“Vamos apontar os vossos nomes”: a reacção infantil dos EUA na ONU

Estados Unidos ameaçaram todos os países que votassem contra si nas Nações Unidas por causa de Israel. Portugal foi um deles.

Donald Trump Jerusalém Israel

O veto dos Estados Unidos à resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) que invalidava a designação de Jerusalém como capital de Israel levou o assunto para discussão alargada entre os 193 países que integram a Assembleia-Geral da ONU. Sem possibilidade de vetar ou fazer frente ao consenso alargado que se fazia prever em torno do diploma, os Estados Unidos, representados por Nikki Haley, tentaram fazer da chantagem e das ameaças o seu argumento.

O argumento da força – neste caso monetária, como explicaremos à frente – não foi convincente e os resultados da votação expressivos. 128 países votaram a favor do diploma que condena qualquer decisão unilateral sobre o território de Jerusalém, 35 abstiveram-se (destaque para a complacência do Canadá), 21 países não estiveram presentes na reunião e apenas 9 votaram a favor: Guatemala, Honduras, Ilhas Marshall, Micronésia, Nauru, Palau, Togo e, claro está, Estados Unidos e Israel.

Foi na quarta feira, dois dias antes da votação geral, que, face ao cenário de derrota previsto, os EUA decidiram agudizar o discurso. Numa nota enviada para todas as delegações da ONU, Nikki Haley avisava os seus homólogos de que iria apontar “todos os nomes” de quem votasse contra a intenção dos EUA. O jornal britânico The Guardian teve acesso a essa nota cujo teor não deixa dúvidas. “Quando considerarem o vosso voto, lembrem-se que o Presidente e os Estados Unidos vão levar esse voto pessoalmente”, dizia. “O Presidente vai ver esse voto cuidadosamente e, a seu pedido, vou-lhe dizer quem votou contra.”

Voto contra = perda de ajuda dos Estados Unidos

A juntar à carta direcionada a cada um, seguiu-se uma série de tweets públicos a reforçar a mensagem. Nas publicações feita na rede social preferida de Donald Trump, a embaixadora norte-americana reclama que, nas Nações Unidas, os Estados Unidos são sempre convidados “a fazer mais e a dar mais”, dizendo mesmo que não espera críticas daqueles que já foram ajudados e repetindo a nota ameaçadora: “Os Estados Unidos da América vão apontar os vossos nomes.”

Esta nota de ameaça bastante objectiva segue a linha de política internacional de Donald Trump, que, em reacção ao assunto, reagiu com indignação e a habitual ironia, dizendo que por votarem contra os países perderão a ajuda dos Estados Unidos, o que pode resultar numa poupança para o país. Entre os votos contra estão alguns dos países que recebem mais apoio financeiro dos norte-americanos, lista que é encabeçada precisamente por Israel.

Um “ataque ao exercício de um direito de um país soberano”

Logo após a votação Nikki Hailey, reforçou as ameaças e revelou a indiferença dos Estados Unidos perante a votação das Nações Unidas. Num curto discurso, Haley categorizou o resultado de um “ataque ao exercício de um direito de um país soberano” e voltou a avisar para a possível retaliação, relembrando que os EUA são dos países que mais contribuem para o bolo monetário da Nações Unidas e para a ajuda financeira a muitos países.

Segundo menciona a imprensa internacional, fontes do Governo norte-americano já confirmaram que estão a ser planeadas acções de retaliação, algo especialmente interessante se pensarmos que do outro lado da barricada estão praticamente todos os até aqui eram aliados dos EUA. Já no Conselho de Segurança, importantes aliados como Reino Unido, França e Itália haviam votado contra a deliberação de Washington, o que agora repetiram.

Portugal, um dos que votou contra

Portugal, um dos países que tradicionalmente alinha com os Estados Unidos nesta matéria e que só em 2014 reconheceu o estado da Palestina, votou negativamente, de acordo com o previsto e com o que já tinha sido anunciado por Augusto Santos Silva, actual Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Conforme explicitam as palavras de Haley, o resultado da votação pode não ter sequer grandes efeitos práticos pelo que é do ponto de vista simbólico e político que se espera agitação. O Presidente da Palestina disse, citado pelo The Independent, que foi uma vitória para o seu país, mas adiantou que é preciso mais passos para terminar com ocupação indevida. Apesar da votação esmagadora, alguns activistas relembram as décadas de espera pela execução das resoluções da Nações Unidas, que desde 1967 sinalizam a presença física das estruturas do Estado de Israel na cidade de Jerusalém como ocupação indevida.

A cidade de Jerusalém é um ponto de extrema importância na história mundial pelo que a ONU chegou a propor que ficasse sob o seu controlo, algo que mudou com a fundação do Estado de Israel em 1948. Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel, ainda se mostrou mais indiferente perante as deliberações das Nações Unidas, tendo mesmo discursado cinco horas antes de ser conhecido o veredicto, agradecendo a Trump e a Haley por defenderem os interesses de Israel.

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