“O céu e o inferno estão tão distantes um do outro como a dia e o noite, como alguma coisa e nada” – Jakob Boehm

À parte de qualquer tendência tecnológica que se possa ter afirmado no Web Summit, no seio da sociedade portuguesa reafirmou-se uma que há cada vez mais tempo nos caracteriza: o da polarização simplista. Seja do lado dos que louvam o festival ou dos que ironicamente o caracterizam como local de culto de uma nova seita universal, ressalta nos discursos quase sempre uma visão maniqueísta com exemplos escolhidos a dedo a tentar servir um ponto de vista único.

A verdade é que um evento desta natureza e dimensão não se pode ser visto nem debatido apenas de uma perspectiva. Não é que as críticas não façam sentido – porque fazem, e já lá vamos – ou os elogios não sejam de algum modo merecidos mas porque nessa visão dicotómica perde-se parte do potencial de aprendizagem e crescimento que uma explosão deste tipo pode efectivamente provocar. Quantos de nós ainda queremos ouvir falar do que quer que seja do Web Summit? Mas devíamos, porque há tanto para dizer…

A citação do princípio do texto data de 1622 de um diálogo escrito por Jakob Boehm que vale a pena recordarmos em momentos como este. Embora o tom possa parecer desproporcional ou até desadequado, facilmente se relaciona na nossa memória onde habitam comparações entre o evento e cultos religiosos. A segunda ideia a reter é que antagonismos desta dimensão não podem ser abordados com a brevidade e a dualidade da noite e do dia.

O Web Summit é um dos maiores eventos de tecnologia do mundo, com epicentro em Portugal e por isso uma oportunidade única para assistirmos in loco a uma demonstração do que de melhor e pior há neste tempo. Por muito efusivas que tenham sido as reacções, nem a previsibilidade de algumas intervenções – como a de Brad Parscale – é inteiramente desinteressante. São tudo sinais deste tempo que levantam questões à frente dos nossos olhos, para as quais devemos continuar a procurar respostas.

No palco do evento e na sua organização surgem paradoxos evidentes que traduzem parte do panorama global contemporâneo. E, neste capítulo, embora seja quase certo que não será por este certame que se resolverão quaisquer problemas do mundo, é sem dúvida interessante aproveitar a oportunidade para nos tornarmos mais conscientes e informados. Afinal de contas, olhando para a lista de oradores, para o global da sua mensagem, para a disputa entre start ups ou para a desvalorização do trabalho na organização do evento, é difícil imaginar algo mais representativo do tempo em que vivemos.

Esse hiper-realismo que provoca o choque de uns ou a ilusão de outros revelam inúmeros detalhes a cores vívidas.

Sobre os oradores

No palco e no cartaz, os paradoxos são plenamente evidentes – e talvez aqueles para que menos se chama a atenção. Depois de construir uma reputação mundial, o Web Summit viveu disso e, sobretudo, para isso. Embora da lista de quase 1200 oradores muitos fossem os destaques com potencial de ensinamento – ou aprendizagem –, a verdade é que nesta edição, ainda mais do que nas anteriores, a atenção esteve virada para os mesmos que os holofotes, com a fama de uns a ofuscar o génio de outros. E se este escalonamento mediático por nível de popularidade não pode chocar ninguém em 2017, certo é que em eventos de especialidade a tendência devia ser contra essa corrente, mas neste caso isso não acontece.

Sob o pretexto da discussão tecnológica, o Web Summit torna-se antes uma montra global do sistema vigente. A estrela do programa televisivo Dr. Oz, a celebridade do reality show Keeping Up With The Kardashians Caitlyn Jenner, a super-modelo Sara Sampaio ou Al Gore, são exemplos de uma curadoria que procurou agradar o grande público e projectar uma imagem para fora – experimentem perguntar à vossa mãe quem queria ter visto no festival – dissonante da procurada por boa parte dos participantes. Se é facto que esses foram dos oradores com maior taxa de assistência, algo que se acentua com os bilhetes a preço especial que só permitiam o acesso ao palco principal, é perceptível na experiência do Web Summit que esses não sejam os pontos de maior interesse. As suas intervenções, no geral prosaicas e desprovidas de qualquer mensagem original ou propriamente disruptiva, apresentam-se como um elemento mais sedutor do que propriamente proveitoso.

Sem focar conferências e ir ao detalhe por vezes enganador de citar trechos axiomáticas, os painéis do Web Summit a que pudemos assistir levantaram questões fundamentais, por exemplo, no que toca à relação entre a política e a tecnologia. Com um mundo cada vez mais concentrado no universo digital e a comunicação cada vez mais mediada por algoritmos, não são raras as vezes em que a competência de alguém nos parece assustadora ou ao serviço de uma moral errada. O caso mais paradigmático desta realidade é mesmo o de Alexander Nix, responsável da Cambridge Analytica, uma empresa especializada em recolha, análise e tratamento de dados para optimização de comunicação, peça essencial na campanha de Donald Trump e que, teve no Web Summit, estranhos momentos de questionamento moral a que respondeu quase sempre com um ar naif e uma resposta estranhamente simples: “Nós somos uma empresa de pesquisa e tecnologia.”  

