“O dever do jornalista é confortar os aflitos e afligir os desconfortáveis”

Suzanne Franks foi falar à Web Summit e contou-nos o que se passa com o jornalismo na actualidade.

Suzanne Franks é professora de Jornalismo na Universidade de Londres – Head of the Department of Journalism at City University of London – e trabalha como jornalista na BBC.

Escreveu recentemente os livros Reporting Disasters: Famine, Aid, Politics and the Media; Women and Journalism, Having None of it: Women, Men and The Future of Work.

Interpelada acerca do estado do jornalismo no mundo actual, das disparidades entre o mundo Ocidental e Oriental e sobre as guerras invisíveis, Suzanne apresenta um ponto de vista mediático e profissional sobre as questões temáticas que lhe são colocadas. A possibilidade das pessoas não passarem de peões num tabuleiro de xadrez, onde a elite são os políticos e os jogadores os media, é um assunto fulcral para se compreender o panorama jornalístico da actualidade. Não ficam de parte abordagens como a importância dos meios de comunicação social, nem assuntos de segurança pública.

Numa entrevista anterior, à pergunta “as pessoas podem influenciar a política actualmente?”, respondeu que isso “talvez seja uma ilusão”. Acredita que somos meros peões comandados pelo Governo?

Essa é uma grande questão. Eu acho que não, há muitas ocasiões na História onde nós vimos que as pessoas podem influenciar [a política actualmente], mas não é um fenómeno comum porque a maior parte das vezes as pessoas estão a ser controladas pelos políticos ou estão a ser apáticas. Mas há tempos, em momentos chave da História, nos quais as pessoas fizeram a diferença. Se olharmos para Portugal, em 1974, esse foi um tempo em que as pessoas fizeram uma grande diferença.

Há muitas formas de dizer a verdade. O exemplo disso é manipulação das informações por parte dos média nas eleições americanas – a CNN recusou-se até ao último minuto a aceitar a vitória de Donald Trump.
Acredita que a população é manipulada pelos meios de comunicação social?

Eu acho que os media têm sido utilizados para a manipulação em muitos casos, sim, há muitas situações de propaganda onde os governos utilizaram os media para concretizarem determinado objectivo, ou onde formas de média, particularmente em Estados menos livres, não estão, de facto, a fazer o seu trabalho apropriadamente.
Mas, como sabes, logicamente, numa sociedade livre, os media estão a tentar segurar o poder. E o que eu acho, relativamente à CNN e outros meios de comunicação americanos não aceitarem que o Trump poderia ganhar, é que os meios de comunicação social, – eu nem sequer acredito que eles estivessem a ser deliberadamente enganosos – , estavam apenas a ser preguiçosos e creio que os media estavam apenas a ouvir a sua própria voz e o seu “filter bubble” – bolha de filtro pessoal. Eles falaram com outros meios de comunicação liberais, inclinados para a esquerda e concordaram que seria realmente terrível se o Trump ganhasse e que nenhuma pessoa razoável poderia votar nele e convenceram-se disso – eles não foram lá fora nem ouviram as preocupações e infelicidades de uma grande quantidade de americanos comuns, e por causa disso foi uma grande surpresa quando Trump ganhou as eleições. O mesmo aconteceu no Reino Unido, quando decorreu a votação para sair da União Europeia, a favor do Brexit. Foi uma grande surpresa para os media mas não deveria ter sido. Eles deviam ter feito o seu trabalho um bocadinho melhor. Mas eu não acho que eles tenho manipulado as coisas deliberadamente, acho que foi uma questão de serem preguiçosos.

Acha que a verdade nua e crua deve ser inata ao jornalismo ou pode ser prejudicial para a população?

Não, não. Eu acho que o jornalismo deve estar sempre à procura da verdade, mas eles deviam ouvir, como o exemplo que estivemos a discutir. Eles [os jornalistas] deviam escutar o máximo número de vozes que conseguissem e não apenas limitarem-se a ouvir as suas próprias comunidades e as suas próprias vozes, e isso é um problema contemporâneo.
Nós temos esta ideia de uma câmara eco – “echo chamber” onde todos nós apenas partilhamos coisas com os nossos amigos, só seguimos os nossos amigos, só ouvimos os nossos amigos e acabamos por não nos expor a pontos de vistas e lados que sabemos que não iríamos gostar.

Quais são as principais diferenças entre o jornalismo no Ocidente e no Oriente?

