Assim foi a primeira conferência sobre blockchain e criptomoedas em Portugal

A primeira edição da Blockspot decorreu em Lisboa. O evento vai regressar à capital portuguesa em 2018, depois de passar pelo Brasil e por Singapura.

Na Blockspot, que decorreu esta segunda-feira na Casa do Comércio de Lisboa, discutiu-se blockchain e criptomoedas como nunca se tinha discutido em Portugal. E ficámos com uma certeza: daqui a 10 ou 20 anos não vamos estar a falar sobre blockchain como agora, da mesma forma que já não estamos a discutir outros avanços tecnológicos consumados hoje no nosso quotidiano.

Uma internet descentralizada

O blockchain surge recorrentemente associado à ideia de internet descentralizada, isto é, uma internet que não está nas mãos de meia dúzia de empresas e que se aproxima mais do seu conceito inicial na década de 1990, quando estava a dar os primeiros passos. “A internet era descentralizada ao início mas muito difícil de usar”, recordou Anderson Mccutcheon, co-fundador da Synereo, empresa que está agora a desenvolver uma nova forma de monetização do conteúdo online chamada WildSpark e baseada numa criptomoeda. O especialista defendeu que esta centralização da internet “não é uma coisa necessariamente má”, pois “sem ela muitas pessoas não iriam conseguir entender a internet”. “Hoje a internet é fácil de usar. Quase que precisamos de apenas de 4 ou 5 sites para satisfazer as nossas necessidades: a Amazon para compras, o Facebook para comunicação, etc”, explicou, alertando, ao mesmo tempo, para a única motivação destas gigantes tecnológicas: o lucro.

A verdade é que gigantes como a Google ou o Facebook tornaram acessível – criaram ferramentas cujo funcionamento qualquer um consegue entender, sejam para pesquisar na web ou manter o contacto com os amigos. “As pessoas não estão a usar o Facebook porque tem um código PHP muito bom, estão a usar porque o produto lhes é útil”. “O mesmo se passa com o blockchain. Não vão usar um dado serviço por ser feito em blockchain.”, acrescentou fazendo a ponte com o tema central. 

Quer seja armazenando informações que dão forma a sites e apps, quer seja guardando registos de pessoas, transações, logins, etc, a internet é feita de bases de dados, mas no dia-a-dia não nos lembramos disso porque não precisamos. O blockchain não é mais que uma nova forma de organizar esses registos – as bases de dados passam a estar distribuídas por várias máquinas e não concentradas nas mãos de uma só entidade, que de uma forma geral é uma empresa privada com fins lucrativos.

Uma tecnologia transparente e segura

Graças à transparência e segurança do blockchain, todos conseguem ver o que está registado numa base de dados, actualizada em tempo real, mas não o podem alterar. Trata-se de uma mudança de paradigma substancial num mundo gerido pelas grandes potências politico-económicas e, às vezes, nublado. Se há quem defenda que o blockchain pode ser tão influente como a web foi há 20 anos, há também quem se interrogue se há espaço para um mundo onde tudo se sabe, onde não há segredos, onde toda a actividade de governos e empresas é pública e acessível por todos.

Painel sobre o uso do blockchain por empresas.

O blockchain não é o único sinal de procura por uma internet descentralizada: existem os torrents e também a rede Tor, que assentam no mesmo conceito de partilha. Uma das aplicações mais conhecidas da tecnologia blockchain são as criptomoedas, das quais a bitcoin é provavelmente a mais conhecida. Mas se antes esta moeda era exemplo de tudo e mais alguma coisa, hoje já é comentada em eventos como o Blockspot como “uma cena do passado”. “O blockchain vai sobreviver, existem demasiadas empresas a fazer coisas em cima desta tecnologia”, comentou Justin Wu, fundador da Etherify.io. “O MySpace foi a primeira rede social, mas não foi por isso que, tendo desaparecido, desapareceram as redes sociais. Se a bitcoin desaparecer, ficam o blockchain e as outras criptomoedas”, acrescentou.

Criptomoedas e outras aplicações do blockchain

Criptomoedas à parte, o blockchain pode facilitar transações bancárias entre países diferentes, melhorar processos de gestão de risco por parte das empresas, facilitar o apoio ao cliente, tornar os sistemas de votos mais acessíveis, acelerar o processamento de mercadorias em portos… entre tantas outras aplicações. Isto porque o blockchain é óptimo para confirmar a identidade de utilizadores ou a veracidade de transacções no mundo digital, e, através dos chamados smart contrats, pode permitir fomentar a automatização e rapidez de processos.

