Mudança radical no Facebook está a incomodar os órgãos de comunicação social

Estratégia terá de mudar, uma vez que a rede social vai começar a privilegiar discussões bilaterais entre amigos nos posts.

Na semana passada, o Facebook anunciou que vai começar a priorizar publicações de amigos e familiares no News Feed, em detrimento das de páginas. No fundo, a intenção da empresa é colocar em primeiro lugar conteúdos de amigos e posts que promovam interacções entre eles. A mudança está a preocupar os órgãos de comunicação social, habituados a ter no Facebook uma importante janela de distribuição de notícias.

Ao longo de 2017, o Facebook foi posto em causa por causa das fake news. O papel da empresa na distribuição de notícias e a sua incapacidade para gerir a desinformação a circular na plataforma levou a várias críticas por parte de diversos especialistas; alguns afirmando que o Facebook teria de assumir responsabilidades editoriais. Mark Zuckerberg e outros responsáveis, contudo, rejeitaram sempre a classificação do Facebook enquanto “empresa de media”. Em intervenções recentes, o fundador e director executivo da maior rede social do mundo tem falado sobretudo em “aproximar pessoas” e “criar comunidades”.

Facebook afasta-se do jornalismo

Diminuindo a presença dos órgãos de comunicação social no News Feed, o Facebook pode conseguir diminuir também a quantidade de links a circular na plataforma, tornando possivelmente as chamadas notícias falsas menos frequentes. Na verdade, e de acordo com o que foi anunciado, o feed deverá focar-se em “interacções com significado”, de forma a que o tempo que as pessoas despendem na plataforma seja melhor empregue. “Conteúdos passivos”, isto é, vídeos e artigos que pedem pouco tempo aos utilizadores para ver ou ler, vão começar a aparecer menos.

“Queremos assegurar que os nossos produtos não são apenas divertidos, mas são bons para as pessoas”, afirmou Mark Zuckerberg numa entrevista ao New York Times. A mudança parece positiva para quem usa o Facebook e pode inclusive fazer com que as pessoas o usem mais tempo, o que significa mais anúncios vistos, logo mais dinheiro para o Facebook, refere o TechCrunch. Mas o Facebook tem outra opinião: espera que o tempo despendido pelos utilizadores na plataforma diminua, assim como as receitas, mas está disposto a correr esse risco para que esse tempo despendido seja melhor empregado.

Zuckerberg quer que nos sintamos melhor no Facebook

Na sua publicação, Zuckerberg referiu mesmo: “Quero deixar claro: ao fazer estas mudanças, espero que o tempo que as pessoas passam no Facebook e algumas métricas de engagement baixem. Mas também espero que o tempo que passam no Facebook seja mais valioso.” Com conteúdo diferente e menos viral a aparecer no feed, escreve o New York Times, as pessoas podem acabar por passar o seu tempo noutro lado, mas Zuckerberg está convencido de que, se as pessoas se sentirem melhor no Facebook, o seu negócio a longo prazo beneficiará disso. “Recentemente tivemos feedback da nossa comunidade de que conteúdo público – publicações de negócios, marcas e media – está a sufocar momentos pessoais que nos levam a conectar mais uns com os outros”, admite a empresa no comunicado onde anuncia a mudança.

O Facebook tem passado os últimos meses debaixo de fogo, não só pela sua influência social e política, de que falámos há pouco, mas também pelas vozes críticas de ex-executivos que têm surgido.

Sean Parker, ex-presidente do Facebook, disse recentemente que a rede social explora “uma vulnerabilidade da psicologia humana”. Já Chamath Palihaitya, antigo vice-presidente responsável pelo crescimento da base de utilizadores, denunciou as consequências da criação dos loops de gratificação instantânea.

O Facebook enquanto droga

O anúncio agora realizado parece ser um sinal de que a empresa de Mark Zuckerberg tomou consciência das consequências humanas que a sua plataforma pode ter.

