Jim & Andy: a vida por trás de um grande papel

Um brilhante trabalho, que nos deixa a pensar em questões profundas sobre o sentido da vida.

Se há questão que marca qualquer um que se perca a pensar no sentido da vida é certamente o que acontece depois do tempo terreno ou, noutra perspectiva, o que acontece na terra depois de passar o nosso tempo. Incerto e inquietante, este dilema ganha ainda mais peso quando pensamos em personalidades distintas e marcantes e nos outros observamos partes de si – será que é nos outros que se vive depois da morte?

Embora essa hipótese seja provavelmente insuficiente para as crenças da maioria, há exemplos que nos levam mesmo a crer que está tudo ligado – ou que estamos todos ligados num eterno continuo onde os corpos são só uma expressão de passagem. A presença de Andy Kaufman em Jim Carrey é certamente um desses exemplos.

Jim & Andy é um documentário original do Netflix, produzido pela VICE Media e sob a batuta do maestro Spike Jones. Revela-nos a relação intensa que Jim desenvolveu com Andy, depois da morte deste e quando foi convidado a representá-lo para no filme Man On The Moon. Mais do que uma simples interpretação, Jim aproveitou o papel no filme de Milos Foreman para, vivendo como Andy, dar um novo sentido temporário – embora absurdo – à sua vida.

Durante a rodagem da longa-metragem, as suas acções são indescritíveis. Referia-se sempre a Jim Carrey na terceira pessoa, levando a personagem a extremos inenarráveis com a premissa de fazer tudo o que o Andy faria. O resultado foi de tal forma fidedigno que as reacções emocionais e profundas começaram a surgir ao longo dos tempos de rodagem.

A família de Andy Kauffman começou a ver no Jim/Andy uma forma de revisitar memórias, com a irmã a tratá-lo como se do real Kauffman se tratasse e os seus pais sempre dispostos a abraçá-los. Os amigos e conhecidos de Kauffman, como Bob Zmuda, convidados a contracenar nesta homenagem ao actor, feita por Milos Foreman, reiteram as parecenças. E Jim Carrey não sai por um segundo do personagem.

Man On The Moon retrata a vida, obra e morte de Andy Kauffman, pelo que o filme culmina com a fragilização e morte do comediante vítima de cancro. Nas rodagens, o papel de Jim foi de tal forma realista que é possível ver no documentário a equipa completamente emocionada.

Entre dramas e questões fundamentais, há espaço para momentos lúdicos que recuperam a ironia do absurdo e nos deixam maravilhados quer por um, quer por outro. A intriga entre o Wrestler Lawler e Andy, por exemplo, leva Jim a uma série de provocações que podiam ter acabado mal e sobre as quais ainda se questiona se terá ido longe demais.

Longe demais na representação de um papel ou re-aproveitando a ocasião para reacender a chama da imortalidade do génio Andy Kauffman, a verdade é que este foi um papel transformador na carreira e na personalidade do actor, como aliás diz terem sido todos os que fez. As filmagens, prova desses momentos e das transformações, foram gravadas por uma realizadora documental, amiga de Andy e de Jim, e chegaram agora ao grande público pelas mãos da VICE Media e do Netflix, que neste brilhante trabalho de documental, cruzando universos como o da fama, da comédia e da representação, nos acaba por deixar a pensar em questões mais profundas sobre o sentido da vida.