Hikikomori, ou os jovens japoneses que têm medo de sair de casa

O Ministério da Saúde do Japão estima que o fenómeno atinja mais de 70 mil japoneses, com idades entre os 15 e os 39 anos.

Depois do “Karoshi” (termo para designar a morte por excesso de trabalho) ou do “Soushoku Danshi” (termo que se refere a homens vegetarianos, com pouco interesse em relações e sexo), eis que chega o “Hikikomori”, para completar a lista de termos usados na sociedade moderna japonesa que acabam por se tornar mundialmente conhecidos.

Seja porque resumem numa só expressão ideias algo complexas, seja porque espelham a necessidade de uma sociedade de prototipar precisamente realidades tão complexas, termos deste género servem para perceber e problematizar vidas e situações que, de outra forma, para muitos de nós, nem seriam assunto. “Hikikoromi” era um termo originalmente usado para descrever pessoas que iam viver para o campo após a reforma. Hoje designa um comportamento de extremo isolamento doméstico.

Os hikikomoris são pessoas geralmente jovens, entre os 15 e os 39 anos, que se afastam completamente da sociedade, evitando contacto com o outro. Há casos considerados extremos, nos quais os filhos chegam aos 40 anos ainda dependentes dos pais e sem experiência profissional.

Este problema pode parecer-te familiar, não se trata obviamente de uma realidade exclusiva do Japão, mas o crescente número de casos no país pôs a comunidade médica em alerta ao ponto de, lá está, terem uma expressão que retrata essa situação específicas. No fundo, os hikikomoris podem ser encontrados em qualquer centro urbano do mundo, com especial incidência em famílias com maior poder de compra.

Mas, afinal, o que leva uma pessoa a isolar-se do mundo?

Há anos que a psiquiatria estuda a agorafobia, uma perturbação caracterizada por sintomas de ansiedade em situações que a pessoa percepciona como inseguras ou das quais sente que é difícil sair – uma espécie de claustrofobia em espaços abertos. As piores situações costumam acontecer durante o trânsito, em centros comerciais, ou em qualquer situação em que a pessoa se encontre fora do seu local de conforto. O sintoma mais comum é o ataque de pânico. Para que seja diagnosticada agorafobia, os sintomas devem-se manifestar por mais de seis meses. Nos casos mais graves, as pessoas sentem-se incapazes de sair de casa.

No Japão, há centros de reabilitação para vítimas de hikikomori. Um desses estabelecimentos, em Yokohama, na cidade de Kanagawa, descreve o fenómeno: “Normalmente o problema começa na adolescência, após enfrentar casos de ijime (maus-tratos na escola) ou falta de adaptação devido à pressão social que existe no Japão para não transgredir as regras sociais.”

Números recentes referem que o “hikikomori” atinge um em cada 40 lares japoneses, uma realidade que muitas vezes vem associada ao vício em videojogos, redes sociais e vergonha da família, associada aos valores tradicionais da sociedade japonesa. Um hikikomori tem total consciência do estado em que se encontra, mas quanto mais tempo permanecer isolado, mais difícil será o retorno à vida social.

Desde 2007, que o Governo japonês tem um programa de assistência aos hikikomoris – assistentes sociais foram instruídas para estabelecerem contacto com os jovens através de cartas, telefonemas, acabando depois por estimular o contacto social, convidando-os a ir ao cinema, por exemplo. Trata-se de uma equipa só de mulheres, conhecidas como “Super Irmãs” por serem do sexo feminino e terem uma postura muito próxima e familiar com os jovens que acabam por conseguir re-erguer dessa situação.

O mesmo tipo de tratamentos foi implementado em países como os Estados Unidos, onde o sistema nacional de saúde também já sentiu necessidade de instruir especialistas em psiquiatria e psicologia sobre a perturbação, ou Inglaterra, onde as autoridades conectaram o problema ao crescimento da cultura manga japonesa no país e onde grupos de apoio se têm mostrado muito eficientes.

No Japão, a vida dos hikikomori tem sido muito retratada em livros e vídeos. Em baixo podes conferir alguns dos trabalhos que retratam o problema que preocupa o país há demasiado tempo.