Depois de anos de optimização sem piedade – de purificar o produto para melhor ministrar drogas digitais aos utilizadores de forma a levá-los a passar mais tempo no site – percebeu finalmente que, embora possa alterar inúmeras indústrias e produtos, não pode suceder enquanto negócio a alterar o funcionamento da mente humana”, escreve o Quartz resumindo a posição partilhada num artigo mais longo do seu irmão The Atlantic, e que começa com esta descrição:

“Quebrou o jornalismo, por desvalorizar radicalmente o valor da publicidade digital que é o sustento do qual os media hoje dependem; quebrou os hábitos de leitores dos seus utilizadores, os seus ratos de laboratório na sua grande experiência, ao manipulá-los constantemente e ao alimentá-los com um feed contínuo para aumentar as suas interacções com o site; e, de certa forma, quebrou a democracia norte-americana, ao deixar um adversário de forma explorar a sua plataforma e ao permitir surgir o veículo mais eficiente do mundo para espalhar mentiras e propaganda política. Agora, com o anúncio de despir o News Feed de notícias, está a quebrar o seu próprio site, também.” – The Atlantic

No final do ano passado, o Facebook publicou sobre a diferença entre tempo mal passado e tempo bem passado no Facebook. Uma investigação conduzida internamente mostrou que o simples scroll no feed, sem interagir na caixa de comentários ou trocar mensagens com os amigos, é prejudicial à saúde dos utilizadores, realçando tudo menos sentimentos positivos entre eles. “Proteger a nossa comunidade é mais importante que maximizar os nossos lucros”, disse Mark Zuckerberg na apresentação dos resultados do 3º trimestre de 2017.

Métricas como o alcance deverão diminuir

A mudança radical ao News Feed tem deixando alguns responsáveis por órgãos de comunicação social ansiosos, mas as notícias não são propriamente más para eles. No fundo, publicações de páginas não vão desaparecer do feed (como foi feito numa experiência recente); os algoritmos vão, sim, começar a privilegiar posts que promovam discussões e conversas entre a comunidade. O Facebook quer, sobretudo, “posts que inspirem discussões bilaterais nos comentários e que possas querer partilhar ou aos quais queres reagir”, escreveu Adam Mosseri, responsável pelo News Feed, na nota no blogue da empresa onde detalha as alterações.

Em entrevista ao TechCrunch, Adam espera que os órgãos de comunicação social reajam com “uma certa dose de escrutínio e ansiedade”, pois é esperado que as páginas vejam o seu alcance, tempo de visualização de vídeo e o tráfego através da partilha de links diminua. A melhor resposta que podem dar às suas preocupações – legítimas – é “experimentar… e ver… que conteúdos resultam em mais comentários, mais gostos, mais partilhas”. As mudanças ao News Feed vão acontecer nos próximos meses, anunciou a empresa.

Marcas editoriais

Matt Navarra, que gere as comunidades online do The Next Web, um órgão de comunicação social digital sediado em Amesterdão, avança que as marcas editoriais deverão começar a comportar-se mais como outro tipo de marcas, isto é, apostar em relações conversacionais – diálogos com os seus leitores. Já o New York Times tem dúvidas se o facto de o Facebook começar a privilegiar discussões entre amigos não irá reforçar as chamadas bolhas ideológicas, levando-os a comentar em “posts e vídeos que reflectem posições semelhantes às dos seus amigos e familiares”.

É natural que a intenção do Facebook de se afastar do mundo das notícias cause algum desconforto entre quem está nesta área. Nos últimos anos, a rede social tem investido em ferramentas para as publicações, como os Instant Articles, e até lançou, no ano passado, o “The Facebook Journalism Project”, destinado a apoiar o jornalismo digital, em particular na plataforma. De notar que, contudo, o tráfego que as publicações conseguem obter através do Facebook tem diminuído, apesar de ainda se manter uma fonte importante.