Em quatro anos, o consumo de antidepressivos duplicou em Portugal

Durante o ano passado, saíram das farmácias quase 11,8 milhões de embalagens de medicamentos para a depressão, a ansiedade e outros problemas de saúde mental.

(Philippe Huguen/AFP/Getty Images)

O problema está literalmente na ordem do dia, ou não tivessem estes números sido divulgados no Dia Mundial da Saúde Mental, na passada terça-feira. De uma maneira geral, o Relatório do Programa Nacional para a Saúde Mental divulgado pela Direcção Geral de Saúde, conclui que os portugueses usam cada vez mais antidepressivos e antipsicóticos e que, apesar de se ter registado uma leve redução em 2016, o consumo de tranquilizantes e de medicamentos para controlar a hiperactividade nas crianças e jovens continua também a ser muito elevado.

Em números, os portugueses gastaram mais de 30 milhões de euros em embalagens para a depressão, ansiedade e outros problemas de saúde mental. Em 2016, saíram das farmácias quase 11,8 milhões de embalagens, mais do dobro de 2013 (cerca de 5,6 milhões). Segundo o programa para a saúde mental, a percentagem de utentes que em 2011 sofriam de perturbações depressivas seria 5,34%. Em 2016, a percentagem subiu para 9,32, registando o dobro de pessoas com este diagnóstico. No que diz respeito às perturbações de ansiedade, no ano passado sofriam desta patologia 6,06%, praticamente o dobro desde há cinco anos. O maior registo de utentes inscritos perturbações depressivas, de ansiedade e com demência encontra-se nas regiões do Centro e do Alentejo.

O relatório revela que a maior parte das pessoas acedeu aos psicofármacos através de receita médica. Se a cada ano que os números aumentam há sempre um contexto ou um motivo geográfico/político/social para os justificar – veja-se por exemplo entre 2012/2013 com o início “da crise”, – à medida que o tempo passa o problema vai-se enraizando, e como quase todas as questões que se arrastam a solução passa muito mais pela prevenção do que pelo ataque à pressa.

Em declarações à Lusa, o Bastonário da Ordem dos Psicólogos lamentou a falta de estratégia de prevenção que evite o aumento do consumo deste tipo de medicamentos. Francisco Miranda Rodrigues defende que os psicofármacos são uma “solução rápida” que apenas reduz os sintomas e salienta a necessidade de promover os tratamentos com especialistas na área. O estudo indica que houve uma descida no consumo de ansiolíticos e uma estagnação dos fármacos para as psicoses. Os autores concluíram ainda que os utentes com perturbações mentais – ansiedade, depressão e demência – aumentaram ligeiramente nas unidades especializadas desde 2011. Com estes resultados, a Direcção Geral de Saúde diz que quer estabelecer metas para melhorar o acesso dos doentes ao tratamento das perturbações psiquiátricas. O programa para a saúde mental entre 2017/18 prevê ainda a promoção de acções de combate ao estigma sobre a saúde mental nas diferentes faixas etárias.

Consumo excessivo de medicamentos

Portugal é um dos países da União Europeia que mais consome psicofármacos. Entre os medicamentos para o tratamento da saúde mental mais vendidos estão os tranquilizantes. Apesar dos sucessivas chamadas de atenção e alertas que se têm multiplicado nos últimos anos, uma vez que, ao contrário do que acontece com os antidepressivos, estas são drogas potencialmente de abuso, criam dependência e apenas actuam nos sintomas, os números têm aumentado e muito.  No ano passado, quando apresentou o relatório de 2016, o director do Programa Nacional para a Saúde Mental, Álvaro Carvalho, defendeu mesmo que o consumo de tranquilizantes em Portugal chegara a “níveis de risco para a saúde pública” e defendeu uma medida dissuasora –  a diminuição da comparticipação estatal deste tipo de medicamentos.

Recorrer a psicólogos

O elevado consumo de medicamentos antidepressivos no país levou o presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental a salientar que a “saúde mental não pode ser refém da psiquiatria”. Para António Leuschner, deve-se potenciar o recurso aos psicólogos como uma forma de evitar o consumo excessivo de medicamentos. Em grande parte das situações não é necessário recorrer de imediato a medicamentos, nota Leuschner, que enfatiza que a ideia de que um médico que não receite fármacos não está a prestar um bom serviço tem que ser combatida.

Ausência de cuidados adequados

Um terço dos doentes com perturbações mentais não recebe cuidados adequados, relevou a Ordem dos Psicólogos à Lusa. Quase 65% de pessoas com perturbações mentais moderadas e 33,6% com perturbações graves “não recebem cuidados de saúde adequados.” Perante os números, o bastonário dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues, afirma que ainda existem “muitos défices na capacidade de resposta” na área da saúde mental. O representante dos Psicólogos diz que “não basta divulgar o número de consultas realizadas na área da saúde mental sem perceber o significado desse número”. Para Francisco Miranda Rodrigues é necessário ter indicadores que permitam “perceber em que medida as intervenções contribuem para melhor a eficácia da saúde dos cidadãos.”

Mais financiamento na área

O financiamento dos hospitais na área da saúde mental vai ser alterado já no próximo ano. O secretário de Estado Adjunto e da Saúde avançou que as unidades especializadas nesta área vão passar a receber por doente em vez de receberem por consultas ou internamentos. A nova forma de pagamento do Serviço Nacional de Saúde aos hospitais procura facilitar o tratamento dos doentes na comunidade e no domicílio. À Lusa, o secretário de Estado com a pasta da saúde garantiu ainda que Portugal tem um dos programas na área do foro mental “mais ambiciosos da Europa”, sublinhando que é um “dos mais bem vistos pela Organização Mundial de Saúde.”

A saúde mental é um problema que o Shifter acompanha de perto, principalmente porque é uma realidade cada vez mais presente nas gerações mais novas, num mundo que parece que nos obriga a acompanhar o excesso de informação que cria, potencia a ansiedade e pede-nos que paremos um pouco. Dá importância ao teu sono, despeja a tua cabeça para o papel para deixares espaço para o que interessa, ou recorre a apps criadas para te deixar mais feliz ou que te ensinam a meditar.

Se quiseres saber mais sobre o assunto, conhecê-lo ou conhecer formas de o combater, liga para a linha de apoio SOS Voz Amiga em 800 209 899.

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