Para desenvolver um meio de comunicação eficaz e poderoso que consiga responsabilizar os políticos, é preciso muito tempo e é preciso uma tradição própria para tal. No Oriente está a demorar muitos anos para os media evoluírem, de certa maneira. No caso da Rússia, onde os media não são propriamente semelhantes aos do Ocidente, não há tradição de órgãos de comunicação social que sejam argumentativos, difíceis, incómodos – que é isso que os media têm de ser se querem fazer o trabalho deles como deve ser. E esse é um conceito muito alienígena para muitos países. Por exemplo, atualmente na China não podemos usar o Facebook, o Twitter, o servidor inglês da BBC está bloqueado, porque a ideia geral de ter uns media embaraçosos e difíceis não é algo que esse tipo ambiente político perceba. Ainda na semana anterior, no congresso chinês, o governo fez declarações sobre o jornalismo do oeste e sobre como não estão a ajudar, como estão a ser difíceis e que não deviam estar presentes nestas conferências de imprensa. Isto é algo que nós consideramos bastante desagradável e que não é o tratamento a que estamos habituados.
E acidentalmente esta tendência é algo que vemos também na Casa Branca de [Donald] Trump. O Trump tem sido rude com os media, despreza os meios de comunicação social, disse à CNN e à BBC, por exemplo, que se deveriam manter afastadas, porque ele não gosta dessas perguntas incómodas. Apelidou de “Fake News” os órgãos de comunicação social de que não gosta e isso não é a mesma coisa que Fake News. Portanto, não é só um problema no Oriente, pode ser também um problema no Ocidente.

Guerras invisíveis tornam-se visíveis muitas vezes graças aos jornalistas. Qual é o papel do jornalista na atualidade?

Um bom jornalista deve saber colocar questões difíceis. Um jornalista famoso do Reino Unido disse que “o dever do jornalismo é confortar os aflitos e afligir os confortáveis”. Existe outra frase muito boa, que eu gosto de usar que é “as notícias são o que eles não querem que tu saibas, tudo o resto são relações públicas”.

A quem e a quê deve o jornalista ser fiel?

O jornalista tem de ser fiel a si mesmo, à sua consciência, aos leitores, à sua audiência, mas, sobretudo, ao sistema democrático mais amplo e à democracia como instituição.

O jornalismo anda de mãos dadas com a democracia. Acha que o jornalismo pode ajudar a democratizar a Coreia do Norte?

Não poderíamos ter jornalismo na Coreia do Norte sem que ocorresse uma verdadeira revolução na forma como a política lá é feita. Por isso, de uma certa forma, o jornalismo torna-se uma parte crucial de uma sociedade democrática. As duas coisas têm de andar juntas. As pessoas às vezes dizem “este país é democrático porque há eleições”. Mas o facto de haver eleições não é o que torna uma sociedade democrática.

No entanto, ter uma imprensa viva e dura de enfrentar, ter órgãos de comunicação social que fazem as perguntas difíceis é mesmo uma parte vital de uma sociedade realmente democrática.

Acha que devíamos ter livre acesso aos documentos secretos dos governos dos países?

Acho que essa é uma pergunta difícil. Acho que todas estas fugas de documentos dos governos – não estou a falar dos mais recentes, dos Paradise Papers, mas, por exemplo, dos Wiki Leaks -, tornar tudo tão abertamente exposto… Eu vejo algumas dificuldades e complicações.

Obviamente, terá sempre de haver transparência, o Governo deve ser muito responsável. Mas há informação que deve ser preservada para segurança do próprio Estado e dos indivíduos.

Actualmente, os jornalistas sabem reportar desastres? Onde estão as maiores falhas nas reportagens?

Acho que há bastantes falhas na forma como os desastres têm sido reportados. Isto é algo sobre o qual tenho estudado e lido muito. Eu penso que os jornalistas têm de realmente compreender as vítimas, a experiência delas, têm de perceber o que é um desastre na verdade e transmiti-lo dessa forma. Eu acho que ser sensacionalista em situação de desastre e dar prioridade àquilo a que chamamos desastres repentinos, rápidos e inesperados em relação a desastres a longo prazo, tais como a subnutrição e a pobreza extrema, é uma falha tremenda.

Não deveríamos optar sempre pelas mesmas fotografias sensacionalistas – que eu acho que são um grande problema -, deveríamos escolher fotografias muito mais apropriadas e que transmitam uma imagem muito mais aproximada daquilo que aconteceu, para as pessoas que vivem longe de nós, que frequentemente não se parecem connosco, não falam como nós, que não têm vidas como as nossas – e deveríamos ser muito mais empáticos em relação a isso.

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