Os maiores segredos da equipa Shifter

Conhece os nossos guilty pleasures – as músicas que amamos dançar, mas que só ouvimos em privado.

Todos temos os nossos momentos a sós com a música. Os corações mais sensíveis e as cabeças mais despassaradas, ao volante aos berros, sussurrada em passeios ou debaixo do chuveiro acaba por ser frequente assumirmos a pele de estrelas pop sem nada a perder e soltarmos a diva que há em nós longe dos olhos dos outros. Quem nunca tentou passos de uma coreografia da Beyoncé que atire a primeira pedra.

Embora a pressão social acabe por atirar alguns dos hits mais alegres e açucarados para os confins das playlists privadas, no Shifter queremos celebrar o seu potencial enquanto banda sonora de conquistas ou toada para um dia melhor. Porque não há nada de mal em recordar com carinho os tempos do acne, nem as coreografias dos excesso, nem o que viemos a descobrir ser inglês cantado pelas Spice Girls. Pelo contrário, estas pequenas pérolas, que nos habituámos a rotular como prazeres pecaminosos, acabam por ser autênticas injecções de motivação e bem estar ou um bilhete de acesso a saudosas memórias do passado.

Juntámos a equipa de redação e lançámos o desafio para que partilhassem sem pudores as suas paixões proibidas. Sem inibição celebramos com orgulho e para aliviar a pressão, partilhamos músicas para ouvir em qualquer momento, que nos arrebatam a emoção. (lindo, hein?)

Demis Roussos (Cláudio Soares)

Guardo com muito carinho na prateleira de cima um 7’’ de Demis Roussos que me foi oferecido por um grande amigo, em jeito de recuerdo das suas férias. Ali, mesmo ao lado do Kid A dos Radiohead, do Rain Dogs do Tom Waits e do Jane Doe dos Converge. Sim, o cantor popular grego entra sem medos na prateleira de elite lá de casa. Por ser um presente e por ser um óptimo relief, preferencialmente para cozinhar ou banhar. Não acredito em guilty pleasures mas sim em prazeres que podem parecer ter uma origem duvidosa. Mas não são esses os melhores? Demis foi um dos grandes. Afrodite Child eram gigantes no rock progressivo e colaborou com Vangelis, outro gigante desse país de estátuas pornográficas. A carreira a solo com “Forever and Ever”, “Goodbye My Love Goodbye” ou “My Friend the Wind” podem para muitos de vocês escorregar no azeite. Para mim são sinónimos de boa disposição. E quando acontece, é pôr o volume no máximo.

High School Musical – “Breaking Free” (Daniel Silva)

Da mesma forma que Troy gostava de jogar basquetebol e de cantar e dançar, eu gosto de de ler um livro na companhia dos clássicos de Jazz e de limpar a casa ao som da banda sonora de High School Musical. Sim, confesso-me fã, não de uma só faixa mas de todo o alinhamento musical do filme da Disney. Mas se tiver de destacar uma, obviamente será o climático “Breaking Free”, protagonizado por Troy e Gabriella durante as audições para o festival de primavera. Nesta cena, o casal faz jus à letra e liberta-se do poder, revelando ao mundo a sua paixão pela música. Eu cá, inspirado pela coragem deles, admito também que este é o meu guilty pleasure musical.

Excesso – “Eu Sou Aquele” (Diogo Coito Rodrigues)

Um hit nacional e uma banda que marcou o final dos anos 90. É impossível não ouvir a música e recordar com nostalgia os tempos de escola no 1º ciclo. Metíamos a cassete no rádio e fazíamos a nossa própria coreografia durante o recreio, imaginando-nos os maiores galãs do mundo. Agora, já não danço tão fervorosamente a música, mas ainda sei a letra toda! E hoje, quando vemos o vídeoclipe e a performance deles no Big Show Sic, a música ganha proporções ainda mais épicas.

Beyoncé ft Sean Paul – “Baby Boy” (Filipe Santiago Lopes)

Uma espécie de Dancehall vindo de dois astros do universo Pop e R&B: Beyoncé e Sean Paul na “Baby Boy”. O ritmo da música Dance junta-se ao Reggae com uma pitada de sons árabes. Convém dizer que o Jay-Z também esteve envolvido na produção desta música. Na altura, em 2003, o single conseguiu ultrapassar o recorde do single anterior (“Crazy In Love”) e permanecer durante nove semanas consecutivas no topo da tabela americana da Billboard. Sem dúvida uma música que “stays on our minds” e em que “we think all the time”.

