O livro português sobre IA que Bill Gates recomendou

Pedro Domingos escreveu sobre inteligência artificial e aprendizagem automática, num livro que todos conseguem compreender.

O maior perigo da inteligência artificial não tem a ver com as máquinas poderem, de repente, virar maléficas e destruirem a Humanidade. A principal ameaça é esses computadores, capazes de processar quantidades descomunais de informação, superando as capacidades de processamento do nosso cérebro, serem muito estúpidos. É que, tal como nós, as máquinas podem errar por ignorância e esses erros podem ser fatais.

A explicação foi dada por Pedro Domingos, um dos principais especialistas em inteligência artificial em Portugal e autor do livro A Revolução do Algoritmo-Mestre, durante a apresentação da mesmo no fórum Fnac Tech, no Centro Comercial Colombo. “O mais seguro é tornarmos as máquinas mais inteligentes e não menos”, rematou, defendendo a continuidade do desenvolvimento da inteligência artificial e da aprendizagem automática.

Um dos exemplos que Pedro dá no seu livro é o da cura para o cancro. “Os sistemas de aprendizagem automática que desenvolvemos para encontrar curas para o cancro não vão de repente decidir matar pessoas”, alertou. “Contudo, podem causar a morte por acidente ou por terem ideias erradas, dado o conhecimento deles da medicina ser muito fraco.”

Pedro salientou que desejo de poder, pensamentos maldosos e definição de objectivos e consciência são características dos seres humanos e não das máquinas, e que estas são extensões dos primeiros. “Quando suspeitamos que a inteligência artificial e a aprendizagem automática está a tomar conta de algo, a pergunta que devemos realmente fazer é quem está por detrás desses sistemas. Se quem tem o poder tiver más intenções, pode usar essa tecnologia para fazer coisas más”, observou o especialista e professor de Ciências da Computação na Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

A Revolução do Algoritmo-Mestre é sobretudo um livro para nos explicar o que é a inteligência artificial e, em particular, a aprendizagem automática, dando-nos noções e ferramentas para que possamos compreender o impacto dessa tecnologia no nosso quotidiano. Um manual introdutório, com poucas fórmulas matemáticas e acessível a qualquer pessoa.

“A aprendizagem automática é uma tecnologia que, hoje em dia, toca continuamente a vida das pessoas”, disse. “Há muitas decisões, das mais pequenas às mais importantes, que cada vez mais são feitas pelos algoritmos e é importante que essas decisões nos beneficiem e seja tomadas da forma que nos as tomaríamos.” Pedro dá como exemplos as pesquisas que fazemos no Google e das quais obtemos resultados filtrados para nós, o feed do Facebook que procura aprender os nossos interesses para fazer uma melhor selecção dos posts a mostrar-nos, ou a Amazon que monitoriza a nossa navegação na loja online e as compras que fazemos para melhor nos recomendar produtos.

Mas há casos menos evidentes. “Um terço dos casamentos nos Estados Unidos começam na internet e são os algoritmos dos serviços de dating que juntam as pessoas. Há crianças que não teriam nascido se não fossem esses algoritmos”, explicou. Pedro deixou outro exemplo: os candidatos vagas de emprego que são pré-seleccionados por sistemas automatizados.

“É preciso as pessoas compreenderem, a um certo nível, o que é a aprendizagem automática e como ela funciona para que possam tomar as rédeas deste processo”, referiu. Durante o encontro no Fnac Tech, o especialista levantou ainda a preocupação com o facto de muitos dos sistemas de aprendizagem automática estarem na mão de empresas cujo objectivo é o lucro. “Sergey Brin, um dos fundadores da Google, disse uma vez que a empresa queria ser a terceira metade do nosso cérebro”, lembrou Pedro. “Mas talvez não quero que a terceira metade do meu cérebro ganhe a vida a mostrar anúncios. Quero que ela esteja sob meu controlo.”

O livro, que agora chega às livrarias portuguesas traduzido, foi recomendado por Bill Gates na sua versão original, em inglês – The Master Algorithm. Editado pela Manuscrito, este A Revolução do Algoritmo-Mestre fala sobre inteligência artificial, um conceito que ganha muitas formas práticas e que passa sobretudo por colocar os computador a comportarem-se de forma inteligente, recebendo dados e processando-os, encontrando uma solução.

A aprendizagem automática é uma evolução da inteligência artificial. “Se antes tínhamos de ensinar aos algoritmos como fazer um diagnóstico médico ou jogar xadrez para que pudessem executar essas funções, hoje eles aprendem observando-nos”, sintetiza o especialista. Por outras palavras, em vez de ensinarmos om computador a fazer uma determinada tarefa, passamos a ensiná-lo a aprender a fazer essa tarefa e a eventualmente outras tarefas “A primeira coisa de que devemos estar conscientes é que, sempre que interagimos com um computador, estamos a ensiná-lo sobre quem somos, de que é que gostamos e o que queremos, mesmo que aquilo que estejamos a fazer seja em primeira instância uma tarefa simples como uma pesquisa na web, ver um filme ou editar um documento de texto.

A Revolução do Algoritmo-Mestre está disponível por 16,11 euros nas livrarias (o preço inclui um desconto, uma vez que originalmente o livro custava 17,90 euros).

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