A ideia de que a competência de uma empresa pode ir em caminhos antagónicos ao que o mercado vê como eticamente aceitável foi, de resto, um ponto central de debate. A eleição de Trump estabeleceu um novo ponto de comparação global e sobretudo, tornou evidente a forma como o dinheiro se consegue sobrepor a tudo o resto. A responsabilidade que as tecnológicas têm ou deviam ter foi um tópico transversal a uma série de conferências e debates ,onde participaram algumas figuras importantes representantes de todos os quadrantes – altos quadros da Google, comissários da União Europeia, políticos de vários países, donos de grandes empresas, etc… Se a preocupação mainstream é a inteligência artificial, no curto prazo faltam respostas sobre como alimentar a humana. O trabalho cada vez mais difícil dos media,  a comunicação política cada vez mais segmentada e polarizante, a dificuldade de moderação das plataformas digitais e a falta de regulação apropriada a par dos avanços tecnológicos são alguns dos pontos chave a reter para um debate continuado no futuro.

Outra nuance que marcou as intervenções de alguns dos palestrantes foi a confusão entre o que realmente interessa e as suas ofertas comerciais. Se é válido afirmar que já era previsível porque são eles que “pagam” o evento, não deixa de ser importante reforçar a ideia de que muito do que foi dito durante estes três dias serve uma agenda que não corresponde necessariamente à nossa agenda de desejos ou necessidades.

Para ilustrar sinteticamente este ponto basta colocar em perspectiva dois momentos sobre a mesma temática: não foi o concerto surpresa de Wyclef Jean que nos deu pistas sobre o futuro da indústria musical, mas sim a conferência que lhe seguiu com a assistência a menos de metade. À semelhança da forma como habitualmente representamos a internet e o seu lado underground, o Web Summit presta-se a esquematização semelhante, com um volume considerável e complexo completamente submerso – mas não necessariamente menos interessante. A presença do jovem que fez o seu próprio carro autónomo, George Hotz, de programadores e hackers dedicados a tecnologias de criação, de contadores de histórias icónicas como John Hegarty, são alguns dos exemplos que equilibram a balança onde se elencam as gigantes corporações com poucas ideias e os influenciadores assentes apenas em dezenas de milhares de seguidores.

Sobre as start-ups

Sobre as start-ups participantes em eventos deste género, já muito se disse e muito havia por dizer. A sua presença exige normalmente um esforço financeiro considerável e a taxa de sucesso não é garantida. Da parte da organização, esperava-se um maior cuidado na distribuição do espaço, algo que não se verificou com as start-ups a pagar para se mostrar condensadas em zonas marginais do recinto e sujeitas à aleatoriedade de quem passa, tentando a sorte em contactos directos. Os grandes stands das maiores marcas com mensagens proeminentes e grandes aparatos tornam-se centrais com as suas dinâmicas de distribuição de merchandising, deixando muito pouco tempo e espaço para a quantidade enorme de start-ups que se candidatam. A presença da maioria destas jovens empresas é apenas diária, o que torna ainda mais complicado a execução de contactos valiosos com potenciais interessados.

Destacam-se, mais uma vez, as ideias mais simples e fáceis de explicar rapidamente e não necessariamente as melhores – também as start-ups com um produto pronto a vender e para o grande público podem aproveitar o momento para conseguir mais contactos. O aglomerado de pequenas empresas em exposição – geralmente em núcleos de 20/30 –, com apenas uma pequena placa descritiva torna difícil a distinção entre elas, quer para público, quer para potenciais investidores. Da confusão e das dezenas de milhares de pessoas que passam por cada banca, nem todos os contactos são profícuos, com os curiosos a sobreporem-se aos interessados.

Sobre os voluntários

Outro tema o edição de Web Summit na esfera mediática foi, sem dúvida, o recurso da organização a trabalho não remunerado de mais de 3000 voluntários. A questão é, sem dúvida, pertinente mas mais do que um julgamento fatalista sobre o evento merece ser o princípio de um debate mais alargado sobre a questão do voluntariado e todas as questões associadas do valor do trabalho.

Um evento com esta dimensão e este movimento de dinheiro, onde até se contemplam apoios estatais, não devia fazer de uma das suas principais forças de trabalho o voluntariado não remunerado. A presença até de voluntários internacionais (tendo que pagar viagem e estadia) revela que a questão em torno do Web Summit e deste tipo de eventos é mais complexa. O aparato criado em torno da (sobre)valorização mediática do evento, o preço exorbitante que os torna inacessíveis à maioria criam um sentimento de exclusividade no evento que leva muitos a crer que esse pode ser o factor diferenciador – algo que se potencia ainda mais na geração FOMO (Fear Of Missing Out).

Para além do prejuízo óbvio para os voluntários, também a organização do evento fica a perder. A quantidade de voluntários consegue sustentar a escala megalómana do evento, mas não garante o melhor funcionamento de todas as actividades.

Em conclusão

Na passagem pelo Web Summit fica-se com a ideia de que o evento teria tudo a ganhar – menos dinheiro – se reduzisse e concentrasse a oferta, à semelhança do que acontece noutros eventos do género, como a TNW Conference, em Amesterdão. Da explosão criada pelo evento a nível local e global, sobram uma série de questões úteis à reflexão e que nos podem guiar na compreensão das tendências tecnológicas nos próximos anos.

Uma nota muito positiva vai para a aplicação móvel, que permite rapidamente encontrar contacto de todos os presentes – apesar de se poder alegar que provoca alguma quebra de privacidade – serve na perfeição o verdadeiro objectivo do evento, criando uma oportunidade de contacto entre todos os presentes.

Quanto aos eventos paralelos que nesta semana tomaram conta da cidade de Lisboa aproveitando o pretexto do Web Summit, fica a ideia de que salvo os que realmente viviam em paralelo com este todos os outros poderiam ter escolhido melhores dias para acontecer. A azáfama do festival é tal que não deixa muito margem para mais.

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