MC João – “Baile de Favela (KondZilla)” (Guilherme Braz)

O meu guilty pleasure musical mais guilty: música chunga brasileira que passa em qualquer discoteca rançosa da vila mais degradante da Beira Interior. É presença obrigatória nas festinhas da aldeia e nos iPods de muita gente de gosto duvidoso, daí ser um banger gigante e um mood-setter quando rebenta nas ocasiões mais improváveis – por exemplo, seguida de uma música de LCD Soundsystem. Basicamente são sons tão degradantes e num registo tão diferente do que ouvimos normalmente que quase que se lhe dá uma oportunidade quando passa com um subwoofer altíssimo. Está ao nível de Alt-J passarem a “Rack City” do Tyga ao entrarem em palco.

O-Zone – “Dragostea Din Tei” (João Ribeiro)

Ainda a internet não nos tinha iluminado totalmente o caminho da globalização caótica e já os romenos dos O-Zone mostravam a receita para o viral perfeito. Corria o ano de 2004 e mesmo sem likes, retweets ou milhões de views, a banda mistério de que desconhecíamos até a proveniência virou sensação. Em Portugal deu para tudo e para sempre que era preciso um pretexto para dançar em saltos descoordenados, no Reino Unido, chegou mesmo ao 3º lugar das principais tabelas. Passaram-se 13 anos, muitas aulas de línguas, algumas saídas internacionais, continuamos sem perceber o que os O-Zone queriam dizer com a sua música, mas continuamos a saber o som das palavras proferidas e a ter 12 anos a partir dos primeiros acordes. Nos carrinhos de choque, nas actuações no Natal em família, “Dragostea Din Tei” só encontrou paralelo muitos anos mais tarde em fenómenos como o Psy. Não é que a oiça frequentemente ou com especial prazer, mas a verdade é que “Dragostea Din Tei” institucionalizou-se na minha memória numa altura de transição. Sem querer, poderá ter sido o toquezinho de excentricidade, confusão e non-sense que um jovem vindo da pacata vila de Cuba precisava para entrar no ritmo de uma cidade mais agitada e menos perceptível. Claro que aí surge o Hip Hop e a cultura de cada local mas nada tão simplesmente eufórico como os Ozone para abalar convicções e abrir horizontes. Afinal não é preciso perceber a letra, saber quem a canta nem fazer aquelas caras de emoção nas notas mais puxadas. Música é alegria e, nesse aspecto, acho que a “Dragostea Din Tei” terão sido a minha primeira bebedeira.

Blink 182 – “All The Small Things” (Judite Rodrigues)

“All The Small Things” é ainda hoje uma música de guilty pleasure song porque marcou a infância e adolescência. Juntamente com as minhas irmãs, fazíamos karaoke com direito a dança improvisada, quase tão boa como a que pode ser vista no videoclipe. Para além disso, fez parte do meu portfólio de inglês, entregue no final do ano lectivo de 2004/2005, no qual orgulhosamente coloquei um print do vídeo oficial como prova que seria uma fã incondicional dos Blink 182.

Juvencio Luyiz – “Amor de Hoje” (Marco Brandão)

Desde já quero deixar um pedido de desculpas formal a todos os feministas que possam estar a ler isto. É verdade, um dos meus maiores guilty pleasures é uma Kizomba… machista. Recordo-me bem da primeira vez que ouvi o tema “Amor de Hoje”, parece que foi ontem… Estava num baptizado de uns vizinhos angolanos, convidado a produzir um curto vídeo da festa ao qual acedi com enorme boa vontade, com o intuito de lhes proporcionar uma bonita recordação. Contudo, estava longe de saber que o momento alto da boda aka after baptismo seria recordado por mim ainda hoje. O momento em que o DJ solta esta malha e, de repente, só me apetece dançar agarrado a mim próprio perdurará para sempre na minha memória. Seguiram-se dias a violar o botão replay, chegando ao ponto de usar a música na edição do próprio vídeo da festa. Enquanto ouvia a minha mãe sorrir, dizendo constantemente entre dentes: “ah agora já gostas de Kizomba”. A partir daí perdi o respect dos meus cotas, o respect da street e dos feministas. Espero que compreendam o incompreensível, caso não compreenderem que se lixe, desde que não me tirem esta música, tou na boa.

