Comunicação social portuguesa quer criar um “Facebook”, mas só a parte comercial

O Nónio é a resposta da comunicação social portuguesa a uma internet dominada por gigantes como o Facebook ou a Google.

NONIO

Não vai ser uma rede social como o Facebook, mas será uma plataforma de recolha dados pessoais dos utilizadores com vista à personalização de conteúdos e à optimização da publicidade. O Nónio é a resposta dos grandes protagonistas comunicação social portuguesa a uma internet dominada por gigantes como o Facebook ou a Google, mas não é necessariamente uma boa notícia para todos.

O que é o Nónio?

Dezenas de jornais, televisões e rádios portugueses, como o Diário de Notícias, a TVI24, o Público, o Expresso, a Rádio Comercial, o Jornal de Negócios e O Jogo, decidiram criar uma plataforma comum de registo, que promete oferecer aos utilizadores “conteúdos personalizados com mais segurança e qualidade”.

São mais de 70 sites os aderentes ao Nónio. No registo que pode ser feito em qualquer um deles é pedido o nome, e-mail, data de nascimento e género – dados que vão ajudar a Nónio a “acumular um histórico de hábitos de consumo do utilizador, que deixará de receber publicidade que não lhe interessa, lê-se na página de perguntas e respostas da plataforma, que não deixa margem para dúvidas: esse é “o principal objectivo do projecto Nónio”.

Numa primeira fase, o registo no Nónio não será obrigatório para ler, ver e ouvir os conteúdos dos órgãos que subscrevem esta plataforma, mas a intenção é bloqueá-los a quem não tenha sessão iniciada, ainda no início deste 2018.

O Nónio é uma ideia financiada em 900 mil euros pelo fundo Digital News Initiative (DNI), promovido pela Google. Junta seis grupos de media portuguesa – a Cofina, a Global Media, a Renascença, a Impresa, a Media Capital e o Público que juntos são responsáveis por 70 sites e reúnem 85% da audiência nacional de internet.

O que tem de má ideia?

Se o discurso da Nónio te parece familiar, é porque esta plataforma foi lançada pelos grupos de comunicação social para, precisamente, fazer frente a “actores globais” como a Google e o Facebook. “Em Portugal, estas duas empresas captam 70% do investimento publicitário no digital”, lê-se na mesma página, o que deixa apenas 30% do bolo publicitário para os media nacionais. O objectivo do Nónio é, assim, o atribuir dimensão e relevância aos grupos media nacionais no mercado publicitário digital, através do direccionamento da publicidade de acordo com as preferências dos utilizadores, possibilitando a segmentação de perfis”.

É que o Nónio não é mais que a concretização (mais uma) de tudo aquilo que a Google ou o Facebook representam – uma plataforma centralizada, gerida por empresas privadas e com fins lucrativos.  Com o Nónio, não se avizinha o fim dos perigosos monopólios mas antes a criação de um novo de menor e focado na geografia nacional.

Se hoje nos estamos a aperceber das consequências que monopólios como a Google e o Facebook têm, porque havemos de aderir a mais um? Ao entrar cegamente no “jogo” destas tecnológicas, percebemos que sair dele não é assim tão fácil. A simplificação dos interfaces que evoluem para optimizar a nossa experiência criam falsas necessidades que fazem com que naveguemos em círculos entre estas plataformas mas será o Nonio capaz de emular esta experiência?

O serviço da plataforma ainda não é claro. Sem uma aplicação própria ou um website único, a Nónio parece ter como única proposta a optimização da publicidade e eventualmente dos conteúdos. Para além disto, a Nónio promete uma navegação mais segura, questão que choca com a falta de procotolos de segurança (https) em algumas das propriedades da plataforma.

O movimento Anti-Nónio

O site Anti-Nónio, localizado em nonio.pt, surgiu para alertar os cibernautas para o que consideram ser perigos desta plataforma: “O leitor NÃO DEVE registar-se no Nónio, por três grandes motivos: 1 – violação de privacidade; 2 – violação do Regulamento Europeu Geral de Proteção de Dados (GDPR); 3 – efeito filtros-bolha.”

A questão da privacidade coloca-se não tanto por os nossos dados poderem ser eventualmente roubados da base de dados da Nónio, mas essencialmente pelo perfil com que esta aglomerado nacional conseguirá traçar sobre nós. Os dados que nos são pedidos no registo – nome, e-mail, data de nascimento e género – são apenas uma migalha da informação que a Nónio é capaz de recolher.

“Endereço IP de cada sessão, data e hora de acesso ao artigo, versão do navegador web e sistema operativo utilizado, resolução de ecrã, dados referentes à localização, pontos de acesso wi-fi, assinatura canvas, entre outros”, podem ser obtidos através de “cookies e outras técnicas de fingerprinting”, explica o movimento Anti-Nónio. “A partir da análise desses dados, é possível inferir, por exemplo: afiliação política, religião, poder de compra, estado emocional, padrões de sono, acrescenta.

A Nónio explica, entre a página de perguntas e respostas e a da política de privacidade, que os dados vão ser geridos por “uma empresa independente de todos os grupos” e que cada meio terá acesso apenas aos dados da sua audiência, “mas não à informação dos outros grupos participantes”.

A informação pessoal pode ser vendida não só no mercado nacional, como também a nível internacional, e pode ser eliminados por ti – contudo, essa eliminação só acontecerá “um ano após a desativação do registo pelo utilizador”, o que, segundo o Anti-Nónio, viola o Regulamento Europeu Geral de Proteção de Dados (GDPR). Debaixo do chamado direito a ser esquecido, o GDPR exige que a eliminação seja imediata, e esta violação pode significação uma multa até apenas 4% da faturação anual dos grupos implicados, como refere o Anti-Nónio.

O Anti-Nónio alerta ainda para o efeito de bolha que o Nónio pode promover. É que ao personalizar as notícias consoante as preferências dos utilizadores, pode acontecer aquilo que vemos no Facebook: “Quanto mais o leitor interagir com esta plataforma, mais dados esta recebe sobre si e, por consequência, terá um perfil de gostos de leitura cada vez mais detalhado. Como o objectivo/modelo de negócio da plataforma é que esteja o maior tempo possível na plataforma, mais tempo de exposição à publicidade, serão recomendados cada vez mais e mais direcionados apenas artigos de um certo ponto de vista.”

Em jeito de conclusão, o movimento Anti-Nónio acrescenta ainda mais um ponto à discussão: “Além dos dois problemas referidos, outros problemas não menos importantes devem ser explicados. A partir da análise desses dados, é possível inferir os gostos da população portuguesa, com o fim a maximizar os lucros, mais artigos de baixo teor jornalísticos (artigos clickbait geram mais tráfego/receita) serão escritos, levando à decadência desta nobre profissão. Por consequência, uma população com menos acesso à informação de qualidade, não toma decisões corretas, levando à decadência gradual de regimes democráticos.”