Estima-se que 300 mil milhões de dólares seja o valor total do mercado de criptomoedas, que é dominado em mais de 50% pela bitcoin. E se esta é a criptomoeda mais conhecida, não é a única que existe. Graças ao Ethereum, uma plataforma aberta, qualquer um pode criar a sua própria moeda digital; e há outras que têm vindo a desbravar terreno, como o Litecoin ou o Ripple.

Mas, se começamos por falar dos valores, olhemos de seguida para para oscilação deste mercado. Em Outubro, quando começámos a pesquisar para esta peça, a valorização era de 170 mil milhões de dólares. A dominância da bitcoin, que no início deste 2017 rondava os 80%, tem vindo a diminuir com o surgimento de novas moedas e mantém-se hoje entre os 50 e 60%.

Este artigo começa pelos números para que o leitor fique com noção relativa da dimensão das criptomoedas no panorama actual. Apesar desta aparente popularidade das criptomoedas, o seu impacto no quotidiano está ainda muito restrito a um determinado espaço e contexto social – quem está ligado ao mundo tecnológico. Se é verdade que a tecnologia está disponível a todos, a sua utilização implica alguns conhecimentos base, e não são imediatos. É preciso ter um amigo que já tenha ficado interessado no assunto ou ser um programador.

É que se com dinheiro físico estamos habituados a mexer desde que nascemos, o conceito de moeda digital pode não ser fácil de assimilar. Onde está essa moeda? Quem a produz? Quais são as suas regras? Quem as define? É segura de utilizar? Posso pagar compras no supermercado com ela? São dúvidas legítimas de se ter relativamente à bitcoin e outras criptomoedas.

O que são criptomoedas?

Uma criptomoeda é uma moeda como o Euro ou o Dólar mas que não é impressa por uma entidade central. Não existe sequer em papel. Em vez disso, é inteiramente digital e gerida por todos. As criptomoedas baseiam-se em blockchain, uma tecnologia que possibilita a não existência de uma autoridade responsável pelo controlo financeiro. Graças ao blockchain (ou “cadeia de blocos”, em português), todas as pessoas têm acesso a todas as transações feitas com uma determinada criptomoeda, o que garante transparência e segurança, mas sobretudo uma descentralização da economia.

Documentário Banking On Bitcoin (2017)

A ideia base do blockchain é precisamente essa: a informação não é guardada numa única fonte mas antes por vários utilizadores, que fazem a sua encriptação e verificação, sendo o registo de alterações partilhado por todos. O processo de verificação de criptomoedas chama-se  é a mineração, no qual pessoas individuais actuam como fiscalizadores. Os utilizadores ganham quantias monetários pelo serviço e as transacções tornam-se mais seguras. Quem diz os utilizadores, diz outras entidades – há sites que estão a usar o CPU dos visitantes para minerar criptomoedas e, assim, ganharem dinheiro. Uma forma de monetização alternativa à publicidade tradicional?

Bitcoin, a primeira grande experiência de blockchain

Nos anos 1990s, um grupo de pessoas juntou-se num movimento chamado Cypherpunks com a vontade comum de defender uma internet aberta. Foi no seio dos Cypherpunks que se delinearam as primeiras ideias daquilo que mais tarde viria a ser a bitcoin, a primeira criptomoeda do mundo. Um dos membros deste movimento – o criptógrafo Nick Szabo – foi o autor do BitGold, uma espécie de percursão da bitcoin, e é, por isso, muitas vezes referido como autor ou co-autor desta moeda.

Screenshot do documentário Banking On Bitcoin (2017)
Screenshot do documentário Banking On Bitcoin (2017)

Ninguém sabe quem criou a bitcoin, tirando o nome com que assina, Satoshi Nakamoto. Mas este pode não ser real ou até representar um conjunto de pessoas. Certo é que Satoshi Nakamoto – seja ele quem for – deixou-nos uma tecnologia que podemos usar para criar o que quisermos. Não só a bitcoin já deu origem a outras criptomoedas, usando o mesmo conceito de blockchain, como estão continuamente a surgir novas ideias, serviços e empresas a utilizar a própria bitcoin.

Rapidamente esta moeda deixou de ser uma coisa de geeks e malta ligada à tecnologia, para ser abraçada pelas “pessoas de fato” – investidores de Silicon Valley, políticos, reguladores… Deu-se o boom da bitcoin enquanto, no sector bancário, se viviam crises profundas.

