As redes sociais tornaram-se uma ameaça directa à democracia

A perspectiva do criador do eBay, Pierre Omidyar.

Pierre Omidyar – criador do eBay e da First Look Media, grupo de media que se afirma como uma alternativa independente e que integra publicações como o The Intercept – publicou um artigo em que elenca 6 ideias sobre como as redes sociais se tornaram uma ameaça directa à democracia. Uma pequena reflexão sobre a internet e as suas consequências na sociedade.

“Por todas as vezes em que essa tecnologia [a internet] nos aproximou, a monetização e a manipulação de informação rapidamente nos afastam. De interferências estrangeiras nas nossas eleições a campanhas direccionadas para nós confundir ou nos dividir em relação a questões sociais importantes. Os grupos que procuram uma maneira efectiva de se infiltrar e de influenciar a nossa democracia encontraram generosos meios para tal no mundo das redes sociais”, escreve Pierre Omidyar no Washington Post, jornal cujo conselho editorial integra.

O fundador do eBay centra o seu texto no Facebook, mencionando que só recentemente a empresa terá tomado conta da responsabilidade social que, dado o seu peso, é obrigada a ter, prometendo mais transparência relativamente, por exemplo, à publicidade política que vende.

Pierre apresenta, um por um, os resultados de um estudo conduzido pelas equipas da Democracy Fund e da Omidyar Network, duas organizações que dirige, sobre a relação entre as redes sociais e a democracia. “O nosso desejo é que esta investigação sirva como ponto de partida para os líderes das redes sociais, legisladores, oficiais governamentais e outras partes interessadas aprofundem o impacto que esta tecnologia está a ter em nosso país e, em última instância, identificar soluções tangíveis”, escreve o executivo, lembrando que é um problema complexo que não consegue ser resolvido por uma única pessoa, empresa ou Governo. Tem de ser uma mudança conjunta, de todos.

Estas foram, então, as 6 principais conclusões do estudo:

1 – câmaras de eco, polarização e hiperpartidismo

De muitas formas, o design de certas plataformas sociais reflecte o crescente volume de conteúdos partidários nos canais tradicionais. À medida que se tornam o canal primário de distribuição, as redes sociais criam bolhas de informações e opiniões unilaterais, perpetuando visões tendenciosas e oportunidades decrescentes para discursos saudáveis.

2 – distribuição de informações falsas ou enganosas

Desinformação viral, muitas vezes rotulada como “fake news”, é difundida em todos os canais sociais, disseminada por actores estatais e privados. Essas informações falsas e distorcidas podem intensificar a divisão e tornar difícil para as pessoas confiar tanto no que lêem como sobre as pessoas e instituições sobre as quais estão a ler.

3 – conflito de popularidade e legitimidade

A ideia de que os gostos e retweets podem ser usados para medir a validade ou apoio da massa a um indivíduo, mensagem ou organização cria um sistema distorcido de avaliação de informações e fornece um falsa noção sobre a popularidade de determinados pontos de vista. Isso é agravado pelo quão desafiante pode ser distinguir as opiniões legitimamente expressas daquelas geradas por trolls e bots.

4 – manipulação política

Tais trolls e bots, disfarçados de cidadãos comuns, tornaram-se uma arma de eleição para governos e líderes políticos moldarem as conversas online. Governos da Turquia, China, Israel, Rússia e Reino Unido são conhecidos por terem contratado milhares de pessoas para gerirem múltiplas contas nas redes sociais  para mudar ou controlar a opinião pública.

5 – manipulação, micro-segmentação e mudança de comportamento

Anunciantes e os seus sofisticados mecanismos de segmentação impulsionam a economia da atenção. Nem todas essas mensagens têm o aspecto de anúncios ou são visíveis para qualquer pessoa fora do público-alvo, como foi o caso dos recentes anúncios patrocinados pela Rússia no Facebook e comprados durante a eleição dos EUA. Este modelo amplia o fosso entre editores e jornalistas e penaliza a receita e a sustentabilidade das organizações tradicionais de notícias, que carregam um grande poder.

6 – intolerância, exclusão e discurso de ódio

Várias políticas e funcionalidades destas plataformas podem amplificar o discurso de ódio, apelos terroristas, e assédio racial e sexual. Esses ambientes podem pode dissuadir aqueles que são visados pelo discurso de ódio de se envolverem nas conversas online.

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