Adorado especialmente por matemáticos e hippies, incompreendido por outros. Escher é ainda um artista pop, conhecido mais pelo seu trabalho do que pelo seu rosto. Mesmo que não conheçamos toda a sua obra, certamente que já vimos o seu legado inspirar capas de discos, séries de televisão ou campanhas publicitárias. A primeira exposição de Escher em Lisboa percorre as várias fases do artista e conta-nos a sua história.

A Arthemisia, uma empresa italiana especializada em exposições de arte, traz a Portugal a primeira grande mostra de Escher, depois de passar por Amesterdão e Madrid. O Museu da Arte Popular, um dos poucos edifícios que ficou da Exposição do Mundo Português de 1940, é o anfitrião do evento, que abre portas ao público esta sexta-feira e onde fica até 27 de Maio.

Os tons escuros e avermelhados do espaço realçam as construções e descontruções – muitas delas geniais – que Maurits Cornelis Escher nos deixou. São corredores de quadros, que nos transportam pelas diferentes fases da vida do artista e que são interrompidos por algumas surpresas, pequenas actividades que nos convidam a fazer parte da exposição. Composta por 200 obras, a mostra tem a curadoria de Mark Veldhuysen, responsável da M.C. Escher Company, e de Federico Giudiceandrea, coleccionador italiano e especialista de renome no artista.

Artista gráfico holandês, Escher ficou conhecido pelas representações de objectos impossíveis, reflexos, perspectivas, simetrias, tesselações, explorações do infinito e metamorfoses geradas pela repetição de padrões geométricos. A sua passagem por países como Espanha e Itália, onde contactou directamente com a cultura mourisca influenciou as suas obras: utilização de padrões que preenchem o espaço, presença da ilusão de óptica e geometria (inspiradas nos azulejos muçulmanos). A ciência, natureza, rigor e arquitectura também fazem parte de grande parte das construções do artista.

Nesta primeira exposição em Lisboa, podemos percorrer as diferentes fases da vida de Escher. Os primeiros trabalhos mostram-nos a influência de Samuel Jessurun de Mesquita, seu professor na escola de Artes Decorativas e Arquitectura de Haarlem, na Holanda. São essencialmente desenhos de paisagens naturais, de fauna e flora e de monumentos que Escher descobriu não só no seu país natal, mas nas consequentes visitas ao sul de Itália, durante os tempos em que viveu em Roma. Escher começou a transformar o que via à sua volta em interpretações algo abstractas e geométricas, expressando-se sobretudo através de litografia e gravura.

Esta sua estética original e insólita tornou-o famoso no campo das ciências, começando a obter a atenção de matemáticos, depois de uma exposição dos seus trabalhos em 1954, em Amesterdão. Por outro lado Escher não ganhou muitas simpatias no campo artístico, no qual o seu trabalho era frequentemente descrito como excessivamente frio, abstracto e convencional – crítica que não mudou quando Escher aprofundou a sua dedicação às estruturas puramente matemáticas.

Depois vieram as tesselações. Corresponderam à “adolescência” do percurso artístico de Escher, tendo sido o momento de mudança mais significativo nas suas obras. Surgiu depois de ter deixado Itália, país governado pela ditadura de Franco, da qual não era adepto, e de ter visitado o sul de Espanha, contactando com a arquitectura mourisca de monumentos como a Alhambra de Granada e a Mesquita de Córdoba. Estas visitas inspiraram-no a estudar metodicamente os desenhos que os artesãos do século XIV usavam para decorar os muros e os arcos dos monumentos – elementos que Escher trouxe para os seus trabalhos, criando quadros e painéis onde formas abstractas se metamorfoseiam em formas concretas, por vezes opostas entre si, porém complementares.

Podemos falar quase numa “matemática escheriana”, onde têm cabimento os paradoxos geométricos, que podemos inclusive experimentar na exposição. As composições de Escher exploram erros de perspectiva através de construções que à primeira vista parecem corretas mas, se olharmos com atenção revelam-se figuras impossíveis.

Ao longo do tempo, numa parte final da sua vida, a notoriedade trouxe a Escher encomendas de instituições e admiradores de todo o mundo (essencialmente matemáticos), que lhe pediam obras de arte específicas, que tinham toda a atenção do artista, independentemente do tamanho ou importância do que lhe era pedido. Podemos ver algumas delas na mostra, que termina com uma secção intitulada “Eschermania”. Aqui podemos explorar a influência de Escher no mundo e cultura pop.

Da capa do álbum de Pink Floyd de 1969 a um genérico dos Simpsons, passando por videojogos como Sonic ou Lemmings, videoclipes dos Daft Punk ou dos Incubus, ou por filmes como Labyrinth e Inception, Escher teve uma influência forte no mundo da arte e no do design. E também no da moda e no da publicidade – podemos, por exemplo, ver uma campanha da IKEA para promover o seu serviço de montagem em que são mostradas abstracções de produtos da marca sueca.

Ao Shifter, Frederico Giudiceandrea reforçou que Escher “olha para o espaço, para a realidade, não como um artista mas também como um matemático, filósofo e astronómico que adora a ciência” e, lembrando que a ligação do artista à cultura mediterrânica”, espera que “em Portugal, sintam Escher também como vosso artista”.

A exposição vai estar no Museu de Arte Popular de 24 de Novembro a 27 de Maio do próximo ano, todos os dias entre as 10 e as 20 horas. O preço normal do bilhete situa-se nos 11 euros, sendo que existe desconto para jovens (9 euros) e para estudantes universitários (8 euros, válido apenas à segunda-feira).

Fotos de: Mário Rui André/Shifter

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