Grammy Awards de 2018: mais do mesmo, Óscares style

Ano após ano, a cerimónia mostra uma indústria agarrada a vícios antigos, safa por (algumas) actuações.

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A Recording Academy gaba-se de, ao longo dos anos, se esforçar cada vez mais para reverter a sua reputação de um órgão tradicional, canónico e conservador, demasiado “branco” e normativo, um órgão que não distinguiria um artista verdadeiramente inovador, nem que estivesse à frente dos seus papéis de votação.

As nomeações para a 60ª cerimónia dos Grammy faziam prever alguma reinvenção da academia para acompanhar o que realmente aconteceu no mundo da música, principalmente se partirmos do princípio que, nós últimos tempos, a popularidade do Hip Hop o ergueu a um estatuto impossível de passar ao lado. A lista de nomeados mais diversificada de sempre estava perto de reflectir — como nunca — a cultura de hoje em dia. A norte-americana, é certo, mas é mesmo só a indústria musical dos Estados Unidos que está em destaque nos Grammy, e mesmo essa é bem mais que os nomes do costume.

Mas a escolha de nomeados provou não ser mais que um momentâneo feixe de luz ao fundo do túnel para os melómanos mais insatisfeitos, uma espécie de doce para calar uma criança na sala de espera do médico, para adiar a inevitabilidade do que se vai seguir. Prova disso é a lista de vencedores, que mostra a preferência da Academia por escolhas retro e seguras, em detrimento de algumas novidades evidentes ou de nomes que já pecavam por tardios.

Bruno Mars foi o grande vencedor da noite. Levou para casa 6 prémios, entre eles os das principais categorias: o de Melhor Álbum com 24k magic e o de Música do Ano com “That’s What I Like”. A surpresa não foi muita, ou não se tratasse de um nome e álbum consensualmente acarinhados pela imprensa especializada, mas importa relembrar que, por exemplo, Jay Z tinha feito as manchetes por liderar as nomeações, num ano marcado pelo seu tão aguardado regresso com 4:44  — oito no total — e acabou por não receber qualquer prémio.

Kendrick Lamar também teve uma noite premiada. Conquistou cinco prémios, incluindo o Grammy para o Melhor Álbum Rap, com DAMN. e a Melhor Performance Rap, e foi o protagonista da melhor actuação da noite, algo a que, aliás, já nos tem habituado. Espectáculos que são autênticas chapadas de luva branca pelos anos passados e para o padrão que pinta os Grammys há já muito tempo. É que, este ano, DAMN. também estava nomeado para Melhor Álbum, mas o músico de Compton continua a ser colado ao seu género, como se o seu génio não tivesse já provado ser maior que qualquer rótulo de género.

Veja-se o ano passado, por exemplo, em que 25 de Adele derrubou a inteligência e relevância de Lemonade de Beyoncé, ou no ano anterior, em que 1989 de Taylor Swift levou a melhor frente a To Pimp a Butterfly, ou ainda no ano antes desse que, num acto verdadeiramente reminiscente desta edição, o álbum disco-influenced Random Access Memories dos Daft Punk, derrotou Good Kid, M.A.A.D. City, também de Kendrick.

Esta dinâmica, do seguro face à audácia, não foi visível só nas principais categorias da noite. A derrota de SZA para Alessia Cara mostra a preferência da indústria pelos tops de YouTube. Se quisermos ir mais longe, até Sleep Well Beast de The National como melhor álbum de música “alternativa”, tem muito que se lhe diga.

Vários artistas estão a começar, silenciosamente, a não aparecer para “a grande noite da música”. Kanye West, Frank Ocean e Drake não apareceram este ano, e os dois últimos nem sequer submeteram os seus trabalhos para consideração. Por isso, parece ser seguro concluir que, apesar de algumas (poucas) mudanças internas, a gala dos Grammy deste ano provou que a Academia é aquilo que pensamos ser e que não devemos esperar que os seus hábitos ou prioridades mudem em breve.

