Vodafone Mexefest continua enquanto houver frustração para sarar

Agora é a fase de fazer novos planos para a época de festival de 2018. 2017 está feito.

Vodafone Mexefest

Se há festival em que as experiências de cada um divergem, esse festival é por definição o Vodafone Mexefest. A multiplicidade de salas dá a base que, preenchida pela eclética escolha musical que compõe o alinhamento, resulta num festival único com combinações infinitas. Dá para começar devagar e acabar a rasgar, jantar na descontra e ver gigs sentado ou fazer verdadeiros rallies musicais pela zona nobre da cidade de Lisboa. O espírito de sacrifício e a vontade de andar fazem variar até a extensão da experiência de um festival que só não deixa frustração porque nos ensina a valorizar as escolhas – e a apontar nomes para ouvir mais tarde. Em duas noites foram cerca de 50 os concertos que ocuparam os 14 espaços e muitos os “adorava ter visto mas não cheguei a tempo” ou “tentei mas não deu” que se vão ouvindo. É humanamente impossível ver tudo o que se passa pelo festival mas sobretudo amigavelmente desanconselhado para quem quiser aproveitar realmente os concertos em vez de colecionar apenas mais um cromo para a sua caderneta musical.

Conforme antecipámos no artigo pré-festival, o hip hop e as sonoridades mais underground atraíam-nos especialmente para este festival – não só pela qualidade dos intervenientes como pela estreia de alguns nomes em Portugal, mais concretamente em Lisboa. E foi com uma estreia que tudo começou – IAMDDB foi a primeira a subir ao palco antecipando com a sua juventude e originalidade o que se podia esperar do Mexefest. A luso-angolana residente em Londres não podia ser um prenúncio mais acertado para um festival cosmopolita onde o português não perde a possibilidade de brilhar.

Aproveitando o embalo da batida e a coincidência espacial, outro nome que merece destaque da primeira noite de Vodafone Mexefest é Oddisee. A presença do rapper já era um pedido antigo de alguns fãs e na estreia em solo nacional não desiludiu. Apesar de vir acompanhado apenas por DJ, o rapper americano passou com distinção na prova perante o público português. À toada mais consciente do seu rap ainda se somaram momentos lúdicos como a rendição em modo trap de “Want Something Done” ou um pequeno momento Kendrick Lamar. O grande concerto da noite estava consumado – nós avisámos que não se podia querer tudo no Mexefest – e a partir daí foi jogar para a bonificação.

Manel Cruz no Tivoli, Ermo na Sala Super Bock ou partir à descoberta de algo surpreendente eram as opções em debate para a maioria dos festivaleiros. Outro aguardado concerto era o de Valete como provou a fila à porta do Capitólio superior a qualquer outra (tirando a loucura de Sevdaliza no São Jorge). Pode não ter desiludido a maioria mas não surpreendeu, o que para o Valete acaba por ser uma desilusão. Recuperou alguns dos temas do passado em passagens rápidas e focadas no refrão mas não transpareceu uma preparação específica para o público do Mexefest onde já não se espera ouvir conselhos sobre aproveitar os melhores anos da adolescência. A fechar a primeira noite as opções não eram muitas e todos os caminhos iam dar ao Coliseu, os Orelha Negra repetiam a presença em festival mas desta vez com lugar de honra. Tal como Valete, não desiludiram mas não surpreenderam, repetindo um alinhamento semelhante ao de outros concertos dedicados ao novo disco, a ser apresentado ao vivo há mais de ano e meio, apesar de só este ano ter sido lançado.

