“Luiz Pacheco é o maior continente submerso da literatura portuguesa”

Palavras de António Cândido Franco, autor da biografia Luiz Pacheco – Essencial.

Foi durante a feira Raia – Tráfico de Edições, a decorrer por estes dias no Regueirão dos Anjos, na antiga Taberna das Almas, em Lisboa, que o profícuo historiador e escritor português António Cândido Franco deu a conhecer ao público a sua mais recente obra.

Desta feita, uma complexa obra biográfica sobre um dos mistérios mais sui generis e entusiasmantes da literatura nacional do século XX, Luiz Pacheco. Se não és aficionado das letras é provável que ainda não te tenhas cruzado com o seu nome. A sua fama de escritor maldito afastou-o das bancas nos últimos anos, mas Pacheco não era só marginal, era um Sr. Marginal, como o próprio ironizava.

Um Sr. Marginal com um talento ímpar para a literatura, uma capacidade de narrar emoções com uma autenticidade tocante e uma personalidade marcante que enche de ternura todos os que o recordam. Luiz Pacheco – Essencial, obra de Cândido Franco editada sob a chancela da Maldoror e da Letra Livre, foi apresentada num ambiente intimista onde não faltaram os amigos de longa data para recordar Pacheco entre risos. Um dos presentes foi o filho do próprio, Paulo Pacheco, actual depositário de parte da obra inédita do escritor.

Foi sob este pretexto que durante mais de uma hora, António Cândido Franco – que biografou outros incontornáveis como Agostinho da Silva, Teixeira Pascoaes ou Fialho de Almeida – exaltou a genuinidade e facilidade de Luiz Pacheco em produzir poderosos pedaços literários. Com nota sempre indispensável para textos como a Comunidade ou o Libertino Passeia Em Braga, escritos na década de 1960 e no princípio da sua carreira, Cândido Franco fez questão de acentuar sobretudo a segunda fase da carreira do escritor desconhecida da maior parte do público.

É que depois do sucesso das pequenas peças literárias– mesmo sob a proibição da PIDE –, Pacheco trocou as voltas aos editores, tendo-se dedicado à escrita pessoal diária espalhada por cadernos e… imagine-se, cassetes, do que tempo em que a vista não permitia a escrita. A última obra publicada de Pacheco é, aliás, a primeira chamada de atenção para essa sua fase. Diário Remendado, que ainda hoje se pode encontrar nas livrarias, compila quatro anos de uma obra total que se julga ter ocupado décadas.

Entre as habituais notas de apresentação do livro, as histórias caricatas por que Pacheco se afamou e a troca de impressões entre amigos e o filho do escritor, pudemos recordar a sua personalidade distinta, contrastante e, certamente, encantadora, e descobrir que parte da sua obra – possivelmente a mais importante – ainda está por editar. Foi uma tarde em que pegando nas palavras do biógrafo livremente, pudemos ter uma miragem daquele que é seguramente “um dos maiores continentes da literatura portuguesa do século XX”.

Se ficaste com curiosidade sobre este nome que não nos cansamos de nomear como ímpar, único ou icónico, o melhor é que procures junto de alfarrabistas as suas obras ou tentes fazer uma consulta na Biblioteca Nacional. Em circulação comercial é difícil encontrar as marcas deixadas por Luiz Pacheco. A edição dispersa em várias editoras e as tiragens curtas fazem com que muito já esteja guardado em posições inegociáveis. Se não tens oportunidade de começar já a leitura e não resistes em conhecer o autor, na internet e pela sua figura tão contagiante, é fácil encontrar um resumido documentário, da autoria do relizador António José de Almeida e da jornalista Anabela Almeida, que oferece uma boa perspectiva sobretudo sobre a vida de Luiz Pacheco – a obra, como dissemos, ainda não se conhece o suficiente para que possa resumir assim.

Para além da actividade de escritor que por vezes ofusca o resto, Pacheco foi um importantíssimo editor, função que merece nota. Entre os autores que editou – só e na companhia de Vitor Silva Tavares – figuram nomes como Herberto Hélder, Mario Cesariny ou António Maria Lisboa.

Previous Trump autoriza publicação de documentos secretos sobre a morte de Kennedy
Next Um novo tipo de apps chegou ao Android