Então, é Natal. O Natal em 7 casas portuguesas

Falámos com 7 jovens de pontos geográficos distintos e contextos diferentes, para percebermos como é a sua vivência.

As semelhanças podem ser muitas, mas são as diferenças que fazem do Natal uma festividade muito exclusiva e íntima. Partindo desta ideia, falámos com 7 jovens de pontos geográficos distintos e contextos diferentes, para percebermos como é a sua vivência.

Quem é quem

A Soraia tem 26 anos e está a trabalhar em Consultoria na área das Tecnologias de Informação. O Natal vai ser passado em casa da avó, numa aldeia perdida na montanha, em Paredes de Coura.

O Zé Alves vai passar o Natal nos arredores de Viseu com os familiares mais próximos. Tem 23 anos e está a trabalhar na área de Marketing Digital.

O Zé Rebelo não falha à regra e volta a passar (o Natal) por Alcobaça, em casa da avó. Tem 24 anos e está a tirar Mestrado em Arqueologia.

A Sofia tem 17 e está a estudar Medicina. Vai passar o Natal em Lisboa em em casa, que é como quem diz em casa dos pais.

A Ana Rita desce até ao Algarve. Com os pais separados, vai passar o Natal em Silves entre a casa da mãe e do pai. Tem 28 anos e é Técnica Bancária.

O Paulo e a Cristiana vão ter de levantar voo.

Ele vai até Machico, que é a sua atual residência na Madeira. Tem 23 anos e está a tirar Mestrado em Sistemas de Informação Geográfica (SIG).

A Cristiana vai passar pela primeira vez o Natal em Ponta Delgada, nos Açores, em casa dos tios. Está a estudar Prótese Dentária e tem 20 anos.

O Natal de cada um

As toalhas são estendidas, as bandejas começam a surgir e as famílias reúnem-se à volta da mesa.

A moda, i.e. o mais frequente, é o tradicional bacalhau com todos. Na aldeia do festival de Verão vão ser 30 à mesa, entre pais, avós, tios, primos e um cão que este ano foi adotado – o Max. No dia 25 segue-se a tradição minhota com o típico cabrito no forno. O que não falta são as rabanadas de todos os feitios – “leite, vinho branco, tinto e vinho do porto” e o arroz doce. Parte da família da Soraia integra o coro da missa, por isso costumam cantar os tradicionais cantos de Natal.

A conta é variável, mas pelos lados de Viseu o número mínimo serão 6, entre avós, pais e irmã. O prato principal é também bacalhau com batatas cozidas e no dia de Natal não existe propriamente um prato específico.

O Zé Rebelo é quem leva a taça, com a família mais numerosa: só irmãos são logo 3 e a multiplicação entre tios, primos, avós e pais totaliza 46 pessoas. Serão várias as postas de bacalhau servidas, com couves, grão e batata cozida. As sobras do jantar serão a ementa do almoço, conhecida por “roupa-velha”.

Em casa da Sofia, o número é perfeito, mas este ano, para fugir à norma vão ser 10: juntam-se aos pais, irmã e avós, os tios e o primo pequenino que vêm do Brasil. À mesa segue-se a tradição do bacalhau. O que não vai faltar são os patés para entrada, “que são uma paixão”, e um gigante pão-de-ló de Margaride que encomendam todos os anos. Têm outra tradição particular: “uma coisa que adoramos é devorar todos os filmes de Natal da Disney no dia 24, por isso, ao longo de todo o dia temos os filmes a passar no ecrã da sala e as pessoas vão entrando e saindo, no meio de toda a correria de preparação da casa.”

Em casa da Ana Rita dá-se primazia ao improviso, e por isso não existe uma ementa típica e todos os anos costumam diversificar. Este ano para entrada vão ser servidos vários tipos de queijo, camarões e sapateira e o prato principal será peixe no forno.

“Vamos ser doze à mesa” e para além do bacalhau será também servido polvo – uma tradição que é levada aos Açores pelo sangue nortenho dos pais e tio da Cristiana.

