Associação do Sono quer que durmas e alerta para o excesso de calmantes

O uso excessivo de fármacos indutores de sono pode transformar insónias transitórias em doença. Avisos deste género nunca são demais, numa altura em que, são cada vez mais os avisos para a importância de um sono de qualidade.

Portugal tratamento
Fotografia: Kinga Cichewicz/ Unsplash

Um “grande problema”. É assim que o presidente da Associação Portuguesa do Sono (APS) se refere à prescrição excessiva de benzodiazepinas, os fármacos indutores de sono.

As benzodiazepinas são fármacos “universalmente usados para induzir o sono” e úteis para o tratamento durante “duas ou três semanas”, mas a sua utilização em insónias durante mais de dois meses acaba por afetar o sono e transformar aquilo que seria um sintoma “numa doença”, disse à Lusa o presidente da ASP, Joaquim Moita.

Em declarações à agência, Joaquim Moita alerta para o perigo das chamadas “soluções milagrosas”, em comprimidos ou sprays, anunciadas na publicidade, que diz só resultarem em insónias de curta duração e que depois disso “fazem mais mal que bem”.

A partir dos dois meses de utilização, “o sono passa a ser um sono fragmentado e com má qualidade”, para além de serem fármacos “altamente aditivos” notou o também diretor do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC).

As declarações e alertas surgem antes do simpósio “O Essencial da Medicina do Sono para a Medicina Geral e Familiar”, que vai decorrer em Coimbra, a 23 de março, no qual a Associação Portuguesa do Sono vai alertar para esta problemática e debater alternativas às benzodiazepinas. O problema torna-se ainda mais grave porque, para além de criarem dependência, estas substâncias podem provocar perdas de memória e estão associadas à demência precoce, sublinhou o responsável. “Há outras formas que não sejam a prescrição das benzodiazepinas para tratar uma insónia que pode começar por ser apenas um sintoma de uma depressão ou de ansiedade, mas que se não for abordada de forma correta passa de sintoma a doença.”

No simpósio, haverá destaque a três patologias: síndrome de apneia de sono (que se estima afetar ou vir a afetar 49% dos homens), insónia crónica (cerca de 9% da população) e síndrome das pernas inquietas (10%). “Estamos a falar de doenças muito prevalentes e é o médico de família que é a porta de entrada no Serviço Nacional de Saúde”, sublinhou Joaquim Moita, considerando que, na área da apneia do sono, a associação pretende aprofundar as experiências que já decorrem em alguns hospitais do país na referenciação e acompanhamento dos doentes entre os médicos de família e as unidades hospitalares.

O evento é organizado pela APS e pela Comissão de Trabalho de Patologia Respiratória do Sono da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, tendo como destinatários principais os profissionais de medicina geral e familiar.

Avisos deste género nunca são demais, numa altura em que, não só em Portugal, mas em todo o mundo, são cada vez mais os avisos para a importância de um sono de qualidade.

No final do ano passado, um grupo de aclamados cientistas publicou um estudo no qual falou mesmo de uma “epidemia” de sono, que nos estaria a matar a todos. Ao jornal britânico The Guardian, o Professor Matthew Walker, director do Centro de Ciência do Sono da Universidade da Califórnia, Berkeley, disse numa entrevista ao The Guardian que estamos perante uma “epidemia catastrófica de perda de sono” que está a causar uma série de doenças potencialmente fatais.

Walker diz que quanto menos dormimos, menos vivemos e que a privação de sono se tem generalizado na sociedade moderna e que tem afetado “todos os aspectos da nossa biologia”.

As luzes elétricas, a televisão e as telas de computador, uma divisão cada vez menor entre o que é o tempo pessoal e o tempo de trabalho são alguns dos aspectos enraizados na vida moderna que contribuíram para esta situação.

Matthew Walker detalha que a privação de sono tem sido associada ao cancro, diabetes, doenças cardíacas, acidentes vascular cerebrais, doença de Alzheimer, obesidade e má saúde mental, entre outros problemas de saúde. “Nenhum aspecto de nossa biologia é deixado ileso pela privação do sono. Afunda-nos em todos os caminhos possíveis. E ainda ninguém está a fazer nada sobre isso. As coisas devem mudar: no local de trabalho e nas nossas comunidades, nos nossos lares e famílias.”

Duas conclusões que provam quão importante é para a nossa saúde uma noite de sono descansada, ou até, quem sabe, uma boa sesta a meio de um dia de trabalho.