Quando os animais nos contam mais sobre nós mesmos

O que os golfinhos e baleias têm para nos ensinar sobre fofocas.

Foto de: Talia Cohen

Que existem muitas semelhanças entre o nosso e o reino animal já sabemos, mas o que é certo é que cada avanço científico na área mostra que aquilo que nos une é bem mais do que imaginávamos. Agora, sabe-se que à semelhança do que acontece entre nós, também os golfinhos e as baleias têm cada um o seu nome, através do qual se chamam uns aos outros, muitas vezes com canções que funcionam como “dialectos”.

O último estudo realizado por Susanne Shultz da Universidade de Manchester apoia a ideia de que os grandes cérebros evoluíram como resposta às exigências da socialização – por outras palavras, a inteligência humana pode, de facto, derivar de fofocas. 

Susanne afirma que “o que podemos dizer com certeza é que os grupos das baleias assassinas e os golfinhos nariz de garrafa estão a fazer coisas extremamente interessantes e são também aqueles que têm os maiores cérebros no seu reino”.

A socialização estabelece uma relação de proporcionalidade direta com a inteligência – quanto maior for o “convívio” maior será o cérebro. “As baleias azuis e as baleias boreais têm cérebros pequenos. Elas também parecem deslocar-se em agregações soltas. Não têm relacionamentos estáveis durante muito tempo, nem comportamentos complexos”, acrescenta Shultz.

Tal como acontece com os humanos, no caso das orcas que “vivem em sociedades de múltiplas gerações, o que as pessoas têm conseguido demonstrar recentemente, é que os indivíduos mais velhos são basicamente bibliotecas de informação e transmitem-na aos indivíduos mais jovens nos tempos difíceis”, refere Susanne. Por exemplo, em caso de necessidade ou escassez alimentar, as baleias assassinas sabem para onde se dirigir para arranjar alimento.

Outra curiosidade interessante é a presença de modas nas comunidades. Shultz defende a existência de provas de tendências fashionistas, “o que é realmente atraente num ano não o é no ano seguinte. É muito parecido com a nossa cultura e nossa moda. Uma população inventa uma nova música e passa-a para outras populações.”

Os golfinhos, orcas e outras espécies de baleias caçam em grupos, formam alianças e estabelecem relações, inclusive com seres humanos.

Nas comunidades de golfinhos cada indivíduo tem um chamamento específico, como se fosse um nome. É como se fosse um “Hey, Joana!”, explica Susanne, e acrescenta que esses “nomes” não são utilizados apenas em saudações, “por vezes eles parecem usar esses nomes quando os indivíduos não estão lá. Algo semelhante a fofocas.”

No entanto, grande não é necessariamente sinónimo de melhor. Na última edição da revista Nature Ecology & Evolution, a equipa de Shultz refere que os grupos médios são os que apresentam um cérebro maior, seguidos dos grupos grandes e posteriormente dos pequenos, ou individuais.

Susanne explica que “se realmente queremos entender quem somos, as baleias são um bom exemplo para entender o porquê os humanos se terem tornado espécies tão complexas”.
Alguns cientistas apontam a complexidade e inteligência dos seres humanos como fruto de uma interacção social que ocorre desde os primórdios da existência humana.