Al Gore, o Presidente das alterações climáticas

Para o político norte-americano que encerrou o Web Summit, é evidente que as alterações climáticas são um problema e um negócio.

Consigo perceber porque é que os norte-americanos gostam de Al Gore e precisam de um Al Gore. Os Estados Unidos precisam de porta-vozes, de quem os guie por cada uma das questões fracturantes. Mark Zuckerberg apela à conectividade global e ao poder das comunidades, Elon Musk torce por meios de transporte mais verdes, Obama simbolizava a paz e tranquilidade global, Al Gore é a pessoa que procuram para defender o seu planeta.

São pessoas que os norte-americanos parecem gostar de idolatrar, atrás dos quais se formam filas de seguidores aguerridos das suas mensagens. São influenciadores de opiniões e moldadores de quadros de pensamento. São indivíduos que recebem um carinho especial sempre que falam. Têm poder não só pela palavra como pelo dinheiro que têm – e estes dois factores estão frequentemente correlacionados.

O antigo vice-presidente dos Estados Unidos é agora uma espécie de Presidente das alterações climáticas, e apresentou-se no Web Summit, em Lisboa, tendo sido energeticamente aplaudido de pé pelas milhares de pessoas que encheram o Altice Arena e às muitas outras que não conseguiram entrar no pavilhão praticamente esgotado.

“Precisamos de separar os Estados Unidos do Presidente Donald J Trump. Os Estados Unidos vão cumprir a sua promessa”, disse Al Gore, referindo-se ao recuo por parte de Trump quanto ao histórico Acordo de Paris, assinado em 2015. A Síria e a Nicarágua, os únicos países que ficaram de fora do acordo de 2015, já o assinaram/vão assinar, deixando os Estados Unidos completamente isolado – são o único país no mundo que não se compromete com a redução das emissões de CO2. Contudo, segundo lembrou Al Gore, pelas regras do acordo, “os Estados Unidos só poderão sair no dia a seguir à eleição presidencial de 2020” e manifestou-se confiante de que a vontade política maioritária no seu país não coincide com a do Presidente.

O discurso de Al Gore foi um discurso de político, carregado dos clichés do costume e de frases que urgem-nos a agir, no mesmo mesmo tom utilizado no filme An Inconvenient Truth e na sequela An Inconvenient Sequel: Truth to Power. Mas o discurso de Al Gore é também um discurso de investidor. É que o político é também dono do Generation Investment Management, um fundo de investimento destinado a projectos que actuem na área da energia e do clima.

Al Gore bem referiu algumas iniciativas, em várias partes do mundo, que está a apoiar, salientando que é possível resolver a crise climática e que as ferramentas necessárias para a concretizar estão ao alcance de todos. “Vocês podem fazer parte do grupo de empresas que fazem bom dinheiro e também mudam o mundo”, referiu, numa referência à estrutura capitalista em que a economia norte-americana assenta e que Al Gore, como Zuckerberg, Musk ou Obama, aceitam.

“Estou a tentar recrutar-vos”, disse quase no final. “É claro que temos que mudar, o que é que pensam? Não podemos condenar as gerações que aí vêm à degradação e ao desespero. A vontade de mudar é, por si, uma energia renovável.” O panorama, apontou, está à vista nas chuvas, furacões, incêndios florestais ou secas devastadoras, “como acontece em Portugal ou Espanha”, e nas dezenas de milhões que estão à beira da fome ou que tiveram que se deslocar por causa de fenómenos climáticos.

Recordando lutas históricas como as travadas pelo fim da escravatura, pelo direito de voto das mulheres ou dos direitos dos homossexuais, afirmou que no fim, tudo se resumiu a uma escolha entre “o que está certo e o que está errado”.