Como ter a certeza que um cão não abre uma conta online?

Em suma, KYC é a tentativa de equilíbrio entre a liberdade total e anárquica da internet e credibilização e segurança de instituições financeiras, com base em princípios que procuram assegurar que a internet não é um antro de criminosos.

Na internet, ninguém sabe que és um cão. A frase ficou famosa com um cartoon de Peter Steiner no New York Times em 1993. E aqui entramos no domínio de identificação de utilizadores e no debate de liberdade vs segurança, que os processos de Know Your Customer (Conhece O Teu Cliente) quer ajudar a resolver.

Cartoon de Peter Steiner para a The New Yorker

KYC é o sistema criado de forma a que instituições financeiras e governamentais online conhecerem os clientes, fazendo a verificação de credenciais de identidade e procurando confirmar que os clientes não estão envolvidos com terrorismo ou outra forma de crime organizado. Com a explosão da tecnologia de blockchain esta necessidade de credibilização ficou maior — É, mais uma vez, o problema da confiança a bater à porta da internet.

O processo de verificação é feito quando o utilizador faz a subscrição para um serviço bancário online e até algumas carteiras de criptomoedas online. A necessidade parte da tentativa das empresas que lidam com dinheiro e mais artigos de valor de se credibilizarem. Escândalos de fraude e crime organizado minaram o passado da Bitcoin e demais criptomoedas. Por exemplo, quando o Silkroad, website onde era possível adquirir drogas fechou, a Bitcoin estava plenamente associada como forma de pagamento pelo que ainda hoje a reputação de criptomoedas está abalada.

Agora, a Coinbase e a Changewallet, e outras carteiras de criptomoedas vão pedir aos clientes para mostrar um cartão de identificação, ou até uma selfie com o mesmo, de forma a confirmar o nome, a cara, a data de nascimento, e muitas vezes até a permissão de residência da pessoa em questão.

Depois, o responsável pela verificação vai fazer uma busca online nas principais bases de dados de registo de criminosos internacionais, como a Interpol ou o registro de sanções da União Europeia. Esta verificação facial é ainda feita de forma manual, com uma pessoa a tentar verificar que a cara e os nomes são pelo menos semelhantes e é por isso que muitas vezes é pedida uma segunda foto ou um segundo documento, porque se entende que a primeira é indecifrável ou insuficiente.

O ponto principal e distintivo é ter, de facto, um ser humano e não um robô a olhar para outro e dizer “sim senhor, posso confiar neste indivíduo” ou então “Não, os dados dele não batem certo”.

“Com o Blockchain, ninguém sabe se és um frigorífico” (este upgrade é de um matemático chamado Richard G. Brown).

É habitual, especialmente no processo de participação em ICO’s (inicial coin offer) para financiamento de criptomoedas, existir uma cláusula em que o utilizador se compromete a não utilizar os fundos trocados na transferência de tokens para moeda normal em crime organizado ou terrorismo. Também há países como a China, que proíbem os ICO’s, e neste caso os seus residentes são mesmo bloqueados no processo de KYC.

Na realidade, não há nada a impedir o senhor da droga ou terrorista maquiavélico de pedir ao primo para criar uma conta para ele usar e enganar toda a gente… mas este processo traduz o esforço dos fornecedores de serviços para se afastarem de acções sombrias ao mesmo tempo que garante proteção legal em caso de complicações. Quem não gosta muito deste rumo são os Cypherpunks, comprometidos com os ideais libertários de que a tecnologia deve devolver aos utilizadores a liberdade confiscada pelo estado e pelo poder financeiro. É que mesmo que não haja uma venda ou corrupção voluntária dos dados de identidade confiados por compradores, a pirataria informática é um risco.

Por isso, é normal após os processos de verificação de compradores, as empresas abrirem o acesso às bases de dados para que os utilizados possam aceder aos sistemas e apagar os seus detalhes de identidade.

Em suma, KYC é a tentativa de equilíbrio entre a liberdade total e anárquica da internet e credibilização e segurança de instituições financeiras, com base em princípios que procuram assegurar que a internet não é um antro de criminosos. No entanto, a pergunta que se aplica é: o que é que estas entidades vão fazer com os detalhes pessoais de identidade de uma pessoa? A ausência de regulação governamental deixa tudo numa enorme incógnita. Mas o KYC é um caminho.