Com uma toalha nova na mesa, o Paulo segue a tradição madeirense com a carne de vinha d’alhos. “Infelizmente somos só 3 – eu, a minha mãe e irmã” mas “a mesa está sempre recheada, a sala está decorada a rigor e não falta a boa-disposição (tirando a minha irmã que está sempre maldisposta eheh).”

Os principais tópicos de conversa são as partilhas do ano que correu e as lembranças de episódios passados. “Como estamos muito espalhados pelo país (e mundo) há sempre assuntos interessantes à mesa!” (Soraia). “Futebol também é tema do dia, uma vez que lá em casa somos todos Sportinguistas fervorosos” (Zé Alves).

A noite vai passando e a hora de abertura dos presentes aproxima-se, mas até aqui há diferenças e, quem as dita são as crianças. Se as houver é o Pai Natal que distribui os presentes como é o caso das famílias da Soraia, do Zé Rebelo e da Sofia, todos com primos mais pequeninos.

Em casa do Zé Rebelo, antes de se distribuir os presentes, os primos mais novos dão asas à criatividade e apresentam um pequeno teatro ou espetáculo.

O rasgar dos embrulhos acontece no fim de jantar, à meia-noite ou depois dessa hora. Mas nem todos o fazem a 24: “lá em casa, talvez por sermos todos adultos e não existir crianças, não temos uma hora específica para dar os presentes e é ao longo do dia 25”. (Paulo)

No caso da Ana Rita, como não há crianças na família não fazem distribuição de prendas. Por norma, depois da meia-noite, ela vai para o café ter com as minhas amigas e juntam-se todas por lá.

Em casa da Cristiana fazem um jogo para abrir os presentes, mas antes disso a tia faz uma “espécie de discurso sobre o que é realmente o Natal” direcionado principalmente para os primos “que são mais novos e interagem mais na conversa”.

Há sempre presentes que, desejados ou não, já sabem que vão receber… o dinheiro é o mais comum, a par do chocolate! Os pais do Zé Rebelo oferecem-lhe roupa nova, a Sofia recebe um perfume dos tios e os avós do Zé Alves dão-lhe meias e boxers.

No entanto, houve alguns pedidos específicos: “um teclado porque estou a pensar aprender a tocar piano” (Sofia) e “umas calças, porque estava a precisar” (Cristiana).

Quem recebe, também os oferece, nomeadamente à família mais próxima e aos amigos secretos… Alguns dos presentes são originais: “eu e a minha irmã oferecemos sempre um postal a cada um, que nós decoramos, tal como fazíamos quando éramos crianças” (Sofia), “em princípio comprarei um cacto para a minha mãe” (Ana Rita) e ainda a Cristiana que escreve um texto para os pais.

Há quem não ceda ao consumismo e não compre nada, como é o caso do Paulo, que se justifica dizendo: “só gosto de coisas demasiado caras para a minha carteira”.

É dia Natal e para muitos significa dia de ir à missa celebrar o nascimento de Jesus: “Natal é sinónimo de nascimento, vida nova, recomeço.” (Soraia). Nos Açores, com uma forte tradição religiosa, a casa dos tios da Cristiana vai estar decorada com muitos presépios, bem como a ilha de São Miguel.

Na Madeira, a grande tradição são as missas do parto que acontecem de 16 a 24 de dezembro, onde depois da missa há cânticos próprios da ocasião, bebidas quentes e petiscos típicos.

Para alguns, esta festividade não tem significado religioso e é um momento de união da família.

À noite de 25 ainda há sobras para jantar e num ápice já se passou mais um Natal. Há quem dispense o consumismo louco, o Zé Alves sugeriu “haver um limite máximo permitido por lei de jantares de Natal”, mas todos eles adoram esta festividade, nomeadamente pelo prazer que há em reunir a família. As distâncias encurtam-se, os sotaques reforçam-se e o coração sai renovado para mais um ano, até que volte a ser Natal.

Texto de: Mariana Carvalho
Editado por: Rita Pinto

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