Quem é Kazuo Ishiguro, o vencedor do Nobel da Literatura 2017?

O autor inglês de origem nipónica foi distinguido pelos seus "romances de grande força emocional, que revelam o abismo da nossa ilusória sensação de conforto em relação ao mundo".

Kazuo Ishiguro é um escritor britânico de origem japonesa que nasceu em Nagasaki, tendo-se fixado com a família no Reino Unido, no início da década de 1960. Destacou-se com os primeiros contos, publicados na revista Granta, escreveu para cinema e televisão, é autor de canções. Com Os Despojos do Dia venceu o Booker Prize, em 1989.

A secretária permanente da Academia Sueca, Sara Danius, descreveu o autor como uma mistura entre Jane Austen e Franz Kafka, com um pouco de Marcel Proust: “se misturar Jane Austen e Franz Kafka, então consegue-se Kazuo Ishiguro, na essência, mas tem de se acrescentar um pouco de Marcel Proust, para depois mexer – não muito”.

“Ao mesmo tempo, é um escritor de grande integridade. Desenvolveu um universo estético próprio”, afirmou Danius, que realçou que a Academia Sueca atribuiu o prémio à obra na sua plenitude e não a um livro específico.

Questionada, porém, sobre qual o seu livro favorito do autor britânico de origem japonesa, a secretária permanente da Academia Sueca disse encarar todos os seus livros como maravilhosos, verdadeiramente requintados, embora destaque O Gigante Enterrado.

“Ele é alguém muito interessado em compreender o passado, mas não é um escritor Proustiano. Não está à procura de redimir o passado. Está a explorar o que tens de esquecer para sobreviver, em primeiro lugar, enquanto indivíduo ou enquanto sociedade,” afirmou Danius.

Depois da decisão polémica do ano passado, que entregou o prémio de forma inesperada ao músico Bob Dylan, a secretária permanente da Academia Sueca realçou que não lhes compete julgar se um premiado é controverso ou não, e declarou esperar que o anúnciofaça o mundo feliz”.

O currículo de Kazuo Ishiguro

Educado numa escola de rapazes em Surrey, antes de ser um Nobel, Ishiguro foi um grouse-beater – alguém que afugenta galinhas bravas em direção de caçadores –, estudou Língua Inglesa e Filosofia na Universidade de Kent, na Cantuária, e foi assistente social nos bairros mais pobres de Londres.

No total, Ishiguro conta com nove obras publicadas que, em Portugal, são editadas pela Gradiva. A primeira, Introductions 7: Stories by New Writers, foi editada em 1981 e a mais recente, The Buried Giant, chegou às lojas em 2015.

Com o maior prémio literário do mundo recebido hoje, Ishiguro soma assim 21 distinções, sendo que entre elas contam-se galardões como o de Man Booker Prize para ficção em 2005, os dois Best of Young British Novelists atribuídos pela Granta em 1983 e 1993, e a nomeação como Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres em França no ano de 1998.

A sua obra-prima

Os Despojos do Dia, editado em 1989, é a sua obra mais aclamada. É um romance que conta a história de Stevens, um mordomo que relata o seu dia-a-dia e o relacionamento com a governanta Miss Kenton. Foi transposto para o grande ecrã em 1993, com Anthony Hopkins e Emma Thompson como protagonistas e é uma obra que se destaca pela forma curiosa como nasceu.

Num artigo escrito em primeira pessoa para o The Guardian, Ishiguro explica que demorou quatro semanas a escrever o livro. No verão de 1987, o autor vivia um período de sucesso e grande requisição: “Propostas de carreira tentadoras, jantares e festas, apelativas viagens ao estrangeiro e montanhas de correspondência tinham colocando um ponto final na minha capacidade de trabalho”, explica. Como tal, Kazuo e a mulher, Lorna, decidiram tomar medidas drásticas, por isso, durante quatro semanas, o escritor entrou num estado de reclusão total a que chamou de “Crash”.

“Todos os dias, de segunda a domingo, entre as nove da manhã e as dez e meia da noite, não fazia mais nada senão escrever”, escreve Ishiguro. Limpou “impiedosamente” a sua agenda, deixou o telefone tocar e o correio por ver. Aos 32 anos, conseguia assim, pela primeira vez, fazer com que o mundo ficcional que criava se tornasse “mais real que a realidade”.

Numa conferência de imprensa no jardim da sua casa em Londres, Kazuo Ishiguro revelou que quando o seu agente o avisou da vitória, pensava que eram “fake news”.

“Pensei mesmo que era uma brincadeira,” disse o laureado aos jornalistas. “Eventualmente”, continua, “uma senhora muito simpática ligou-me da Suécia a perguntar, antes de tudo, se aceitava o prémio.” Ishiguro confessou-se surpreendido pela subtileza da Academia Sueca, afirmando que esse telefonema quase parecia o de alguém que “me queria convidar para uma festa e tinha medo que eu recusasse.”