O que se passa no Zimbabwe 37 anos depois

Aparente golpe de estado no Zimbabwe marca primeiro conflito entre as chefias militares e Robert Mugabe desde a sua chegada ao poder em 1980.

Robert Mugabe

O Exército do Zimbabwe tomou o país na madrugada desta quarta-feira, anunciando que capturou o Presidente do país, Robert Mugabe, um dos mais velhos chefes de Estado do mundo e o homem que está há mais tempo no poder num país de África.

No que parece ser o primeiro golpe militar no país desde a chegada de Mugabe ao poder – primeiro em 1980 como primeiro-ministro, desde 1987 enquanto Presidente –, o Exército tomou a televisão estatal, ZBC, depois de uma madrugada em que a capital do país foi abalada por três explosões.

A partir da redação, dois soldados em uniforme anunciaram que “a situação no país avançou para outro nível”. Rejeitaram a teoria de um golpe militar em curso e asseguraram na televisão nacional que o líder de 93 anos e a sua família estão “bem e em segurança”.

Soldados com veículos de guerra estão a bloquear as estradas até aos principais edifícios do governo e tribunais em Harare, segundo avança a agência Reuters. “Temos apenas como alvo os criminosos em torno de Mugabe que estão a cometer crimes que causam sofrimento social e económico no país e o objetivo é levá-los à justiça”, disse o major general Sibusiso Moyo, na televisão estatal. “Logo que tenhamos cumprido a nossa missão, esperamos que a situação regresse ao normal”.

Até agora não houve qualquer comunicação da parte do presidente Mugabe ou da mulher, Grace, que tem sido apontada como a possível sucessora à presidência do Zimbabwe – com a sucessão de Robert Mugabe a ser apontada como um dos motivos prováveis para a discórdia entre militares e poder político.

O porta-voz do exército pediu às igrejas para rezarem pelo país e instou as outras forças de segurança a “cooperarem para o bem da nação”, advertindo que “qualquer provocação terá uma resposta adequada”.

Todas as tropas receberam ordens para retornar ao quartel imediatamente, disse Moyo. A transmissão da televisão passou da sede da ZBC para perto de um subúrbio de Harare, em Borrowdale.

Pouco tempo antes, uma conta no Twitter, alegadamente do partido no poder no Zimbabué, o Zanu-PF, negava um golpe de estado e falava numa “transição de poder sem sangue”.

Na mesma conta, o partido referia: “na última noite, a primeira família foi detida e está a salvo”. E acrescentava: “hoje começa uma nova era e o camarada Mnagngawa vai ajudar-nos a fazer um Zimbabué melhor”.

O Governo português recomendou aos portugueses que vivem em Harare, no Zimbabwe, cuidados redobrados nas deslocações para o centro da cidade e que evitem zonas de grande concentração de pessoas, depois da agitação vivida durante a madrugada. A embaixada dos Estados Unidos está hoje fechada ao público e encorajou os cidadãos a procurarem refúgio, citando “a continuada incerteza política ao longo da noite” e a congénere britânica emitiu um aviso similar, citando “relatórios de atividade militar invulgar”.

O Zimbabwe vive pela primeira vez uma divergência aberta entre o presidente, que dirige o país desde 1980, e o exército. A tensão escalou na semana passada depois de Mugabe, de 93 anos, ter despedido o seu vice-presidente e aliado de longa data, Emmerson Mnangagwa, de 75 anos, que tinha estreitas ligações com os militares. Na segunda-feira, o chefe das Forças Armadas, o general Constantino Chiwenga, condenou a demissão do vice-presidente do país, e avisou que o exército poderia “intervir” se não acabasse a “purga” dentro do Zanu-PF.

O partido, de Mugabe, reagiu no dia seguinte ao aviso sem precedentes, acusando o chefe das Forças Armadas de “conduta de traição”, afirmando que as críticas do general Constantino Chiwenga destinavam-se “claramente” a perturbar a paz nacional e demonstraram uma conduta de traição, “já que foram feitas para incitar à sublevação”.

Mnangagwa há muito considerado o delfim do Presidente, foi humilhado e demitido das suas funções e fugiu do país após um braço-de-ferro com a primeira-dama, Grace Mugabe.

Figura controversa conhecida pelos seus ataques de cólera e dirigente do braço feminino do partido do marido, Grace Mugabe, de 52 anos, tem muitos opositores tanto no partido como no Governo. Com este afastamento de Mnagngawa, ficaria na posição ideal para suceder ao marido, que, apesar da idade avançada e da saúde frágil, foi nomeado pela Zanu-PF como candidato às eleições presidenciais de 2018.

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