Música que não se toca, programa-se

A verdade é que muito do que ouvimos actualmente não é, na verdade, tocado mas sim programado – e há muitos anos que assim é.

Quantas vezes deste por ti a ouvir uma música e a pensar como foi tocada? Pois é, especialmente se ouves música ambiente ou electrónica, a questão pode ser frequente. A verdade é que muito do que ouvimos actualmente não é, na verdade, tocado mas sim programado – e há muitos anos que assim é.

De Steve Reich…

Para o mostrar de um modo acessível a qualquer um, Tero Parviainen criou uma experiência interactiva que reflecte sobre algumas criações icónicas ilustrando o seu processo de composição.

Processo de geração de duas músicas de Steve Reich

A apresentação começa com uma explicação do processo de criação de uma música de Steve Reich em 1968 e vai progredindo usando exemplos para ilustrar as diferentes direcções que podem ser seguidas pela música generativa.

…a Brian Eno

Entre os exemplos, surge o destaque ao penúltimo trabalho de Brian Eno, Reflection, uma criação paradigmática para este tipo de processo criativo. Reflection é um produto generativo, na sua versão gravada – uma faixa com 1 hora 5 minutos e 25 segundos –, mas também é por si só um método generativo passível de ser usado em novas composições. Para o efeito, Eno lançou uma aplicação para televisão, telemóvel e tablet que permite a qualquer pessoa emular o seu processo de trabalho, pressionando blocos de cor associados a notas que se prolongam no tempo em função da duração de cada toque.

A música generativa é um curioso cruzamento entre arte e programação. Reflection não é o primeiro trabalho de Brian Eno a ganhar versão em app. Em conjunto com Peter Chilvers, um programador de software, Eno costuma dar uma segunda vida aos seus trabalhos em formato interactivo. No site Generativemusic.com podes descobrir as criações de músico e programador – seis apps que te permitem criar música electrónica a partir de um interface completamente inovador e, geralmente, mais intuitivo do que os instrumentos que conhecemos.

Duas das aplicações criadas por Brian Eno e Peter Chilvers
Demonstração da aplicação criada por Brian e Peter para o trabalho Reflection

Sem esquecer John Cage

Para além do contemporâneo Brian Eno, é impossível falar de música generativa sem mencionar John Cage. O norte-americano foi um dos mais brilhantes e ousados compositores do século passado, tendo inovado de um modo decisivo os processos de criação de música, criando trabalhos ousados e icónicos como a “Aria”. John Cage criava a partir de perguntas, abrindo caminhos à exploração e ao surgimento de ritmos e melodias como resposta.

O olhar sobre a música generativa, nos tempos que correm, pode também ser a base de uma reflexão sobre os padrões criados por máquinas com fórmulas do sucesso musicais, como de resto sugere o trabalho de Tero Parviainen.

Outro ponto importante e único neste tipo de criação musical tem a ver com a possível interactividade na própria composição. Por poder ser composta sobre a forma de algoritmos, as composições de música generativa podem ser treinadas para reagir às respostas de sensores ou a novas informações, como mostra o exemplo gerado a partir dos comboios na Finlândia, das novas entradas de Wikipédia ou de uma imagem de um céu estrelado.

Exemplos de música gerada interactivamente a partir de dados