Os smart contrats são o motor da tecnologia de blockchain – pequenos automatismos que permitem que os processos simplesmente aconteçam, sem necessidade de intermédio de uma autoridade central. As empresas conseguem, assim, reduzir custos administrativos.

Um caso paradigmático é o da Huub, uma empresa de logística, que actualmente tem de lidar com situações em que contentores com produtos chegam mais rápido a Portugal que a papelada necessária para fazer o levantamento da mercadoria. Como referiu Luís Roque, director executivo da Huub, o blockchain pode ajudar a eliminar os intermediários pois, no controlo da carga, iria existir total confiança na informação que teriam à sua frente, dado que esta não poderia ter sido alterada pelo caminho. “Estamos prontos para começar a testar e a criar alguns pilotos”, anunciou.

Luís Roque, director executivo da Huub.

Roger Benites, fundador da BitInka, trouxe à Blockspot uma solução de pagamentos sem fronteiras, a InkaPay. No fundo, este sistema permite enviar 30 euros de Portugal para o Brasil, por exemplo, em apenas meia hora. Como? Os 30 euros são convertidos em bitcoins que, à chegada ao Brasil, são convertidos em reais. O processo é menos demoroso que outras soluções, assentes em conversões directas de moedas e o serviço já está disponível em 12 países, incluindo Portugal.

A Festy é uma pulseira que permite fazer pagamentos em criptomoedas, já estando a ser testada em alguns festivais e bares no Reino Unido, apresentada por Graham de Barra, director executivo da Opera Incubator. Paulo Rodrigues, director executivo da Portugal of IntellectEU, aponta outra execução interessante, aproveitando as potencialidades do blockchain enquanto sistema de identificação: refugiados poderiam ter acesso a serviços mínimos em qualquer fronteira ou país facultando apenas um dado.

Um problema de escabilidade

“A tecnologia está para adoptação comercial”, defendeu Justin Wu, apontando a aceitação social e a escabilidade como os próximos desafios. “Ganhar escala é o Santo Graal do blockchain e atualmente nenhuma tecnologia de blockchain é escalável – estou a falar de várias transações por segundo”, acrescentou, exemplificando que algumas redes de blockchain como as que sustentam as criptomoedas aguentam apenas 3/4 transacções por segundo, enquanto que a Visa é capaz de processar 2 mil transações e o Facebook 800 gostos no mesmo intervalo de tempo. “O Ethereum é uma das tecnologias que vai permitir resolver esse problema de escabildade”, acrescentou, referindo-se a um novo avanço que permitirá um milhão de transacções por segundo.

“Chamar a esta web de 3.0 é uma decisão terrível”, classificou Gonçalo Sá, um dos fundadores da ConsenSys, uma empresa que trabalha com ethereum e que está focada em desenvolver a segurança deste ecossistema. “Quando é actualizado o número principal numa versão, significa que está a ser feita uma grande actualização. Os smart contrats não são um substituto da web 2.0. Vão coexistir com os protocolos desta web normal.”

Paulo Trezentos, fundador da Aptoide.

Qualquer pessoa pode ser um investidor

Outro tema que passou pela Blockspot foi o dos ICOs, ou seja, Initial Coin Offering, um mecanismo de financiamento no qual os investidores apoiam um projecto em troca de determinado número de criptomoedas; neste caso, de AppCoins. Os ICOs “democratizam os investimentos”, explicou Nuno Correia, director executivo da UTRUST. As pessoas passam ter poder de investir nas ideias de que gostam, à volta do mundo.”

Um ICO levanta desafios para as empresas. São sempre um risco e é preciso avançar de olho bem aberto. Um aviso que também serve para quem vai investir, pois podem existir esquemas mal intencionados. Este tipo de financiamento só serve projectos já credíveis, que tenham uma ampla base de utilizadores e que representem um benefício directo para a comunidade. Por isso, os ICOs podem funcionar para uns mas não para outros. Por outro lado, marketing e PR são importantes. “Hoje há muito mais barulho porque há mais ICOs, por isso para comunicar a nossa mensagem temos de superar esse ruído”, explicou Paulo Trezentos, fundador da Aptoide, empresa portuguesa que vai avançar com um ICO de 28 milhões de dólares. “Quem investe em ICOs está a investir numa determinada ideia.”

A Blockspot recebeu cerca de 170 pessoas, número abaixo da capacidade inicialmente prevista – 250 pessoas. A conferência terá edições noutros países em 2018: em Maio realiza-se em São Paulo, no Brasil, onde são esperados 600 participantes. Meses mais tarde vai para Singapura, onde espera ter mil participantes. Em Novembro do próximo ano, regressará a Lisboa.

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