Algumas actuações vão servindo para manter algum do nível musical que se esperava para a noite. Além da de Kendrick (que podes ver em cima), Childish Gambino interpretou “Terrified” no ponto e Kesha surpreendeu a plateia e o mundo com o seu momento #MeToo, com a performance do seu single “Praying”. Goste-se ou não do estilo, a cantora reuniu no palco Cyndi Lauper, Camila Cabello, Andra Day, Julia Michaels, Bebe Rexha e o Resistance Revival Chorus para uma interpretação emocionada de um tema sobre a sua longa batalha contra o abuso sexual, depois de ter sido vítima do produtor Dr. Luke em 2014. Por mais mastigada que esteja a causa Time’s Up, a actuação de puxar à lágrima, levou muitos a considerar que Kesha também foi injustiçada, por ter perdido o galardão de Performance solo de Pop para Ed Sheeran. “Shape of You” bateu “Praying” e não há nada como distinguir uma canção pop sobre um homem que se apaixona pela silhueta do corpo de uma mulher desconhecida, para atacar os valores do mundo em que vivemos actualmente.

No mesmo tema, e numa declaração absolutamente suicida nos dias que correm, quando questionado sobre a falta de mulheres premiadas ontem à noite (Alessia Cara foi a única mulher que subiu ao palco para receber um prémio), o presidente da Academia disse que “as mulheres têm de subir a fasquia”. 

“It has to begin with… women who have the creativity in their hearts and souls, who want to be musicians, who want to be engineers, producers, and want to be part of the industry on the executive level… [They need] to step up because I think they would be welcome. I don’t have personal experience of those kinds of brick walls that you face but I think it’s upon us — us as an industry — to make the welcome mat very obvious, breeding opportunities for all people who want to be creative and paying it forward and creating that next generation of artists.”

Lorde também já tinha recusado actuar na cerimónia, por ter sido a única nomeada para Álbum do Ano (e a única mulher entre os nomeados) a ver negada a intenção de um espectáculo a solo, deixando o mundo a falar em machismo.

Houve ainda tempo para ser político, porque nesta altura, nos Estados Unidos, tem de haver sempre. Do tiro ao alvo Donald Trump a que se assistiu, da passadeira ao palco, destaque para um clip de sátira política, em que James Corden (o anfitrião da noite) organiza um casting para escolher um narrador para o polémico livro “Fire and Fury”, sobre os bastidores da Casa Branca. Entre os vários nomes que participam — John Legend, Snoop Dogg, Cardi B — surge Hillary Clinton, a “voz escolhida”, momento que recebeu uma chuva de aplausos da plateia.

Confere em baixo a lista completa de vencedores:

Grammy Awards de 2018

Álbum do ano

  • Awaken, My Love! — Childish Gambino
  • 4:44 — JAY-Z
  • DAMN. — Kendrick Lamar
  • Melodrama — Lorde
  • 24K Magic — Bruno Mars

Gravação do ano

  • “Redbone” — Childish Gambino
  • “Despacito (Remix)” — Luis Fonsi & Daddy Yankee feat. Justin Bieber
  • “The Story of O.J.” — JAY-Z
  • “HUMBLE.” — Kendrick Lamar
  • “24K Magic” — Bruno Mars

Música do ano

  • “Despacito (Remix)” — Luis Fonsi & Daddy Yankee feat. Justin Bieber
  • “4:44” — JAY-Z
  • “Issues” — Julia Michaels
  • “1-800-273-8255” — Logic feat. Alessia Cara & Khalid
  • “That’s What I Like” — Bruno Mars

Álbum de Rap

  • 4:44 – Jay-Z
  • DAMN. – Kendrick Lamar
  • Culture – Migos
  • Laila’s Wisdom – Rapsody
  • Flower Boy – Tyler, the Creator