Satoshi Nakamoto, segundo a Newsweek

Quem é Satoshi Nakamoto? Em 2014, a revista Newsweek anunciou na capa que tinha descoberto o autor da maior criptomoeda do mundo – um homem japonês de 64 anos chamado Dorian Satoshi Nakamoto e que residia perto de Los Angeles. Dorian negou ser o criador da bitcoin; e, no impasse, apareceu Craig Wright, australiano, membro dos Cypherpunks, que em Maio de 2016 afirmou a vários órgãos de imprensa ser o verdadeiro Satoshi Nakamoto. A sua versão não foi aceite por todos e o mistério permanece dividindo opiniões. Ao nome de Nick Szabo, e seguindo a pista de que a bitcoin pode ter sido criada por um grupo de pessoas ou por um antigo Cypherpunk, junta-se o de Hal Finney. Com uma história que o ligava a Dorian Satoshi e por ter estado envolvido na primeira transação de bitcoin, Finney perfilava-se como um suspeito óbvio numa perspectiva mais racional.

Faleceu em 2014, vítima de esclorose lateral amiotrófica, sem poder confirmar ou desmentir os rumores sobre a sua ligação à moeda fenómeno. A prova de que pelo menos não esteve sozinho nisso, foi recolhida pelo jornalista Andy Greenberg, da Forbes, que teve acesso a uma troca de e-mails entre Finney e Satoshi a propósito da primeira transação nesta criptomoeda.

O ethereum e as outras criptomoedas

A bitcoin é apenas uma peça de um gigante mercado de criptomoedas, mas é a peça mais relevante. Podem existir 100 ou mais moedas diferentes, mas a expressão de cada uma delas é bastante reduzida a uma escala global – basta ver que a bitcoin equivale a mais de metade do mercado. O Ethereum, cuja maior diferença relativamente à bitcoin é permitir a criação de automatismos em cima dela, representa uma fatia de 14%; o Bitcoin Cash, um clone da bitcoin, tem 7%; as restantes moedas 1-2% ou menos.

Name            | Sym.  | Description                              
----------------|-------|------------------------------------------
Bitcoin         | BTC   | Digital gold                             
Ethereum        | ETH   | Programmable contracts and money         
Bitcoin Cash    | BCH   | Bitcoin clone                            
Ripple          | XRP   | Enterprise payment settlement network    
Litecoin        | LTC   | Faster Bitcoin                           
Dash            | DASH  | Privacy-focused Bitcoin clone            
NEO             | NEO   | Chinese-market Ethereum

Nesta página encontras uma lista de 100 criptomoedas e um resumo do que é cada uma delas. O Ethereum é a segunda moeda mais importante a seguir à bitcoin – é uma espécie de “WordPress das criptomoedas”, que qualquer pessoa com certos conhecimentos de programação pode usar para criar a sua própria moeda. Foi o que aconteceu, por exemplo, num hackathon em Portugal, onde, assente numa versão do Ethereum, nasceu a Exposure – uma criptomeda utilizada num mercado paralelo para investidores apoiarem os seus projectos preferidos e para empreendedores venderem ou adquirirem serviços.

O que dá para fazer com criptomoedas?

As moedas digitais, ou criptomoedas, são “moedas normais”. Só que não se vêm e não são controladas por ninguém. São diferentes daquilo a que podemos chamar de dinheiro “verdadeiro”, unidades monetárias emitidas oficialmente por países através dos seus bancos centrais, como o Euro ou o Dólar. O valor dessas moedas oficiais depende das taxas estabelecidas precisamente bancos centrais. Através da análise de indicadores económico com a promessa de estabilidade e controlo, esse valor é fixado.

Por exemplo, uma pessoa que viaje muito teria de se preocupar com a conversão da Libra Esterlina para Real Brasileiro, passando pelo Yen e finalizando no Dólar Australiano, mais as taxas tenebrosas a pagar a bancos e outras entidades financeiras. Já um utilizador de criptomoedas pode adquirir uma carteira virtual (é como se chama a aplicação onde se guardam as moedas electrónicas) e começar a usar as suas bitcoins (ou outra criptomoeda) no Reino Unido, Brasil, Japão, Austrália… Só precisa que as lojas onde vai aceitem esta forma de pagamento. Pondo as coisas em perspectiva, é como comprar fichas num casino universal. Fazem-se as transacções necessárias com as fichas. Depois as fichas são devolvidas quando se sai do sistema à taxa corrente.