Soundtrack de Sonic The Hedgehog  (Pedro Valente Lima)

Um guilty pleasure musical relacionado com soundtracks de videojogos nem guilty pleasure é. Pode classificar-se como um dos mais altos estádios de “nerdismo”, talvez um 10/10 de ser alvo de “bullying” pelos putos fixes da escola. Mas sempre gostei. Não do bullying claramente hipotético claro, mas de música de videojogos. Apesar dos mood swings nos jogos de Sonic The Hedgehog, a qualidade da melodia que complementa as suas aventuras foi sempre uma constante elevadíssima. Desde os mais clássicos, como o cintilar 16 bit da “Star Light Zone” (Sonic the Hedgehog, 1991) ao típico Rock do início dos anos 2000 do “City Escape” (Sonic Adventure 2, 2001) ou às vibes de Jazz de “Shamar Night” (Sonic Unleashed, 2008), sinto que a banda sonora me marcou tanto como a diversão que tive (e tenho) quando jogo todos estes títulos. A evolução da música, a sua enorme diversidade conforme o ambiente, e dinâmica fazem-me criar uma “playlist” bastante geek. Sempre que coloco os auscultadores no metro ou num autocarro com estas maravilhas da história do “gaming”, há uma amálgama de sensações paradoxais de relaxamento e de velocidade (não estivéssemos a falar de Sonic, né?), mas também, e sempre, de nostalgia.

Justin Bieber – “Sorry” (Mário Rui André)

Foi uma epifania que não sei bem explicar. Ou melhor, sei. Justin Bieber juntou todos os ingredientes necessários para uma música passar a estar em todo o lado: quando ligamos o rádio, quando entramos numa loja, quando passa um carro por nós em modo coluna, quando vamos a uma daquelas festas de bar aberto ou quando vamos a Paredes de Coura. Sim, a “Sorry” passou no DJ set dos Vaccines em 2016. Entrou no ouvido e, como qualquer hit do género, dificilmente saiu. É que depois, quando pensamos que a moda já lá vai, eis que aparecem os remixes e as paródias. E aquele estigma do Bieber de voz de criança, que foi motivo de troça em toda a minha adolescência, parece ter desaparecido.

Shakira – “Underneath Your Clothes” (Rita Ferreira)

Desde o início dos anos 2000 que a Shakira não tem parado de lançar músicas. No entanto, há uma que nunca deixou de ser das minhas preferidas – a “Underneath Your Clothes”. Há 10 anos tinha-a num CD e ouvia-a no discman, e agora tem lugar irrevogável na minha playlist do Spotify. É impossível não cantar, não dançar e não voltar ao tempo em que se usavam calças de cintura descaída e camisolas curtas – é a definição daquele sentimento de nostalgia que é inexplicavelmente bom. Que atire a primeira pedra quem lhe consegue resistir. Aos que não atirarem, não se preocupem, fica em segredo.

Jennifer Lopez – “Get Right” (Ricardo Santos)

Janeiro de 2005: o Sporting tinha sido campeão há três anos, Trump apresentava a 2ª temporada de The Apprentice e Portugal estava em campanha eleitoral, preparando-se para dar maioria absoluta a José Sócrates. Eram tempos mais simples. Ao mesmo tempo, Jennifer Lopez – que não lançava nada há dois anos – anunciava novo álbum com o single “Get Right”: um beat de Rich Harrison (“Crazy in Love”) que loopa ad eternum o saxofone da banda de James Brown em “Soul Power 74”, um refrão de métrica labiríntica feito à medida das hormonas adolescentes, J-Lo versando sobre copos, dança e amores e estava feito um hipnótico dance hit cheio de hedonismo e inocência Pop que se veio a revelar uma das músicas mais memoráveis da Jenny. 12 anos depois ainda roda, nos nossos phones como nos nossos corações, aquele “I’m about to fill your cup, we can get right, Before the night is up, we can get ri-i-i-i-iii-iight, toni-i-i-iii-iight (…)”.

