciclistas tendem a estar concentrados nas zonas onde existe infra-estrutura para eles. Já na Invicta, a bicicleta parece ser menos utilizada que na capital, sendo também os corredores os dominantes.

Vista global do heatmap do Strava

O outro lado da questão

Se por um lado toda esta recolha e análise é esperada por parte dos utilizadores mais expeditos da aplicação, para outros, e num panorama global, o trabalho da Strava pode ser comprometedor. A verdade é que o sistema criado pela plataforma de registo de actividades desportivas é, resumidamente, um sofisticado sistema de tracking à escala global, que pode revelar segredos escondidos em padrões de comportamento.

Um dos primeiros segredos a ser revelado e a gerar alarme sobre o poder da informação recolhida por esta inofensiva app tem a ver com a localização de bases militares, por exemplo. Se as suas coordenadas já podiam ser conhecidas e em aplicações como o Google Maps, no mapa do Strava, a informação ganha uma nova camada com os traços que marcam a actividade humana. Foi um estudante australiano de 20 anos que primeiro reparou nisso. Nathan Ruser, que está a estudar segurança internacional na Universidade Nacional Australiana, tem seguido a situação na Síria desde 2014 e identificou bases militares norte-americanas no Afeganistão, com base na actividade dos utilizadores do Strava.

O incidente fez despertar a atenção das grandes instituições, como os exércitos, que viram as suas informações expostas, mas também deixou utilizadores alarmados com as possibilidades de exploração da base de dados criada pelo Strava. Um deles, em resposta no Twitter a Nathan Ruser, dedicou-se a explorar o que considera ser falhas de privacidade da plataforma, partilhando as suas “descobertas” numa série de tweets. Contra elas, falam os utilizadores experientes do Strava, que revelam ter conhecimento e consciência de abdicar da sua privacidade ao inscrever-se na plataforma – debate que eleva a questão sobre em quem recai a responsabilidade de proteção de dados.

Podes ler mais sobre este mapa do Strava numa publicação no Medium. O mapa reúne mil milhões de actividades, 3 biliões de pontos latitude/longitude, 13 biliões de pixels rasterizados e 10 terabytes de dados brutos, resultando numa distância total de 27 mil milhões de quilómetros e de actividades desportivas que, devidamente alinhadas, durariam 200 mil anos. A partilha de dados na aplicação é opcional e pode ser desactivada nas definições.

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