Existem dezenas de outras formas de utilizar bitcoins, por exemplo, alguns serviços online já as aceitam. Foi o caso da primeira conferência sobre blockchain e criptomoedas que se realizou em Portugal, a Blockspot, cujo bilhete podia ser comprado em bitcoins. Ou é o caso da plataforma de crowdfunding PPL.com.pt, que aceita bitcoins como forma de apoiar campanhas.

Outro uso muito comum das criptomoedas são as transferências internacionais. Converter uma determinada quantia de uma moeda para outra pode demorar dias, mas se a transferência acontecer por intermédio de bitcoins pode ser apenas alguns segundos. Como é que funciona? A quantia em Euros que tenho é convertida em bitcoins, que como não têm barreiras geográficas, podendo ser transacionadas em qualquer parte do mundo, são convertidas na moeda do país de destino – Reais, por exemplo. Como todo este processo demora poucos segundos, não é afectado pela volatilidade do valor da bitcoin.

O valor das criptomoedas, de onde vem?

Na verdade, o valor da bitcoin pode variar e varia muito ao longo do tempo. Quem compra bitcoins, deve estar consciente que daqui a uns meses o seu investimento pode valer bem menos – ou valer bem mais. É sempre um risco. Isto acontece porque as criptomoedas não resultam de uma conversão simples de dinheiro “real” em bits – são influenciadas directamente pela oferta e pela procura dos utilizadores. Imaginando que toda a gente começa a vender bitcoins de forma maníaca, o valor desce. Se passar a ser ao contrário e houver escassez, o valor aumenta. Quando este artigo começou a ser escrito, 1 BTC (ou seja, 1 Bitcoin) valia 3562,80 euros; agora, aquando da sua publicação, vale 9511,31 euros; não se sabe como vai ser amanhã.

A consequência imediata desta volatilidade é a instabilidade da moeda e proliferação de “sanguessugas”, pessoas que compram a bitcoin com o objectivo único de a vender por um valor mais alto. Daí haver um sério temor de uma bolha financeira rebentar e o valor da bitcoin esvair-se. Outro detalhe importante é que, uma vez que não há uma entidade oficial responsável, dificilmente se pode encontrar o utilizador que fez uma transacção. O anonimato é uma das características principais deste tipo de moedas, uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. O dinheiro torna-se muito mais difícil de seguir, o que pode ser apetecível para lavagem de dinheiro ou mercados livres, como a história recente já mostrou.

Polémicas e regulação

Silk Road foi lançado em 2011 por Ross Ulbricht, que tinha uma visão muito liberal do que deveria ser um mercado. Silk Road era um site, na Dark Web, onde qualquer pessoa podia vender qualquer coisa ou comprar qualquer coisa, incluindo drogas e armas – um mercado verdadeiramente livre e fora de qualquer regulação. Pelo seu anonimato, a bitcoin era a única moeda que os internautas podiam usar para fazer as compras. O site acabou por ser encerrado em 2013 pelo FBI e Ross Ulbricht foi condenado a prisão perpétua – a associação da bitcoin a Silk Road não foi positiva para a imagem da criptomoeda e as autoridades norte-americanas terão querido usar isso para enviar uma mensagem a todos os que usam bitcoins.

Os bancos centrais, os governos, não sabem o que fazer – estão assustados com a ideia de criptomoedas que não controlam e de um mercado que não estão a conseguir regular. Quem defende a regulação, diz que a mesma evita que casos como Silk Road voltem a acontecer, ou que a bitcoin seja associada a esquemas de malware. Contudo, a regulação do mercado pode fazer cair a promessa inicial dos Cypherpunks, a de um mundo ideal onde os governos não lucram com taxas cambiais e onde os todos os comuns mortais partilham das mesmas capacidades de acesso à moeda.

A função da moeda – seja ela qual for a sua forma (física ou virtual) – é facilitar trocas de bens. No momento em que as carteiras de moedas electrónicas se tornarem normais, por exemplo nos smartphones, essa utilização para os gastos correntes será muito mais frequente.

Texto em colaboração com: Miguel Melo

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