Justin Timberlake – “Señorita” (Rita Pinto)

Pensar em guilty pleasures musicais é pensar na minha irmã de 17 anos a entrar no meu carro e a mudar o rádio para a Mega Hits – sim, porque quem tem irmãos mais novos sabe como é reconfortante podermos refugiar-nos na inexperiência de vida para justificar a participação em actividades mais vergonhosas. Mas é sem vergonha que admito que pensei em mais de 20 canções antes de chegar à escolhida. “Señorita” foi a vencedora, principalmente porque me lembro perfeitamente da primeira vez que vi o videoclipe e de me ter sentido bem mais sexy do que era suposto em 2002. Lembro-me também de anos antes o meu pai me ter oferecido um disco dos N’Sync no Natal e de o ter achado mau demais para ser verdade, against all odds nunca sequer fui grande fã do Justin, mas “Señorita” tem um efeito quase metafísico em mim. Aquelas maracas são o tiro de partida para a minha imitação milimétrica da introdução do Pharrell, dos high pitch do Timberlake, e da letra toda, que sei de cor, com variações vocais incluídas. Ao mesmo tempo danço-a com todo o empenho que cabe em 1,60 m de electricidade latina. Destaque para a presença dos N*E*R*D na banda e para o minuto 3:17, quando é pedida a colaboração dos homens e mulheres na casa – incrível. Óbvio que tive que ir ouvi-la para me inspirar a escrever o texto e já me levantei da cadeira. Música que me faz não querer saber se estou a ser ridícula. Afinal, não era esse o desafio?

Natalie Imbruglia –”Torn” (Rui Sousa)

Não é fácil perceber “Torn”. A letra podia ser o significado de desmotivação no dicionário, enquanto que a melodia obriga necessariamente a vidros fechados, rádio no máximo e voz a explodir, quanto baste. Mas quando se fala em “Torn”, não se pode ficar pela canção e já está. É necessário escavar mais fundo e perceber a maravilha que é mimar a música, não do ponto de vista do carinho, mas sim da representação teatral. O comediante inglês David Armand foi por aí e ficará gravado na minha memória para sempre a representação dos versos “There’s just so many things” ou “Illusion never changed/ Into something real”.

Spice Girls – “Wannabe” (Susana Martinho)

Naquele momento do dia em tenho aquele pensamento “I want to break free” sei o que fazer. Desisto das músicas da rádio e coloco os phones nos ouvidos – “Wannabe”, das Spice Girls. Tudo à minha volta escurece e de repente estou num palco de Los Angeles num vestido reluzente a fazer aquelas coreografias todas malucas que só são possíveis na nossa cabeça. Não há cá divisão de tarefas, eu canto, danço, faço as segundas vozes e por vezes até a parte instrumental. Esta é aquela música para aquele momento do dia. Esqueço o mundo e sonho afincadamente durante 3 minutinhos de puro ritmo. O resultado? Se estava triste, fico feliz. Se estava sonolenta, acreditem, acordo para vida, como se tivesse dormido aquelas 8 horas de sono divinais seguidas de um café expresso cremoso. É uma daquelas pausas do dia, ou melhor, das muitas pausas do dia, que nos abraçam como uma golfada de ar fresco e nos deixam preparados para tudo. E sejamos francos, quem é que não gostava de ter uns moves como os das Spice Girls? Já para não falar da voz. Mas ei, não digam a ninguém porque fico envergonhada.

Drake – “Hotline Bling” (Vasco Vilhena)

Por muito que discorde com a ideia de sentir culpa por estar a ouvir alguma coisa de que gosto, tenho de reconhecer que é esquisito “Hotline Bling” perfurar pelo meio de qualquer playlist minha. Mas explico porque é que aprecio tanto esta canção. Para além de falar sobre um lugar-comum que é a passagem por um desamor e pensar mil e uma vil coisas sobre o/a ex, a sua lírica tem um quê de desespero, o que torna a situação cómica e ridiculariza esta perspectiva que facilmente adoptamos como dumpee. A meu ver, torna-se uma lição de self-growth (ou talvez, esteja eu a pensar demasiado sobre o assunto), a meu ouvir, esta música é um banger de todas as formas. As congas são contagiantes na pista de dança e a sample que arranca por volta dos 13 segundos é pura sedução, seja para que pista nos guie.