O choque de duas estrelas, a origem do ouro e o teu universo a abanar

Cientistas de mais de 70 observatórios de todo o mundo viram a primeira colisão de duas estrelas de neutrões.

Ilustração de: Mark Garlick/Universidade de Warwick

É considerado um dos eventos mais violentos do universo e foi divulgado ontem à noite por mais de 1200 cientistas de mais de 70 observatórios de todo o mundo. A 17 de Agosto astrónomos de todo o mundo assistiram, pela primeira vez, à colisão entre duas estrelas de neutrões. O acontecimento, que ocorreu numa galáxia a 130 milhões de anos-luz de distância da Terra, gerou ondas gravitacionais, que foram detetadas pelas equipas do Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (LIGO), baseado nos EUA.

A descoberta foi anunciada em conferências de imprensa simultâneas e, ao todo, foram publicados mais de 30 artigos em revistas científicas sobre o acontecimento. Trata-se de um marco histórico para as áreas da astronomia e da astrofísica. Imagina um evento cósmico que produziu ondulações no “tecido” espaço-tempo e um grande flash, mais brilhante que milhares de sóis. Pode ser difícil de imaginar, mas para teres uma ideia do impacto, este acontecimento foi tão importante que fornece respostas a vários mistérios da ciência como por exemplo, a origem do ouro e da platina na Terra.

As duas estrelas foram detetadas a 17 de Agosto. Os centros de pesquisa LIGO (EUA) e VIRGO (europeu) registaram depois ondas gravitacionais inéditas durante 100 segundos. Seguiu-se um “flash” de luz na forma de Raios Gama que foi detectado pelo telescópio Fermi da NASA e, logo depois, outros “mensageiros” do espaço: raios X, ondas ultravioleta, infravermelhos e ondas eletromagnéticas.

“Fomos capazes de ouvir o Universo”, disse Gregg Hallinan, do Instituto de Tecnologia da Califórnia.

As estrelas de neutrões são os objectos mais densos do cosmos – núcleos comprimidos de grandes estrelas que explodiram como supernovas há milhões de anos. As estrelas observadas na colisão tinham massa entre 10 e 60% maior do que a do nosso Sol. Corpos com este perfil cósmico “alcançam temperaturas extremamente altas, de até um milhão de graus. São muito radioativos, os seus campos magnéticos são incrivelmente intensos e seriam fatais para qualquer corpo que se aproximasse”, explicou Patrick Sutton, chefe da equipa de Física Gravitacional da Universidade de Cardiff.

Esta é a primeira vez que os cientistas observaram ondas gravitacionais como resultado do choque de duas estrelas de neutrões. Na verdade, Einstein já tinha previsto tudo isto em 1916, mas só no ano passado foi anunciada a sua detecção pela primeira vez (como resultado da colisão de dois buracos negros) – que valeu, aliás, a atribuição do prémio Nobel da Física deste ano a Barry C. Barish, Rainer Weiss e Kip S. Thorne.

Mas, afinal, a que grandes questões cósmicas respondeu esta descoberta? Os cientistas estabeleceram uma nova maneira de medir a velocidade da expansão do universo e confirmaram a teoria de Albert Einstein de que a gravitação se propaga à velocidade da luz.

Resolveram ainda o mais curioso enigma da origem dos elementos mais pesados da tabela periódica, como o chumbo, o ouro, ou a platina. Já sabiam que o Big Bang criou elementos como o hidrogénio e o hélio. As supernovas criaram elementos médios, como o ferro. Agora, confirmaram que a colisão deste tipo de estrelas é uma autêntica fábrica de elementos pesados, dada a abundância de neutrões. Estimam que este evento tenha gerado uma quantidade de ouro e platina que supera o tamanho da Terra inteira por 10 vezes.

“Temos dados suficientes para nos ocuparmos por um bom tempo!”, comemorou Benoit Mours, do Centro Nacional de Pesquisa Científica francês. “Com as ondas gravitacionais, conseguimos detectar um grande acontecimento. Trata-se de uma nova maneira de ver o Universo”, acrescentou.