Não precisamos só de dormir, também precisamos sonhar mais

Depois da epidemia da falta de sono, conhece a epidemia da falta de sonhos e como podes controlá-los.

Maeghan Smulders/ Unsplash

A evolução dos tempos e da ciência provou que a velhinha sabedoria popular de quem diz que “A dormir não se alcançam vitórias” tem os dias contados. Aos provérbios, preferimos a sabedoria das mães que nos mandam deitar cedo para ter cabeça para a escola e os milhares de estudos recentes que ligam a falta de sono a doenças cardíacas e depressão. Um dos mais completos publicados nos últimos tempos dizia que menos de 7 horas são horas a menos, outro vai mais longe e diz-nos que uma sesta a meio do dia de trabalho é remédio certo para uma tarde bem mais produtiva. Mas dormir não é só descansar os ossos e a cabeça. Ao longo dos anos, os cientistas provaram também que tudo o que se passa no nosso subconsciente durante o sono tem influência nas nossas vidas e agora, vêm dizer-nos que não andamos a sonhar o que devíamos.

Uma afirmação polivalente, que podes levar para a tua vida na sua forma mais utopista, mas que deves interpretar na sua forma mais científica. Sonha com uma família, uma fortuna, o teu carro de sonho, uma profissão digna, uma viagem incrível ou amor da tua vida, mas sonha. De preferência enquanto dormes. É isto que diz o estudo do psicólogo e professor da Universidade do Arizona, EUA, Rubin Naiman com o título: Dreamless: The Silent Epidemic of REM Sleep Loss. Em linhas gerais, o trabalho conclui dois pontos principais: o primeiro, que os humanos modernos vivem privados de sonhos. Segundo, que isto não é apenas triste de uma perspectiva existencial, é também uma crise de saúde pública, provocada por uma combinação de factores de estilo de vida, uso de substâncias, distúrbios do sono e, “indirectamente, uma atitude desdenhosa sobre o valor e o significado dos sonhos “. 

Em primeiro lugar, é preciso clarificar que a ciência ainda não sabe com certeza o que é um sonho – uma ambiguidade que permite que cada área científica analise a questão aos seus olhos. Para os cientistas do sono, sonhar é o processo neurológico que acontece quando nossas mentes entram no chamado REM – rapid eye movement; para os psicólogos, são uma experiência significativa descrita duma perspectiva menos objectiva. Naiman acredita que a divisão entre os profissionais leva a uma interpretação redutiva e destrutiva dos sonhos. “Hoje, muitos de nós olhamos para os sonhos como olhamos para as estrelas – aparecem de noite e parecem magníficos, mas são demasiado distantes para que possam ter qualquer relevância nas nossas vidas reais”.

Muitas pessoas não se lembram dos sonhos, ou vêem-nos como um fenómeno casual. São poucos aqueles que pensam neles como algo mágico, e dedicam verdadeiramente espaço do seu cérebro acordado para os lembrar e revisitar. Para Naiman, os sonhos são em partes iguais magia, ciência e mistério. O psicólogo define os sonhos pelo que acontece na sua ausência: irritabilidade, depressão, aumento de peso, alucinações, perda de razão, memória e funções do sistema imunológico. E até uma perda da abertura espiritualidade. No estudo, Naiman refere que conhecemos essas consequências desde a década de 1960: quando os especialistas fizeram experiências nas quais privavam pessoas apenas do tal sono REM, descobriram que a maioria dos efeitos colaterais negativos reflectia os da privação total do sono. 

Os maiores inimigos dos sonhos

O despertador é o principal e é precisamente aquele barulho irritante que te indica que tens de te levantar da cama que corta os nossos períodos de sonhos”: “Imaginem ser abruptamente levados de uma sala de cinema sempre que um filme está a chegar ao fim”, escreve Naiman.

Também o álcool e a cannabis podem inibir significativamente o sono REM, e até os comprimidos para dormir, que aumentam o sono leve em detrimento do mais profundo. A luz artificial dos ecrãs, as lâmpadas e as luzes da cidade também inibem o REM. Finalmente, os distúrbios do sono, como a insónia e a apneia do sono, em crescimento nos últimos anos – provavelmente devido aos mesmos factores que a privação do sono, observa-se no estudo.

Para Naiman, somos nós e os nossos sonhos contra o mundo moderno. Uma luta para preservar um estado que enriquece a nossa vida diária (e acordada) muito mais que aquilo que podemos imaginar. 

Controla os teus sonhos (literalmente)

“Lose your dreams and you will lose your mind” disseram-nos em tempos os Rolling Stones, descontrola-os e serás feliz. Agora, um estudo, desta vez feito na Universidade de Adelaide, Austrália, desenvolveu técnicas de indução de sonhos lúcidos mais eficazes, que nos dão algum controlo sobre estes. Os sonhos lúcidos são aqueles em que estás ciente de que estás a sonhar enquanto o sonho ainda está a decorrer, e és capaz de controlar partes da experiência.

O psicólogo Denholm Aspy analisou três diferentes técnicas de indução: testes de realidade, “wake back to bed” e MILD (indução mnemónica de sonhos lúcidos). O teste de realidade envolve verificar o ambiente que te circundante várias vezes ao dia para veres se estás ou não a sonhar ou não. A MILD exige que acordes após cinco horas de sono, incutindo o pensamento de que estás a sonhar antes de voltares a dormir – e isso é feito repetindo a frase: “Da próxima vez que estiver a sonhar, vou lembrar-me que estou a sonhar” e imaginando um sonho. A técnica de “wake back to bed” é semelhante à MILD. Deves acordar após cinco horas, mas deves voltar a dormir sem teres completado nenhum exercício. 

O mais bem sucedido, dos 169 participantes que completaram o estudo, foi o grupo que completou a técnica MILD. Aqueles que adormeceram nos primeiros cinco minutos depois de completar MILD conseguiram um sonho lúcido em 46% das tentativas, enquanto o grupo que tentou uma combinação das três técnicas foi bem sucedido em 17% das tentativas. A explicação provável parece estar no período de tempo ocorrido entre pensar em sonhar e realmente adormecer. 

“O sonho lúcido tende a acontecer nas últimas duas horas de sono. Por isso, acordando depois de cinco horas de sono para a técnica MILD, vais ter uma intenção muito forte de sonhar imediatamente antes do seu período de sonho mais intenso”. Ter uma boa lembrança dos sonhos também pode beneficiar o sonho lúcido, e Aspy conduziu outro estudo para ver se a vitamina B pode ajudar a essa lembrança. Outros estudos examinaram como certas drogas, como Donepezil, e a estimulação de luz podem auxiliar os sonhos lúcidos.