Cientistas afirmam: o abominável homem das neves era afinal um urso

A queda de um mito.

(pixabay.com)

É o confronto entre uma lenda ancestral e a genética moderna. Um grupo de cientistas da Universidade de Buffalo, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, publicou um estudo esta terça-feira na revista científica Proceedings of the Royal Society B. – que infelizmente não é de acesso livre – , em que analisou ADN de nove amostras recolhidas de “Yetis”. Em linhas gerais, a criatura que a história e o cinema nos mostrou ser extraordinariamente grande e peluda, meio animal meio humana, que dá berros monstruosos e quer matar qualquer pessoa que se aproxime da gruta onde vive, sempre numa floresta assustadora, é afinal um urso. Ou melhor três ursos diferentes, para sermos precisos: o urso preto asiático, o urso castanho tibetano e o urso castanho do Himalaia, duas subespécies do urso pardo.

Fotografia de: Abdullah Khan, Snow Leopard Foundation

Cada uma destas subespécies habita diferentes lugares no mundo, e todas elas foram provavelmente confundidos num momento ou noutro pelo mítico Abominável Homem das Neves: “As nossas conclusões sugerem fortemente que os fundamentos biológicos dos chamados Yeti podem ser encontrados em ursos locais”, disse a cientista que coordenou o estudo Charlotte Lindqvist, professora associada da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Buffalo.

Este estudo não é o primeiro a reduzir o mito a factos, mas põe a descoberto uma riqueza sem precedentes de provas genéticas obtidas de amostras de ossos, dentes, pele, cabelos e fecais anteriormente atribuídas às criaturas crípticas.

Os artefactos, de colecções particulares e museus ao redor do mundo, revelaram-se restos mortais de 23 ursos diferentes. Um deles era um dente de uma criatura embalsamada e em exposição no Reinhold Messner Mountain Museum, em Itália – que acabou por se provar ser aliás de um cão doméstico. Outro, um pedaço de pele de uma suposta mão Yeti, que se tornou uma relíquia religiosa num mosteiro.

Fotografia de: ICON FILMS LTD

Lindqvist e a sua equipa reconstruíram os genomas mitocondriais de cada espécie, levando a descobertas importantes sobre os carnívoros sitiados da região e sua história evolutiva. “Os ursos pardo que andam pelas altas altitudes do cenário tibetano e os ursos pardos das montanhas ocidentais do Himalaia parecem pertencer a duas populações separadas”, disse à AFP.
“A divisão ocorreu há cerca de 650.000 anos, durante um período de glaciação”. Diz o estudo que as duas subespécies permaneceram isoladas uma da outra desde então, apesar da sua proximidade relativa.

Hoje em dia, o urso castanho do Himalaia – ursus arctos isabellinus – está registado como uma espécie “criticamente ameaçada” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. O seu pelo castanho avermelhado é mais claro que o do urso castanho tibetano que tem, por uma vez, uma espécie de gola branca ao redor do pescoço.

Ao longo do século XX, a lenda Yeti alimentou o imaginário e o fascínio do Ocidente, principalmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Relatos em livros e filmes descrevem pegadas semelhantes à de um homem descalço nos trilhos do Monte Evareste em 1921 ou o avistamento de uma figura humana num glaciar em 1925.

Nos anos 50, a imaginação alimentada por descrições antigas levou dois grupos em duas expedições por locais onde se acreditava terem sido vistas estas criaturas. Conta-se que recolheram indícios de pelos e pegadas e há relatos de avistamentos que continuaram ao longo da segunda metade do século.

“As pessoas adoram um mistério”, afirmou Lindqvist. “O trabalho científico pode ajudar a explorar mitos como o Yeti. Mesmo que não haja prova da existência de cryptids,” – criaturas cuja existência continua a ser contestada – “é impossível descartar completamente que elas existam”, acrescentou.