Risk: um documentário obrigatório para compreenderes melhor o nosso mundo

Depois de Snowden, Poitras retrata Assange.

Em 2013, Laura Poitras acompanhou a passagem de informações secretas sobre a NSA entre Edward Snowden, até então um cidadão comum, e o jornalista do The Guardian Glenn Greenwald. Apresentou o resultado em 2014, na forma de filme: Citizenfour ganhou o Óscar de Melhor Documentário. Em Risk, lançado em Maio de 2017 e agora estreado em Portugal no festival DocLisboa, a “realizadora anti-EUA” (palavras do FBI) vira-se para outro lado da mesma história: Julian Assange, fundador da Wikileaks.

Tanto Edward Snowden como Julian Assange marcaram a história recente dos Estados Unidos (e, de certa forma, do mundo) por trazerem a público casos inquietantes de desrespeito do Governo norte-americano pelos direitos humanos. Em 2010, Assange publicava na sua Wikileaks documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão, que denunciavam a tortura e morte de milhares de civis pelas forças norte-americanas em incidentes não relatados publicamente. Em 2013, Snowden apresentou o esquema de espionagem e vigilância digital internacional montado pela NSA, a Agência de Segurança Nacional norte-americana.

Mas, se Snowden pode ser visto por alguns como herói (apesar de o próprio rejeitar por completo esse estatuto), Assange viu-se nos anos recentes envolto em polémicas, que têm influenciado tanto a sua percepção pública como a da Wikileaks. Durante a mais recente campanha eleitoral nos Estados Unidos, a Wikileaks divulgou gravações de voz de dirigentes democratas que denunciaram uma campanha interna no partido para favorecer Hillary Clinton em detrimento de Bernie Sanders. Comprometido com a publicação livre de todo o tipo de informação confidencial cuja veracidade consiga confirmar, Assange não revela quem foi a sua fonte mas existem suspeitas de que a Wikileaks tenha sido usada pelas autoridades russas com o intuito de influenciar as presidenciais norte-americanas, levando à eleição de Trump. Esta era pelo menos a convicção do director do FBI, James Comey, despedido por Trump depois de o ter afirmado numa audiência.

Nesta altura, Assange carregava já acusações de assédio sexual por duas mulheres suecas, algo que sempre negou e que afirma ser uma forma de os Estados Unidos forçarem a sua extradição para o país. O caso foi, entretanto, arquivado pelas autoridades suecas mas serviu para a opinião pública quanto a Assange e à Wikileaks. Em Risk, ouvimos mesmo que os escândalos tinham quebrado a imagem pública de Assange e que isso estaria a afectar a Wikileaks. O documentário acompanha o fundador desta publicação ao longo dos últimos seis anos e traça um perfil complexo de Assange porque esta é também uma personagem complexa: fala dos seus objectivos pessoais, das metas da Wikileaks, do seu grande ego e do seu pragmatismo na resolução dos problemas. Vemos Assange como nunca o vimos e como provavelmente nunca o vamos ver.

Laura Poitras tem oportunidade de confessar, naquilo a que chama de notas de produção, a sua surpresa com aquilo que Assange deixou filmar“Porque é que ele confia em mim? Não acho que ele gosta de mim”, diz. O filme demorou seis anos a ser feito e foi actualizado pelo meio para incluir as recentes actualizações quanto à situação de Assange, exilado há quatro anos na embaixada do Equador em Londres, e à situação da própria realizadora. É que Poitras não beneficia de uma posição confortável no documentário mas é totalmente transparente com o espectador. O seu envolvimento amoroso com Jacob Appelbaum, especialista em segurança informática, porta-voz da Wikileaks e membro do núcleo do projecto Tor, tornou-se controverso depois de este ter sido acusado de má conduta sexual.

Depois de dar algum destaque a Appelbaum no início do filme, Poitras viu-se obrigada a editá-lo depois de uma primeira exibição em Cannes no ano passado, uma vez que as alegações só surgiram depois. Poitras menciona o seu envolvimento com Appelbaum nas suas notas de produção. Mas o retrato que faz de Appelbaum é também cuidado. Vemo-lo a fazer uma analogia com sexo seguro e preservativos numa formação sobre segurança numa sala cheia de mulheres activistas com hijab. É notório o desconforto em algumas delas – a câmara centra-nos bem isso. Vemos também ser comentado o desconforto que a situação de Appelbaum causou na comunidade do Tor e uma programadora a dizer que não se sentia confortável a contribuir para este projecto, que pretende facultar uma navegação anónima na web, por causa dele.

