Pixels Camp: pensar e viver como um geek

Do maior hackathon português resultaram várias boas ideias. Conhece-las melhor.

Entramos no Pixels Camp e imediatamente sentimo-nos num episódio de Silicon Valley, a série da HBO que tão bem satiriza o ecossistema das start-ups e o mundo geek da tecnologia. Não há Holi e o o nome mais parecido com a Pied Pipper que conseguimos encontrar é Pipedrive, um dos patrocinadores do evento; mas depois de vermos a série é difícil não reparar que todos os clichês e particularidades que ela apresenta estão ali, à nossa volta.

O Pixels Camp é um evento de geeks. São três dias em que 1200 jovens programadores se organizam em equipas para criar coisas novas. Ao todo, nasceram nesta edição cerca de cinco dezenas de projectos. Foram pensados e prototipados em  48 horas, num hackathon super intensivo. Tão intensivo que os participantes comeram, dormiram e acordaram no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, onde decorreu o evento.

Sacos de cama e colchões amontoavam-se ao lado das mesas de trabalho. Existiam também camas num dos superiores inferiores e chuveiros para quem precisasse. A comida (pequeno-almoço, almoço e jantar) no recinto era gratuita, assim como o café e todas as bebidas – de água a refrigerantes, passando pelas bebidas energéticas. Havia ainda fruta, sushi, pipocas e outros mimos, mas já deves ter percebido a ideia: condições impecáveis.

No final, só 10 dos projectos desenvolvidos no Pixels Camp foram destacados como vencedores – os 10 que mais dinheiro arrecadaram ao longo do hackathon, numa moeda criada para o próprio hackathon (e que só tem validade neste) – Exposure. O pitch final, no qual cada grupo teve um minuto e meio para apresentar a sua ideia aos 20 investidores e aos restantes participantes, foi decisivo, permitindo aos projectos amealharem as últimas quantidades de Exposures.

As equipas tinham total liberdade criativa, podendo explorar os problemas e necessidades que entendessem; contudo, na abertura do Pixels Camp, receberam algumas linhas orientadoras da parte dos patrocinadores, que disponibilizaram também parte da sua tecnologia (como APIs ou serviços de alojamento em nuvem). Numa espécie de pitch inicial, cada patrocinador teve 3 minutos para falar sobre si e as suas prioridades. “Todos os anos, temos dificuldade em passar as mensagens dos nossos patrocinadores para vocês, programadores”, comentou Celso Martinho, director executivo da Bright Pixels, que organiza o hackathon. “Fazemos mensagens nas redes sociais, blogue e newsletters, mas sejamos honestos, ninguém quer saber disso. Então porque não fazer os patrocinadores passar pelo mesmo sofrimento que vocês no final disto?”

Aproveitando a presença do Continente e da Worten no Pixels Camp e explorando as potencialidades da realidade aumentada, alguns projectos dedicaram-se a melhorar o processo de compra dos clientes. O projecto vencedor do hackathon teve, aliás, tudo a ver com isso: o HelpAR é uma aplicação que permite apontar o telemóvel para um produto numa prateleira de um supermercado e obter informação relevante e personalizada para cada um de nós sobre o mesmo. Por exemplo, se somos preocupados com saúde, vamos ver os dados nutricionais no ecrã do telemóvel. Já apontando para uma garrafa de vinho, talvez seja mais relevante ver as avaliações feitas a esse vinho numa escala de 1 a 5.

Outros projectos dedicaram-se ao sector automóvel, aproveitando as APIs disponibilizadas pela Mercedes-Benz e que permitiam localizar um carro e obter informação sobre ele, como o nível de pressão dos pneus e o nível de combustível, entre outras coisas. O mySmart foi o projecto que mais se destacou, tendo ficado em 5º lugar no hackathon. Trata-se de uma app móvel que permite gerir o carro, seja ver se tem as portas abertas, verificar o nível de combustível ou fazê-lo piscar as luzes para encontrá-lo num parque de estacionamento. Outra equipa desenvolveu o DriveChap, uma ferramenta para os pais controlarem os carros dos seus filhos, como um horário para utilizarem o veículo ou a velocidade máxima a que podem andar; a plataforma também guarda um histórico das viagens e permite localizar os automóveis em tempo real.

A diversidade dos participantes do Pixels Camp sente-se na heterogeneidade dos projectos desenvolvidos. O Qoop é um projecto de cozinha cooperativa, em que permite às pessoas juntarem-se e cozinharem umas para as outras, pagando as refeições através de Ethereum. Mais: por cada refeição comprada, estão também a oferecer uma refeição a quem mais precisa.

O Can I Agree nasceu de todos os termos e condições que ninguém lê mas aceita. Em palco, durante o pitch final, a equipa exemplificou que todos os termos e condições que aceitamos para criar uma conta de Skype, Amazon, etc são maiores que livros do Harry Potter e propôs uma comunidade que faz resumos dessa papelada para que os utilizadores possam saber os principais destaques e sentirem-se seguros quando se inscrevem num serviço. O projecto pode servir também para perceber as diferenças contratuais das operadoras de telecomunicações.

Houve ainda um software capaz de cantar qualquer música na nossa língua, um pequeno foguetão para transportar objectos numa cidade em pouco tempo ou determinada zona ou um mapa em tempo real dos níveis de poluição de uma cidade que nos sugere trajectos limpos. Outra equipa criou um mapa das zonas de wi-fi do Pixels Camp, que permite saber quantos acessos estão a ser feitos em cada router instalado no Pavilhão e, com isso, estimar o número de pessoas que estão em cada palco.

Entre os projectos não vencedores, está uma ferramenta para ajudar a combinar de saídas à noite; uma plataforma online para facilitar o networking em grandes eventos, conectando pessoas com interesses semelhantes; um bot no Slack – chamado Arbetriym – para auxiliar nas decisões de equipa e que, caso os votos não sejam consensuais, escolhe uma opção aleatoriamente; ou jogos de estilo retro (que é como quem diz cheios de pixels).

O Pixel It, por exemplo, é uma extensão para Firefox que dá um aspecto 8-bit ao qualquer site da internet e que, segundo os criadores, foi divertido de programar. Ainda neste campo artístico uma equipa fez o pixelscamp.art, uma ferramenta que transforma a nossa carteira de Exposure num quadro de arte. E outra, o Nethoven traduz o tráfego de internet num dado instante em música: a equipa analisou a internet do Pixels Camp e mostrou em palco uma música criada pelo seu algoritmo.

Paralelamente ao hackathon, aconteceram palestras e workshops, e uma pequena feira com algumas máquinas de impressão 3D, robótica da LEGO, massagens e desafios dos patrocinadores. O hackathon foi também complementado com outras competições, como o Launchpad, em que 20 start-ups foram desafiadas pelos patrocinadores (que o evento prefere chamar de parceiros) nos sectores da energia, telecomunicações, saúde e retalho.

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