Verão Danado: o filme que nos toca a todos e nasceu da vontade de um jovem

Filme de Pedro Cabeleira, que foi merecedor de uma menção especial no festival de Locarno, estreia nas salas e na internet.

Enquanto chegava à sala do El Corte Inglés, pesquisei no telemóvel mais informação sobre o filme que me tinham convidado a ver. Afinal de contas, isto do cinema de autor não é só para cinéfilos e um trabalho sobre a nossa geração, produzida por quem tem apenas mais um ano que eu, já tinha sido apelo mais do que suficiente para fazer a escolha de ir espreitá-lo.

Pedro Cabeleira, 25 anos, fez este filme entre amigos, com os recursos que conseguiu arranjar e muita vontade de produzir uma longa metragem – li pelo caminho. Verão Danado segue vários jovens durante um Verão pelo qual muitos de nós já passámos ou vamos passar: Verão das incertezas, depois da faculdade, em que não se sabe o que vem depois. É também um Verão em que se dá a última volta pela vida boémia da faculdade, uma espécie de “despedida de solteiro” desses tempos. Um Verão danado a acabar.

As incertezas aparecem ao longo do Verão Danado de Pedro Cabeleira e começam pelas de Chico, personagem principal na qual a câmara se centra a maior parte das vezes, seguindo-o desde a terra dos avós até um after em Lisboa, passando por jantares e festas intercalares. Vamos conhecendo este Chico através dos seus amigos, dos desconhecidos que momentaneamente conhece e das conversas que todos têm, com a câmara a mostrar quase sempre os rostos dos intervenientes, ao estilo de um Juste La Fin Du Monde de Xavier Dolan. A narrativa é mais uma sequência de episódios soltos que Pedro Cabeleira decidiu encadear para retratar o Verão danado de Chico. Não existe propriamente uma história, sendo este quase um drama-documental de noitadas de álcool, charros, MD, amores (ilusões) e desilusões.

Sinopse: estamos no princípio do Verão e Chico acabou a faculdade. Sem grandes perspectivas e com as férias por diante, começam as brincadeiras, os jantares, as festas e as noitadas. A música acompanha Chico nestas tardes de ócio, drogas, desilusões amorosas e momentos psicadélicos. Verão Danado é um ímpeto de adrenalina com Lisboa como pano de fundo de uma juventude à deriva.

Verão Danado foi a primeira longa-metragem para que Pedro Cabeleira se atirou e resultou um bom mergulho. O filme mereceu uma menção especial do júri do conceituado festival de cinema de Locarno, antes de chegar a Portugal. Está em exibição em algumas cidades, nomeadamente em Lisboa (Nimas e El Corte Inglés) e Porto (Trindade e Arrábida); chegará a todo o território nacional através da plataforma de streaming de cinema independente e de autor Filmin.

O realizador já disse que Verão Danado não pretende ser um retrato geracional, mas antes um registo espontâneo e sincero de um ambiente que ele também experienciou. Pedro, que assina também o argumento, começou a trabalhar no filme aos 21 anos, depois de terminar o curso de realização na Escola Superior de Teatro e Cinema. Juntou os meios que tinha, material emprestado e a vontade dos amigos – são boa parte dos 150 actores neste filme.. Verão Danado chega-nos através da produtora Videolotion, que ele mesmo fundou. Pedro queria mesmo fazer um filme e fê-lo.

A Direção de Fotografia é de Leonor Teles, Urso de Ouro no festival de Berlim; e a banda sonora percorre temas comuns a esta geração, de Éme, Pega Monstro, Rafael Toral, Nigga Fox, António Variações, etc.