Não é só Appelbaum que vemos no filme a ter este tipo de comportamentos. Também alguns comentários de Assange podem ter segundas interpretações. Num deles diz que o facto de estar a ser acusado por duas mulheres de assédio sexual e não por uma não lhe permite acusar essa pessoa de estar a agir assim por ser uma má pessoa. Uma constatação que pode também ser lida como sinal de perícia por parte das autoridades norte-americanas para apanhar Assange.

Ainda assim, Laura Poitras não se compromete com uma posição ao longo do filme. Em vez disso, procura guiar o espectador por uma série de acontecimentos que ela observa e que nos dá a observar. Poitras é exímia neste tipo de documentário de observação – já o tinha mostrado em Citizenfour –, em que dá ao espectador as ferramentas de que necessita para tirar as suas ilações. Percebe-se que a relação entre Poitras e Assange não foi constante ao longo dos seis anos – a realizadora parece concordar com o objectivo da Wikileaks mas nota-se desconforto com algumas características da personalidade de Assange, com o escândalo sexual e com o seu envolvimento no leak dos e-mails do partido democrata.

Poitras fala também da alegada perseguição pelas autoridades norte-americanas desde que começou a fazer o filme, gravado em várias localizações. Numa das suas notas de produção diz que, numa das vezes em que esteve fora, a sua casa foi invadida; noutra refere ter sido retida no aeroporto. Associa estes incidentes a Assange, porque ela seria uma forma de chegar até ele. Mas também mostra uma conversa interna do FBI: “a realizadora documental anti-EUA”. Este desconforto e este medo ajudam a justificar o nome do filme: Poitras arriscou-se em Risk. Como diz Assange na entrevista que é intercalada com a acção: quando lutamos pelo que acreditamos, existe um risco e existe uma oportunidade; às vezes o risco é maior, mas a oportunidade também pode ser maior.

No fundo, Risk é a história de Assange e da Wikileaks, que na última década, com a ajuda de advogados, repórteres e voluntários, publicou documentos confidenciais, desafiando os cânones jornalísticos, desmascarando Governos e contribuindo para a nossa melhor compreensão do mundo em redor. Um movimento pela transparência das instituições e pela democracia. Inicialmente com o título “Asylum”, Risk começa com Julian Assange a tentar entrar em contacto com Hillary Clinton em 2010 para alertar de um leak massivo de documentos relacionados com o Departamento de Estado, que ela geria na altura, no site da Wikileaks, resultado de uma palavra-passe roubada. O documentário acompanha Assange quando em 2010 foi acusado de abuso sexual por duas mulheres, quando, em 2012, o Supremo Tribunal britânico diz que ele deverá ser extraditado para a Suécia, e quando a Embaixada do Equador na capital britânica o acolhe em exílio – sempre rodeado de polícia e de alguns apoiantes.

Risk estreou em Maio de 2017, depois de já ter sido mostrado em Cannes do ano anterior. Mas Poitras, não só teve de acrescentar sobre Appelbaum, como actualizar com os últimos detalhes sobre Assange, as eleições norte-americanas e também o perdão de Chelsea Manning nos últimos dias de Obama na presidência.

Risk é um filme denso que pode pedir um segundo visionamento. Há muito para assimilar, mesmo por quem tenha acompanhado os casos de Snowden, Assange e Manning. Em resumo, Risk dá-nos uma perspectiva integrada de todos estes acontecimentos, fundamentais para compreender melhor o mundo em que vivemos, e que às vezes podem ficar desconexos nas notícias que vamos lendo. O filme é distribuído pela Showtime e foi produzido pela Field Of Vision, produtora do grupo First Look Media ao qual pertence Laura Poitras (da First Look Media faz parte também o The Intercept, fundado por Gleen Greenwald depois de ter deixado o The Guardian. Sam Esmail, criador de Mr. Robot, é o produtor executivo.

Risk é uma história sem fim, que resume seis anos de Wikileaks e aguarda os próximos. Uma história que promete continuar.

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