 

Segundo dia

A segunda noite prometia mais azáfama e exigia um passo mais acelerado. Começou com vibrações semelhantes – hip hop – mas uma abordagem diferente. Os Conjunto Corona foram os anfitriões da noite num concerto único e divertido como são sempre – beats de génio, sentido de humor e descontração foram banda sonora das primeiras imperiais e da definição do plano. No mesmo espaço e na mesma lógica do dia anterior, seguiu-se CJ Fly. O rapper – um dos, do Colectivo Pro.Era – começou devagar mas acelerou e conseguiu agarrar o público. Há quem diga que só precisava de despir o casaco ou que poderá ter sido do saco de erva com que alguém do público o presenteou a meio do concerto, o que é certo é que CJ Fly aproveitou a sua hora em crescendo deixando uma boa imagem para a posteridade. Depois de CJ, tempo para a caminha do dia, Cigarrettes After Sex programados para o Coliseu e uma multidão a invadir a sala. Os Ciggies, como carinhosamente lhes andámos a chamar, tocaram perante uma sala completamente cheia e pontualmente histérica. Não têm o som mais efusivo, nem são a melhor coisa para ouvir depois de jantar quando o corpo pede uma sesta, mas Greg Gonzalez e companhia mostraram porque são um fenómeno tão acarinhado pelo público. A sua música é tão dócil quanto o seu manusear dos instrumentos. Fica um pouco de adrenalina acumulada mas… é para aprendermos a lidar com as emoções.

Mais uma vez, estamos a meio da noite e já com a barriga cheia de concertos – não nos contentamos com pouco, estas noites é que têm demais. À porta do São Jorge já se fala de fila para Sevdaliza mas ainda há tempo para cervejas; no capitólio volta o Hip Hop pela pessoa de Allen Halloween e, assim, se apresenta mais um dilema, mais uma bifurcação. Na volta dos Ciggies, avenida acima, os gritos estridentes de Vaiapraia ainda nos sequestraram para dentro da Garagem Epal para uma experiência difícil de esquecer – o rock extravagante de Vaiapraia e as Rainhas do Baile melhora substancialmente ao vivo, quer pela capacidade performativa do vocalista quer pela energia aparentemente inesgotável das miúdas que o acompanham. Feito o pit-stop, recuperada a adrenalina e a hidratação, inicia-se o segundo capítulo.

Halloween deu um concerto clássico. Também não inovou por aí além mas agarrou a oportunidade de tocar no Mexefest com uma notável dedicação e empenho. As faixas de sempre com mais energia que nunca e uma felicidade por pisar este palco em Lisboa que se percebia nas conversas entre faixas. A Bruxa levantou o véu sobre o Unplugueto como já tem vindo a fazer e deixou rendidos estreantes e repetentes com a sua poesia marginal. Sevdaliza, por seu turno – e para aqueles que se sacrificaram à fila – deu um dos concertos mais surpreendentes do festival. E numa nota pessoal, leva o prémio de Frustração do Ano. Valham os amigos melómanos que não a perderiam por nada e descreveram o espetáculo sucintamente como “pesado e amoroso”. (VER SCREENSHOT).

O dia voltava a terminar em português ou… com portugueses, desta vez com Moullinex e companhia a fazer as honras do Coliseu. Com uma banda renovada, Luís Clara Gomes (Moullinex) foi maestro de uma festa incrível que, com ele, GHETTHOVEN, Gui Salgueiro, Guilherme Tomé Ribeiro e Diogo Sousa abalou por completo a sala de espectáculos. Houve espaço para caprichos de produção como o da projecção em vídeo filmada em directo, para convidados como os Best Youth, Da Chick e Xinobi, para bailarinos-junior e energia para não que nada disto parecesse demasiado prosaico. Hypersex revelou-se ao vivo como a explosão que dizia ser. A fruição dos músicos durante o concerto era notória e tornava o espírito ainda mais contagiante. Para se perceber, basta pensar que a primeira grande pausa (a cheirar a final) se deveu a uma caibra do baterista que com muito esforço voltou para o derradeiro momento de apoteose. Apesar do projecto ser muitas vezes apresentado como um solo, a nota final vai parar o excelente trabalho de equipa que, convenhamos, é uma espécie de seleção nacional.

Terminou em grande o Mexefest sem ter terminado para já. Como já manda o hábito e se torna quase tradição, os dias são agora de escuta dos concertos perdidos, troca de lamentos e novos planos para a época de festival de 2018. 2017 está feito.

Fotografias: Marco Brandão

Artigo com o apoio do The Independente Collect – Eat, Drink, Sleep & Have fun.